O meu curso era foda!

Posted: Fevereiro 11, 2011 in cultura, educação, vida

Um estudo levado a cabo em Inglaterra, e publicado pelo famoso Sun, revela que os homens e mulheres amantes de tecnologia são os melhores amantes.

Eu não sei de onde saem estes artigos, mas sendo eu um informático, tinha de o resumir a isto:

while(!woman.aroused) {
    nipples.caress();
    snog++;
}

If (self.age > 50 && !self.aroused) {
    self.takePill(blue);
    wait(20);
} 

try {
    woman.penetrate();
    while(!woman.orgasm || !self.orgasm) {
            // selfish bastard in logic operator above
            self.utils.use(imagination);
   } catch (UnsuccessfulSexException) {
          System.out.println("This is the first time it has ever happened to me");
          self.embarrass();
          newspaper.sun.article.rewriteFacts();
   }

Clica na imagem para ler o estudo:

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O futuro começa agora

Posted: Janeiro 30, 2011 in civilização, progresso, Sonhos, vida
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Há uma praga chinesa que diz qualquer coisa como: “Que vivas em tempos interessantes”.

Eu acho-a fascinante. Primeiro porque para os portugueses o termo “interessante” não tem geralmente uma conotação negativa, ao contrário do que acontece em Inglaterra onde o termo pode ser usado como um eufemismo para “lixo” – por exemplo, se alguém vos disser “that’s interesting” acerca de uma opinião vossa sobre qualquer coisa, podem interpretar isso como “é muito interessante que o teu cérebro seja capaz de desenvolver a uma opinião tão absurda”.

Segundo por ser chinesa. Não o acho por razões xenófobas mas sim pela coincidência de à grande crise que se abate sobre a Europa e os EUA se contrapor um período de enorme bonança (e Bonanza) para a China. Como se os tempos segundo eles interessantes se virassem para nós, e para eles se voltassem os tempos interessantes segundo nós. A verdade é que entre os séculos 5 e 15 a Europa esteve enterrada numa profunda crise cultural e económica, durante a qual a civilização Chinesa conheceu grandes momentos. Estaremos a caminho disso mesmo outra vez?

Até ontem eu era da opinião que mais um ciclo se teria fechado para a Europa e os EUA, com países como o Brasil, a Rússia, a India e a China (o BRIC) a vestirem a camisola amarela durante os próximos séculos, até um novo volte de face na corrida pôr outro galo no poleiro. Mas hoje não acho isso, em grande parte por causa do filme com que acabo este post, mas também por achar que o mundo de hoje está tão inter-ligado e é consequentemente tão mais pequeno que não é fácil ter sol na eira e chuva no nabal.

A terceira razão pela qual eu gosto da dita praga é que acredito que esta Civilização chegou ao fim. Finito – para nós assim como para os chineses, para os americanos assim como para os egípcios. Calhou-nos viver a viragem de uma página como a queda do império romano, o Renascentismo, ou um outro desses momentos determinantes na história da Humanidade. E isso é interessante a todos os níveis.

Os últimos séculos foram impulsionados pela finança, uma alavanca que nos serviu para muito mas que agora começa a cheirar mal p’ra caraças. Quando 1% da população mundial detém 40% da riqueza e 10% detém 85%, é natural que da Grécia ao Egipto, da Tunísia à Inglaterra o pessoal comece a desatinar.

Como se tal não chegasse, começamos a perceber que os mercados planeiam a obsolescência dos produtos, que os bancos fazem milhões sem introduzirem valor na economia (como é o caso com o trading robotizado, realizado ao micro-segundo), e que quando a coisa corre mal pedem ao  povo que salve o mesmo negócio que enterra o pessoal em dívidas.

Tudo isto é alimentado por recursos limitados (energéticos e não só), que não só começam a escassear como, para cúmulo, são mal distribuídos. A este rítmo de consumo, e com a a produção de bens deliberadamente desenhados para a obsolescência para assim re-alimentar este modelo económico, em 2030 precisaremos de duas Terras o que não é fácil de arranjar, para usar um eufemismo.

Esta crise, enraizada no modelo financeiro e monetário que o mundo adoptou, não vai passar porque está a ser combatida com as mesmas armas que a criaram: mais dívidas (ao nível dos Estados), preocupação constante com o crescimento económico (como se fosse possível manter esse crescimento com os recursos que temos), obsessão com o PIB e outros indicadores económicos e total desdém pelo bem estar dos habitantes do planeta. Ou seja, a crise é estrutural, vem do próprio sistema que já não é viável, e piorará se não for combatida com outras armas.

O desemprego está aí para aumentar. Mesmo na minha indústria (a em tempos milionária do software), há uma crise a abater-se com a automatização do desenvolvimento (geradores de código) e a “commoditisation”  do software. Programadores estão a ser despedidos aos molhos aqui no reino unido, há muito menos oportunidades de emprego, e as que há são mais mal pagas dos que eram há 5 ou 10 anos atrás. A tendência é piorar.

A política é, literalmente, uma fantochada sendo completamente irrelevante quem se elege ou não. De facto, a abstenção é a única forma de demonstrar realmente o valor deste modelo, dizendo claramente: não me interessa, quero outro.

Ou seja, estamos fodidos?

Eu gosto de pensar que não. Eu acho que a Humanidade é capaz de coisas fabulosas, em especial nas épocas de maior crise. Acredito que precisamos de um modelo global, centrado em recursos, assente em software para gestão desses mesmos recursos, sem dinheiro como forma de transacção comercial e com uma preocupação constante na igualdade de oportunidades para todos os cidadãos do mundo. Temos os recursos, a tecnologia e o interesse comum em ir nessa direcção: Este é um exemplo, mas haverá modelos alternativos por aí seguramente.

Esta crise só pode ser vencida com um salto civilizacional estonteante, que não ocorrerá sem estrebucho da parte de quem hoje corta o bacalhau e de mais alguns que se amedrontem com a mudança, mas que cuja não efectivação pode significar a nossa morte enquanto espécie. Tal como a dinastia Ming, uma das grandes eras de governo e estabilidade social da história da humanidade, começou com uma revolução, eu estou convicto de que o salto de que precisamos terá de começar também aí, e que as notícias que vemos do que se passa por esse mundo fora não são menos do que o começo disso mesmo.

Ou seja: temos assunto para canções (e outras formas de arte), uma oportunidade de ensinar coisas melhores aos nossos filhos, e o dever de destronar quem está no alto deste modelo e nos fode de fininho para darmos um salto qualitativo nas nossas vidas, ou pelo menos ficarmos na história como a geração que o conseguiu para quem depois vier a conhecer céus mais azuis.

Tempos interessantes? Podem crer! Vejam só:

Eu e a Fenther, Episode I

Posted: Janeiro 24, 2011 in cultura, educação, vida

19h 40m. Para trás e para baixo afastavam-se as luzes da cidade que me viu crescer. À frente aproximava-se a cidade que provavelmente me verá envelhecer e à custa de cujo frio espero que se atrase esse processo, qual robalo num frigorífico.

Entre uma e outra, em Vigo, pareciam ainda sentir-se os cheiros do Cozido Galego que agraciou um dos recentes dias de gravação dos Trabalhadores do Comércio e, não fosse tal uma impossibilidade física, era capaz de jurar que dali me chegavam alguns dos sons que lá registámos. Tratava-se, evidentemente, de um fenómeno psico-acústico fácil de explicar se aceitarmos que o que está num disco é um espelho do que está nas cabeças de quem o grava.

Enquanto o tempo parecia não passar para que pudesse reencontrar-me com a minha família, aquele momento a bordo do Airbus A320 da TAP pareceu-me o ideal para efectuar balanços e rever planos, e melhor ainda para escrever um primeiro artigo para a Fenther, com o orgulho que me merecem a iniciativa e amizade do Vítor Pinto e da Ana Gabriela Sousa; É que fazer um site de importância crescente no panorama cultural português, independente e movido por um genuíno interesse pela cultura nas suas várias formas de expressão é, não só uma forma de serviço público mas um exemplo de que a tomada de acção é que provoca resultados, sendo por isso mesmo inspirador em todos os sentidos.

Está aqui o primeiro, com orgulho e vontade de repetir: Do negócio da cultura para a cultura do negócio.

O verdadeiro Artista

Posted: Janeiro 6, 2011 in cultura, Jornalismo

Alguns dos meus companheiros músicos têm falado e escrito acerca da forma como os actuais DJs de rádio e playlisters (nas grandes) parecem comportar-se como se fossem eles os verdadeiros artistas, a quem bandas, compositores e intérpretes têm de prestar vassalagem. Eu próprio conheço de perto uma realidade desse género, demasiado próxima deste caso concreto para o meu gosto.

Venho apenas comunicar aos interessados que tal estatuto de artista foi formalizado, conforme se pode ver neste cartaz. Para já pelo menos, ainda deixam os músicos aparecer no convite juntamente com o “artista convidado”. Em que tipo de arte se especializará?

Um amigo meu, proeminente escritor sobre música, em tempos (talvez até presentemente) director de programas de uma rádio regional , homem na casa dos 40 anos,  é um dos muitos indignados com o tratamento que revistas como a Blitz ofereceram a efemérides como os 50 anos da edição do primeiro disco do Rock Português, ou a recente homenagem da Sociedade Portuguesa de Autores a 50 nomes do rock português, em cuja lista tenho a honra de ter sido incluído pelo meu trabalho com os Trabalhadores do Comércio.

Tendo manifestado o seu espanto online em vários sites, ficou ainda mais perplexo com a defesa generalizada que foi prestada à Blitz. Conhecendo o meu relacionamento com a crítica, pediu-me uma opinião, que aqui deixo transcrita. Agradeço também a vossa opinião.

—-
Caro X, Escrevo-te à medida que estruturo o meu pensamento para te dar uma resposta. Estou interessado em saber o que pensas dela. (perdoa-me as falhas ortográficas – uma luta dos tempos de primária válida ainda hoje, a que não ajuda a ausência de um corrector ortográfico português neste computador inglês. A rebeldia contra o novo acordo ortográfico, essa sim, é intencional e continurá até à minha morte!)

Eu tive o meu choque anafilático com o jornalismo musical português aquando do lançamento do Iblussom, a que não é alheio ser o primeiro disco meu no qual tenho uma influência consciente e determinada (na opinião de alguns, determinante) no processo de composição, arranjo e produção.

Talvez por isso, levei a peito muitas das opiniões proferidas, as boas e as más, e sobre isso tive oportunidade de falar contigo e de inclusivamente gastar horas minhas a dispensar tintal digital no blog dos Trabalhadores e em outros meios. Uma espécie de exorcismo pessoal útil mas de pouca ou nenhuma relevância de massas.

A distância do tempo cria um afastamento emocional que me permite agora analisar as coisas em termos talvez um pouco mais isentos, embora a essência das minhas opiniões não tenha mudado e seja, indiscutivelmente, influenciada pela minha posição de “alvo da crítica” (sem sentido pejorativo).

Antes de mais convém perceber que Portugal é um país culturalmente pobre. Muito mais pobre nesse domínio do que no financeiro, tecnológico ou industrial. Isso é consequência de não serem ensinados nas escolas portuguesas conceitos fundamentais de estética, de expressão cultural e intelectual, da importância das artes na sociologia dos países, (em sentido inverso) dos contextos sociais e económicos que suportam essas formas de expressão, etc.

A minha filha de 11 anos, por exemplo, tem andado a estudar música e arte gráfica dos anos 60, 70 e 80. Quem eram os Beatles, o Andy Warhol, o Roy Lichtenstein e o Freddy Mercury? Qual o significado do seu output no tempo em que ocorreu? Porque durará o seu output até aos dias de hoje? Qual a realidade económico social daquele tempo e de que maneira influenciou estes artistas? Que técnicas usavam e a que “escola” pertenciam? Fá-lo integradamente nas disciplinas de Humanidades, Inglês, Educação Visual e Música! E já agora, no grupo coral a que pertence, canta Lennon, Guns and Roses, Journey, Stones e Crowded House para audiências escolares que variam entre dezenas e um par de milhar de pessoas. Isto dá-lhes referências e sentido estético próprio e integrado! Faz isto numa escola pública que me custa ZERO por mês.

O povo português não tem, no sentido lato, nem este desenvolvimento nem referências que permitam ao comum dos mortais apreciar criticamente uma forma de arte. Quando assim é, procuram-se essas referências junto de outrém – os amigos e os “opinion makers” passam a ser fundamentais por serem, de facto, a base da sua opinião acerca do seu consumo artístico pessoal.

No caso da música, o Blitz tornou-se a principal fonte de critica especializada, especialmente depois da morte do Se7e, do Musicalíssimo e da Música&Som (e possivelmente de outros anteriores tão ou mais relevantes, mas que desconheço por serem anteriores a 72).

Desgastar fontes de referência como o Blitz equivale a retirar o tapete intelectual e emocional de cada leitor dessa revista no que respeita ao seu consumo artístico pessoal. Isso acaba por ser uma forma de ataque pessoal impossível de suportar e que merece a mais acérrima das defesas! “Não digam mal do jornal X porque ele determina em grande medida quem EU sou” (opinião inconsciente, o que a torna ainda mais forte e dogmática!).

Curiosamente, muitos críticos sofrem eles próprios destes males, procurando referências noutros sítios, concretamente nas revistas ditas “cool” vindas dos EUA e do Reino Unido. Com isso descontextualizam  a produção artística versada e amplificam a grandeza de um artista Inglês ou Americano num contexto social onde outros (nacionais) merecem muito mais destaque!

A falta de preparação cultural e a dependência dos próprios críticos (de alguns pelo menos) nos seus pares internacionais tornam-nos incapazes de perceber o produto artístico português sobre o qual lhes pedem análise ocasional. Porquê? Porque eles próprios não têm essas referências – daí que não se importem com os 50 anos da música portuguesa, com o Arte&Oficio ou com o Pop 5. E estes não fazem parte das suas referências porque não são ensinados nas nossas escolas.

Os putos de onze anos em Portugal deviam aprender nas suas disciplinas de musica, história, e português acerca do Zeca, do Ary, dos A&O, Pentágono, GNR, Sérgio Godinho, etc e dos contextos economico sociais em que apareceram! O sistema de educação não está para isso e assim se perdem as referências que depois se procuram “lá fora”.

Trazendo esta análise para o meu caso pessoal: Os Trabalhadores do Comércio estão inseridos na 3a região mais pobre da Europa, no país mais centralista da Europa, sofrendo na pele (quer a título pessoal quer no seu círculo social) os dramas dessa realidade. O nosso próximo disco é quase exclusivamente sobre estas coisas, não por estratégia comercial, mas por genuína e mais do que compreensível expressão artística.

Achas que os críticos que sobre ele vão escrever vão perceber estas questões ou procurar enteirar-se delas? A simples questão do sotaque à Porto não é vista como uma forma de afirmação cultural mas sim como “uma parolice fora de moda”! Salvo raras excepções, não estou à espera de nenhuma forma de crítica contextualizada e estou preparado para mais um assalto da crítica “cool” e “moderna” àquele que é na minha opinião o nosso melhor disco, talvez por não soar suficientemente a “Tricky” ou a “Radiohead” ou a “U2” ou a “Lady Gaga”. A ver vamos.

Portanto, estou a tentar viver com este tipo de crítica e “opinion makers”, pensando sempre que nos custa uma existência de mais concertos e maior sucesso financeiro o que, curiosamente nos empurra para um estilo cada vez mais genuinamente independente. Talvez assim estes pseudo-indies acabem também a gostar de nós e de outros como nós (a título póstumo, depois de morrermos de fome?) 😉

Quanto aos seus defensores, precisam dessa crítica para terem pensamento e, com isso, existirem (segundo Descartes). Não leves a mal – sorri antes por teres pensamento próprio, referências e base cultural invejáveis em Portugal. E continua a escrever sobre estes tópicos porque Portugal agradece.

Um abraço

João

——

E vocês, que têm a dizer de tudo isto?

Hoje, enquanto eu discutia o sexo dos anjos com uma equipa de doutorados de Cambridge numa aquecida sala da City of London, um debate bem mais quente acontecia no meio do frio da cidade. Em causa estava, aparentemente, o triplicar das propinas das Universidades. Na realidade, o que estava em causa era mais um exemplo da prepotência e da falta de seriedade política, o agravamento (desejável para quem está no poleiro) da sociedade de classes com fossos cada vez mais acentuados entre cada um dos seus estratos, o abuso de poder, a hipocrisia.

É o argumento de que as proprinas precisam de subir como consequência da crise enquanto se perdoam 4.5 mil milhões de libras de impostos à Vodafone. É o aumento das propinas debaixo do argumento da crise enquanto o próprio ministro das finanças tira partido de uma insuficiência legal (seguramente planeada) para fugir a uma conta de impostos que ascende a milhões de libras e pedir aos tesos que apertem o cinto, concretamente à custa da sua educação.

É a imposição de uma dívida não solicitada aos jovens que, assim, começam as suas vidas algemados pela banca, via Estado (o mesmo estado que subsidia a irresponsabilidade da banca gananciosa que criou esta mesma crise!!!).

E é fazer tudo isto depois de ter formado governo depois da promessa de que reduziria (em vez de triplicar) estas mesmas propinas, como foi o caso dos Liberais Democratas.

É a cara de pau de dizer ao eleitorado: “nós prometemos o que vocês quiserem para ganhar o vosso voto, para depois vos fodermos na posição que mais prazer e conveniência nos trouxer.”

E, acima de tudo, é fazê-lo a uma geração que se guia por valores diferentes: mais informada, mais social, mais preocupada com a sua realidade e com o futuro do planeta e, consequentemente, mais descrente na classe política que actualmente protege os interesses de muito poucos à custa do sacrifício de imensos muitos.

Quando a violência das classes políticas, aqui resumida a este episódio mas realmente abrangendo todos os domínios da vida pública – da finança à sustentabilidade do planeta, da pseudo-liberdade de imprensa (wikileaks, anybody?) à corrupção, chega a estes extremos porque razão deverão as massas oprimidas retribuir pacificamente?

Em Inglaterra, o pessoal não deixa a coisa em banho maria. Trá-la a ponto de ebulição assim que sentem a água a aquecer, e assim deve ser – cada um à sua maneira. Deixo aqui o meu cumprimento sentido a quem se afirma contra aquilo com o qual discorda.

Porque não atacar servidores de empresas que protegem o terrorismo de estado? Porque não partir vidros nas sedes de partidos políticos e, se possivel, também a cara a alguns dos seus representantes?

E quanto ao argumento “politicamente correcto” de que os protestos se fazem com cravos e ramos de alfazema,os demagogos utilizam esse argumento como forma de ganharem credibilidade através da descredibilização dos protestantes. Quem está na mó de baixo, não tem mais alternativas: é que a do voto agora já vem tarde e, acima de tudo, aparenta ter sido um fiasco da última vez que foi experimentado (há 3 ou 4 meses atrás)!!!!!

A revolução é precisa e não se faz só com uma mão. E em Portugal, quando começará?

Talvez reflexo da merdosa existência que a maior parte da sociedade vive, parece que a única maneira que alguns dos seus indivíduos têm de se sentirem bem consigo mesmos é encontrar pontos de diferença cultural com outros povos e sumariamente classificar essas diferenças como uma inacreditável ignorância da outra parte, merecedora da maior chacota possível.

Se se tratar de uma ex-colónia, daquelas que durantes séculos violámos (os Tugas de transantanho, eu não!) para depois, a custo, abandonarmos com o rabo entre as pernas enquanto recebíamos um monumental pontapé na peida, então os epítetos que escolhemos para essas gentes parecem ganhar uma dimensão adicionalmente saborosa, tanto quanto ignorante – a da vingança.

Um caso recente é a proliferação de publicações no facebook (e outras redes) de concursos (africanos, na sua maioria) em que os concorrentes não sabem o que é um violino ou um violoncelo, com isso merecendo comentários como as seguintes pérolas:

ololol
e eu que pensava que os instrumentos musicais eram universais….
afinal não….”

Estes gajos aki Sao Mesmo Bumbos pá! No episodio há Dias Ouve um que disse que Clarinete era Uma Peça De Roupa! Para tu veres as Peças qué há Aki Em Angola! LOL

Pois…

Eu sou dos que se orgulha de ter concluído com sucesso uma disciplina de Estatística na Universidade. Acabei outras também (não foi só essa!), mas essa teve a peculiaridade de eu nunca ter conhecido o professor – o assunto era demasiado enfadonho e evidente para me merecer madrugadas (das 8 às 10) a aturar palestras secas. É pena, porque se lhe tivesse tomado o gosto, talvez pudesse estudar o seguinte acerca desses génios neo-colonialistas:

  • Quantos dos senhores saberiam responder a pergunta semelhante acerca de um Saltério, um Kora, um Doumbek, Didgeridoo ou um Duduk – todos eles extremamente populares nas respectivas culturas de origem? Ou, para jogar mais perto de casa, o que são um carrilhão, uns timpani ou um fagote?
  • Quantos deles aceitaria como válida a premissa de que , comparativamente, mostra muito mais ignorância quem julga que os instrumentos musicais são universais (tocados com igual popularidade em qualquer parte do mundo) e que se resumem àqueles 15 ou 20 que se ouvem nas sinfónicas da europa ocidental? Em particular, saberão que o cello e o violino não são propriamente os alicerces da música popular africana como são na Europa?
  • Quantos aceitam a premissa de que a falta de respeito pelas culturas de onde se extrai riqueza é um perigoso sinal de ignorância neo-colonialista com pelo menos 400 anos de atraso, inaceitável em 1500, e ridícula em proporções cósmicas nos dias de hoje, essa sim merecedora da maior chacota possível (pelo menos em sociedades que não a punam com prisão ou internamento psiquiátrico)?
  • Quantos saberão que muitas pessoas de países tropicais não sabem o que é um sobretudo? Sim, essa peça de roupa que qualquer europeu veste umas boas dezenas de vezes por ano e que, como é lógico, mais do que inútil pode ser mortal nos trópicos? E quantas peças tropicais serão desconhecidas na Europa por, justamente, estarem desprovidas dos necessários contextos climatérico e cultural para chegarem a ter relevância que lhes mereça léxico próprio?

Ignorantes todos somos, e na maior parte das matérias! Mas a falta de consciência de nós próprios e a vontade de nos afirmarmos com estes laivos de pseudo-superioridade cultural deixam-me tão perplexo quanto revoltado, especialmente ao perceber que muitos dos que participam nesta orgia são, ou têm obrigação de ser pelas suas qualificações académicas e estatutos profissionais, gente inteligente – o que com isto não demonstam.

De facto, fica a pergunta com que abro o texto: De todos os burros do mundo (6 mil milhões, mais catraio menos catraio, espalhados por 5 continentes) serão estes troçadores os burros com maiores orelhas?