Das turmêntas hà boua isperansa

Capa de Alberto Almeida para o disco/livro dos Trabalhadores do Comércio

Imagem  —  Posted: Janeiro 6, 2012 in Trabalhadores do Comércio

A estas horas os Trabalhadores Do Comércio estão a entreter o pessoal de Chaves enquanto eu me entretenho em Londres a ouvir o novo disco desta pandilha, que sai para a rua dentro de menos de um mês. Falta misturar um tema e fechamos a obra, que demorou mais a parir que qualquer uma das outras. Se é melhor ou pior do que as anteriores, cada um que decida por si.

Fazer um disco com este grupo é uma das experiências mais energizantes e ao mesmo tempo desgastantes que se pode ter. Se, por um lado, o espírito criativo de cada um dos membros (salvo seja) e do colectivo em geral parece realimentar-se com cada ideia, por outro a procura de momentos genuinamente especiais leva a longas horas de trabalho, quer na gravação quer na mistura, até que o resultado seja, para nós pelo menos, excitante . Mas afinal, o que significa isso?

Os Trabalhadores sempre foram um grupo com densidades musical e lírica nem sempre reconhecidas, ora por estas se esconderem, em tempos idos, por de trás da voz do grilo do Pinóquio (numa espécie de combinação non-sense que parecia amaciar a paulada), ora por, na minha opinião, serem eclipsadas por singles icónicos da história da banda e, assim ditariam as massas, da própria música popular portuguesa, que se colaram ao grupo como o musgo à rocha, escondendo-a por conseguinte.

A excitação que procurámos neste disco é a mesma em quantidade, embora de diferente qualidade, da de há 30, 20 ou 5 anos. Se Iblussom trouxe a energia de um grupo de velhos amigos, por um período separados pela vida, cheios de vontade de fazer coisas juntos e bem feitas, este novo disco mostra de que forma essa amizade evoluiu. Sou da opinião que a evolução de 2007 para agora é maior do que foi entre 2007 e o disco anterior (96). Muito maior.

Já o escrevi várias vezes, mas nunca é demais repetir, que as “aquisições” da Marta Ren, Diana Basto, Daniela Costa na sequência de Iblussom, e do Pony e do Pedro Rangel nos últimos 2 anos levaram os Trabalhadores a encontrarem uma sonoridade com uma consistência e uma ambição que ultrapassam largamente a de qualquer outro dos nossos discos, excepção feita talvez ao Trip’s e ao Nabraza por alturas do Cretáceo.

Alguém dizia, acerca de um recente concerto ao vivo em que apresentámos parte do disco, que a música do novo álbum é mais interventiva. Não sei se estou de acordo pelas razões apresentadas antes, mas não há dúvida que é um disco de mensagens fortes e relevantes para os tempos que correm, ditas à maneira dos Trabalhadores com sarcasmo e humor corrosivo quanto baste. Espero apenas que não continuem válidas dentro de 20 ou 30 anos, como acontece hoje com letras dos Trabalhadores da década de 80!

Em resumo, a excitação que procuramos ao gravar, e que oxalá consigamos transmitir ao ouvinte, é a de um grupo de pessoas que, apesar de pertencerem a gerações diferentes e terem backgrounds artísticos diferentes, vivem um só espírito, sem reservas nem medo, com a plena consciência da responsabilidade das suas escolhas, e com a noção de que viver é a concretização de um espírito que tem tanto de crítico como de exigente, de sério como de humorístico, de denso como de leve.

Das Turmêntas hà Boua Isperansa, este disco que acabo agora de ouvir, é a concretização desse espírito. Espero que gostem tanto dele quanto eu, quando o ouvirem em Novembro.

João e Pony em estúdio para gravação do Tormentas. Foto de Alberto Almeida

Ora com tanta coisa para fazer, tinha logo de aparecer uma dessas coisas das “regras” para me desencaminhar e me trazer para o Blog. Mais uma vez, passaram-se meses sem aqui escrever, por falta de tempo, mais do que qualquer outra coisa. Desta vez, o assunto é línguas.

Hoje li no Facebook, em vários perfis, a estupefacção de muitas pessoas, a juntar à minha própria, ao aprenderem o “verdadeiro” plural de “refrão”.

Não estou sequer preparado para admitir que afinal as minhas canções têm refrães, porque não têm. Foram escritas, como muitas outras, de muitos compositores, com refrões com um O bem redondo.

Claro que não está aqui em causa debater a magnifica sapiência dos linguístas que nos chamam a atenção para estas coisas, mas antes chamar a atenção para a sua função, que parece ter um caracter um tanto ao quanto dictatorial em Portugal.

Depressa se apressaram os amigos dos meus amigos, qualquer deles mais cultos do que eu, pelo menos em matéria linguística, a explicar que a regra depende do som da sílaba átona, e que daí se escolhe se de “ão”  se passa a “ãos”, “ões” ou “ães”.

Como alguém dizia nessas discussões, isto é pior que levar um xuto nos quilhães.

Era capaz de jurar que 99% dos portugueses diz “refrões” e não “refrãos” ou “refrães”. Não será isto motivo mais do que suficiente para garantir a este plural legitimidade linguística?

Realmente, e pensando na qualidade de nortense de cujo sotaque me orgulho e faço por perservar, o som “ães” e “ões” é extremamente parecido quando dito na terminação de uma palavra, sendo o primeiro mais difícil de dizer que o segundo. Não terá o plural “refrões” evoluído fonicamente do original “ães”. Seria uma justificação mais do que plausível, sendo se calhar até provável! Realmente, quanto mais penso nessa possibilidade mais ela se me afigura como certeza – algo que, evidentemente, não estou em condições de provar.

Admitindo que possa ser esse o caso, pergunto: As metamorfoses fonéticas, não fazem elas próprias parte da evolução de uma língua? Realmente, não o serão mais legitimamente do que ideias políticas e comerciais de unificação de idiomas semelhantes (mas diferentes!) que atropelam a riqueza única de cada uma dessas variantes linguísticas e das culturas que representam?

Mas afinal a Língua é refém da Gramática, ou será esta última uma tentativa (sempre incompleta e atrasada) de formalizar, de um ponto de vista analítico, a primeira? É que, meus amigos, a Lingua é aquilo que as pessoas usam para comunicar e não aquilo que 4 “entendidos” decidem pôr num compêndio de regras e menos ainda o que 2 vigaristas decidem cagar em forma de lei debaixo do título de “acordo ortográfico” (acordo entre quem? e quem não está de acordo?).

A Lingua é uma coisa viva, dinâmica, cheia de regionalismos e sotaques. O “Pape-sêque” de uns é o “pom” de outros, e quer num caso quer no outro, muitos refrões (sim, escrevi bem) foram e hão-de ser escritos.

Os linguístas que façam o favor de acompanhar, com reverência, a lingua falada em vez de a estrangularem com as suas regras apertadas. É o que fazem no Reino Unido, onde vivo. Todos os anos novos termos são adicionados ao Oxford English Dictionary, que tem como entradas recentes palavras como “lol“, “google“, e expressões tornadas comuns na sequência de eventos marcantes. Significa isto que a linguística está ao serviço da língua falada e não o contrário.

Dito isto, não pretendo que a ignorância de sobreponha ao saber, e fico, de facto, mais rico ao aprender que o plural de refrão, nos livros dos linguistas, é refrães. Mas se não o é no meu círculo de amigos feito de fotógrafos e engenheiros, guitarristas e médicos, contabilistas e professores, de gente dos 10 aos 80, a frequentar a quarta classe ou a acabar o seu pós-doutoramento, porque hei-de adoptá-lo?

Os linguístas não podem ser ditadores da língua que se fala. O povo não pode permitir tal coisa, porque com a prisão da língua vem a prisão das ideias e, com esta, a morte dos sonhos. Libertem-se e imortalizem os vossos ideais em refrões que todos possamos cantar!

E a terminar, deixo-vos com um comentário de um amigo meu, em resposta a uma terceira pessoa que de nós se despedia para ir a uma aula de línguas: “Ai sim? Eu também tirei um curso de línguas, mas foi no Clube 84“. Clássico!

O Luís Silva do Ó tem mais sorte do que eu. Tem, porque ontem esteve onde eu queria ter estado, no concerto dos Trabalhadores do Comércio em Odivelas, e teve a amabilidade de me enviar o seu registo de um dos temas.

Vi agora o mail dele, ao qual me pedia resposta. “Depois diz-me o que achas. Eu adorei.”, escreveu-me. E com meia resposta já escrita, achei que podia torná-la pública, antes que o mofo e o bolor tomem conta deste sítio (o mofo deu-lhe!).

Vi agora o vídeo. Como dizem os ingleses, vi-o com “mixed emotions”. E passo a explicar:

Antes de mais, tiro o chapéu à Daniela Costa e ao resto da banda por uma notável interpretação.

Tenho estado demasiado distante do projecto porque nos últimos meses, para além da minha análise às misturas que vão sendo feitas dos temas do novo álbum, e respectivo envolvimento à distância de 2000 kilómetros, não tenho participado nos ensaios do grupo.

É força das circunstâncias, diga-se; ainda ninguém me despediu nem eu apresento a demissão, mas a distância complicou e muito a minha colaboração mais regular.

Trabalhadores do Comércio ao vivo em Odivelas

Foto de Rui M Leal

Com a distância, fico por um lado surpreendido com algumas coisas que vejo, porque são tão novidade para mim como para o público. É o caso deste vídeo. Por outro lado, cada surpresa é também uma confirmação, uma vez que concluo que o grupo encontrou finalmente o seu som e que conseguiu, com recrutas como a Diana Basto, a Daniela Costa, a Marta Ren e o Pony João Machado em estúdio e em concerto dar um salto qualitativo que não está, ainda, registado em disco – ou melhor, está, mas não ainda à venda.

Este salto adivinhava-se em Iblussom, mas os concertos que se lhe seguiram resultaram numa ainda mais acentuada evolução (na minha opinião). E a chegada do Pony à banda, aquando da minha vinda para Inglaterra, trouxe ainda mais evolução.

Desse ponto de vista, este vídeo (que vi há minutos pela primeira vez) é uma agradável surpresa ao mesmo tempo que é exactamente o tipo de coisa que eu sei que este grupo é capaz de fazer, e que vai continuar a fazer – e daí para cima. Portanto, vejo-o com enorme satisfação!

Mas também com enorme pena de não ter estado presente, nem que fosse só para mudar as cordas das guitarras dos músicos.

É coisa difícil de explicar, mas esta banda é muito de quem eu sou enquanto pessoa (ou eu é que sou muito do que esta banda é – não sei qual é qual, nem me importa). O que quero dizer é que aprendi a viver à custa deste grupo. Desenvolvi a minha identidade, na idade em que essas coisas se começam a fazer, no meio do grupo e do contexto social que inevitavelmente se gerou à volta dele e de mim por circunstâncias sobre as quais eu não tinha influência.

Aprendi a rejeitar o estrelato em favor de valores fundamentais ao observar gente como o Sérgio e o Álvaro – dois dos “unsung heroes” da música portuguesa. Ganhei muitos amigos com isso, que ainda mantenho hoje em dia (alguns, só muitos anos depois de me conhecerem ficaram a saber do meu envolvimento com o grupo).

Aprendi a ser crítico em relação ao que me rodeia ao falar com todos eles. Aprendi o que era ironia, a dizer coisas sérias a brincar, a valorizar o profissionalismo e o respeito pelo trabalho de equipa, a apreciar a autenticidade da expressão artística, a perceber que a música era uma forma de tocar pessoas e que, como me disse uma vez o meu prezado amigo Alex Lobo, basta que se toque uma (pessoa) para que tenha valido a pena. [a do parêntesis foi só para dizer uma coisa séria a brincar]

E isso é o que faz com que esta banda seja verdadeiramente especial, pelo menos para aqueles que circulam à sua volta. Libertos de pressões comerciais, fazem o que querem quando querem e como querem. Fazem-no com enorme profissionalismo e dedicação, com o seu próprio dinheiro, sempre com enormes sorrisos de quem está “in the zone” quando está a trabalhar aqui. Fazem-no por missão e não por interesse. Fazem a sua arte sem a preocupação de seguir os modelos estéticos dos críticos do Blitz (estética e blitz são palavras que não cabem na mesma frase, o que faz de mim um poeta ao ter conseguido fazê-lo!).

E são todos uns gajos do carvalho com quem se passam grandes momentos. Eu perdi o último, mas hei-de estar noutros. E o melhor ainda está para vir!

Foi-se, pelo menos para já, um dos maiores perigos que Portugal conheceu, depois de aceite a sua demissão por parte de outro dos grandes perigos com o qual o país gosta, aparentemente, de conviver. Enquanto isso, os abutres políticos tiram as medidas ao moribundo, pensando nas mil e uma formas de tirarem partido da bonança com que vêm sonhando há meses.

Mas qual é o nome do jogo? Claramente trata-se de usar o estatuto político para proveito pessoal, sustentado em todo o tipo de mecanismos legais que os próprios desenvolvem – como o caso da imunidade parlamentar – para legitimar todo o tipo de atropelos. O País é só o meio para um fim.

O actual presidente da república (minúsculas criteriosamente escolhidas) participou activamente em tais orgias, o que só ajuda a definir o seu carácter, sendo notável que o país tenha escolhido colocá-lo em Belém em vez de em Caxias (bem sei que só 23% optaram por tal, mas isso parece ter chegado).

Entretanto, sobre o provavelmente futuro ex primeiro ministro já muito se escreveu sem que a vias de facto se chegasse, perdendo com isso o país a oportunidade de proporcionar aos dois galos actualmente no poleiro um “flat share” em Custoias.

E em tempo de austeridade surgem agora exemplos escandalosos de dispêndio que, mais do que esbanjador é, quase seguramente, criminosamente planeado.

A imagem à direita (com link para o video de onde foi tirada) mostra como o Estado pagou 85 mil Euros por 5 dias de trabalho de re-styling the um website. É uma das minha áreas profissionais e posso garantir-vos que é uma absoluta exorbitância, impossível de explicar (sem correr o risco de prisão) num mercado altamente competitivo e com muitos fornecedores de enorme qualidade, mesmo considerando a possibilidade de trabalho de equipa e, por isso, de um esforço maior do que a duração apresentada.

Não me parece que com a eventual substituição de Socrates por um qualquer outro mamão dos que se apresentam na corrida se resolva o problema. Mas venha quem vier, com que matéria prima terá de reconstruir o país? Numa clara demonstração da ineptitude da governação portuguesa dos últimos anos, o Wall Street Journal relembra-nos que apenas 25% da população portuguesa entre os 25 e 64 anos acabou o ensino secundário, contra 85% da Alemã e 91% da Checa.

Se até o trabalho qualificado é hoje automatizado ou comprado às economias emergentes do BRIC, o Portugal inculto e tecnicamente incapaz está condenado à segunda liga da Europa, se não for antes disso empurrado para a terceira do Mundo.

E como em terra de cegos quem tem um olho é rei, é natural que venham a agravar-se as assimetrias sociais, fazendo com que cada vez menos tenham cada vez mais do pouco que resta.

Isto cria oportunidades para o aumento da criminalidade, não só da parte de quem precisa de comer como por parte de alguns daqueles que querem mater a sua condição privilegiada, abrindo mais caminhos para o crime de colarinho branco descrito acima.

Outros, cansados da situação nacional e mais bem equipados para competir, abandonam o país para, por um lado, satisfazerem as suas necessidades financeiras e culturais e, por outro e por consequência, afundarem o país ainda mais no seu buraco (do país, leia-se!).

Assim, e desprovidos dos recursos necessários para tomarem a iniciativa de mudança, por clara falta de skills e cultura, fica o povo português condenado à execução do Estado (e de que Estado!!!) e exposto aos riscos consequentes. Como diz a nossa sabedoria popular, muito atura quem precisa.

Há tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo na minha vida que tem havido pouco tempo para merditar. E não é que não falte assunto no mundo para o fazer, como por exemplo o vazio que se vê em Portugal.

Há dias, uns tipos bem formados e divertidos de Lisboa convenceram o Zé Povinho, e ainda bem, a ter uma opinião diferente de toda uma corja de maestros, doutores e engenheiros que constituíam o júri do festival da canção (e notem que fizeram questão de apresentar todos os títulos e certidões para emprestar, à boa moda nacional, um pouco credibilidade ao evento). Serviu a música uma das suas principais funções, a da crítica e contestação social, para bem da nação. Ficou a Silvia Alberto com um sorriso amarelo a apressar o fim do programa e imagino que a troupe do Zé do Ballet, que oleou tantas ondas hertzianas em Portugal, ficou com o Échappé a meio pau em surpresa.

Dias depois, 300 mil marmelos vieram para a rua lembrar que muita coisa (tudo?) vai mal. E ainda bem que o fizeram. Mas, e as reacções? Onde estão? Porquê o vazio subsequente?

Manifestação Geração à Rasca no Porto - Foto do jornal espanhol El Pais

A mim parece-me que quando uma cidade com 200.000 habitantes consegue uma manifestação com 80.000 pessoas (40% de adesão) alguém tem de tomar nota e investigar com profundidade.

Se quisermos pensar em termos do Grande Porto, o maior aglomerado urbano do noroeste peninsular, estaremos a falar de 6% de adesão, o que em si mesmo é excelente, em especial se considerarmos que nesse caso poderão ter havido deslocações de 40 Kilómetros para participar, para o que é precisa muita motivação – sinal de que a causa é premente.

A real adesão deverá andar entre um número e outro. Admitamos que são 10%. Seria o equivalente a uma manifestação em Londres com uma mobilização de cerca 1 milhão de pessoas! É gente pra caraças e seguramente daria para muitas páginas de jornal.

Então e onde estão as reacções da nossa classe política, alvo da manifestação? Bom já sabemos que o Golfe  vai passar a ter IVA de 6%, o que seguramente ajudará toda a gente, desde os desempregados de longa duração às vítimas de radioactividade no Japão. Mas ninguém pede explicações aos atrasados mentais que levam os destinos do país?

Que é feito dos jornalistas? Que função, para além da propaganda do aparelho governativo, desempenham os media? Uma pesquisa no Público online nas secções de Sociedade e Política, mostra zero noticias pós-evento que reflictam a opinião de Políticos de relevo (Socrates e Cavaco). E mostra ZERO de indignação com esse vazio. No Facebook, vi artigos em jornais estrangeiros mas poucos ou nenhuns dos media nacionais, e ZERO com reacções das personalidades políticas mais relevantes.

E quando a RTP tem de noticiar a descida do IVA do Golfe, usam imagens da Volkswagen!!! Mas que jornalismo é este? Quem revê o que se emite? Será que a falta de zelo em Portugal é tal que nem o público do canal público português merece respeito por parte dos profissionais cujos salários são pagos por esse mesmo público?

Este vazio demonstra que os media, concentrados na capital do lobby, tocam a música do maestro e não a que o público precisa de ouvir. E fazem-no sem sequer pensar. Como o fazem os governantes que caem no ridículo máximo ao anunciar políticas vazias de conteúdo e impacto dias depois de uma manifestação com a dimensão que se viu.

Fica também a sensação de que, esvaziada a bexiga, os manifestantes recarregaram as pilhas para mais uns anos de travessia do deserto, e que por isso não forçam os media a pedir comentários à classe política e, em caso de pouco sucesso nessa intenção, os fazem escrever sobre o escândalo político subjacente a esse insucesso. Os nossos bons costumes já não o são – são derrotismo. É a vida. É o fado.

Fico assim com a ideia de que Portugal está mergulhado num vazio máximo de visão, política, media e valores. Está nas mãos de um grupo de gente ignorante por um lado, espertinha por outro, com uma ambição de poder ilimitada a que se contrapõe uma total incapacidade de inspirar uma nação a ser melhor.

E a vocês que estão mais perto, que vos parece?

King Size & Light

Posted: Fevereiro 24, 2011 in cultura, Sonhos, vida

Com mais um mês chega mais uma prestação da Fenther.

Desta vez não sabia o que escrever. Ou melhor, sabia o quê mas não sabia como.

No primeiro artigo pus o dedo nas editoras e nos consumidores de música, desta vez queria olhar para quem a cria.

O artigo começou por analítico, e ao fim de duas frase já estava a detestá-lo. Sugeriram-me que ouvisse um jazz e escrevesse no dia seguinte. Foi o que fiz. As som do Esbjörn Svensson Trio li um pouco da Lenda de Talhuic, de Marc De Semdt e isso inspirou-me para uma coisa diferente.

Escolhi escrever de uma maneira nova para mim. Não sei se é bom ou mau, mas procurei abordar a questão da autenticidade na arte, e das escolhas que qualquer pessoa tem de fazer ao longo de uma vida. Chamei-lhe King Size & Light.