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Sérgio Castro, para quem não conhece, é um dos mais competentes, inovadores e, coisa rara nos dias de hoje, congruentes músicos da história da música portuguesa. Foi músico de bandas marcantes como o Psico nos anos 70, e fundador de uma das melhores bandas de sempre (e aqui se inclui o passado e o presente séculos, pelo menos) da Península Ibérica – Arte & Ofício. Hoje em dia, desde há 32 anos e, esperemos, durante os próximos 32, é lider da banda Trabalhadores do Comércio, um grupo com tanto de activo como de activista que acaba de lançar o que a crítica mais relevante de Portugal e Espanha considera o seu melhor trabalho até à data, para o que muito contribui o livro aí incluído da autoria do referido músico.

Pois bem, serve o presente post para divulgar a reacção de Sérgio Castro, que subscrevo na íntegra, a um recente manifesto da autoria de profissionais da rádio portuguesa Antena 3. Quem quiser, pode juntar-se ao grupo do Facebook onde tal reacção foi tornada pública. Abaixo, incluo na íntegra a dita reacção.

Outra estratégia para Antena 3 – Sérgio Casto, 8 Fevereiro 2012

Embora a lógica do momento aconselhe a outra atitude, pois temos, há já semanas, um disquinho na rua a pedir “airplay” como “pom p’rá bôca”, meus caros Henrique Amaro, Fernando Alvim e demais “estrelas” do éter, não vos posso ajudar. Nem sequer com o simples gatafunho da minha rubrica no vosso manifesto. E antes que sucumbam à tentação de etiquetar-me, devo esclarecer que é simplesmente um acto de coerência (http://www.infopedia.pt/lingua-portuguesa/coerência).

Se nestas democracias liberais que nos impõem as macro-agências do “rating”, as bases piramidais que as sustentam (a ambas – às democracias liberais e às agências) são substituídas cada quatriénio por outras supostamente alternativas, embora do mesmo calibre e base de apoio – tal qual uma mudança de pneus – porque razão não hão-de os paradigmas da rádio pública e quem os sustenta, sofrer regularmente uma revisão, um alinhamento de direcção e, já agora, por que não, uma mudança do óleo.

E não vale camuflar isso de perseguição política, que até não seria de estranhar dada a habitual destreza com que os governos de qualquer destes estados sul-europeus se livram de obstáculos à suas políticas de “progresso económico-social”. Não, isso é provavelmente uma consequência das progressivamente baixas audiências dessa estação pública, paga com os dinheiros dos contribuintes como eu e que se tem dedicado nos últimos tempos a funcionar como um poderoso escaparate de alguns interesses e tendências, servindo públicos minoritários e específicos (?!) (sic vosso próprio manifesto). Um escritor e poeta da nossa praça, dizia há dias com grande ironia que ‘a RTP e as emissoras que a compõem são a sala de visitas de meia dúzia de apoderados da “cultura” na (da) capital’.

A cultura, meus caros, essa sim é por natureza abrangente e ecléctica. A Antena 3, não. À cultura não se lhe pode por limites, nem rótulos. Não é que não tentem, mas não conseguem. A cultura é viva, autónoma, livre. Emana de dentro de cada um de nós e somos muitos, muitos mais que os actuais ouvintes da Antena 3 (sic vosso próprio manifesto) os que por todo o país, por todo o planeta, aportamos um pequeno grão de areia, cada hora, cada dia, a essa “entidade” indefinida e em expansão universal que é a CULTURA, da mesma forma que manifestamos o direito a aceder a ELA.

O vosso manifesto é uma declaração de boas intenções que faria todo o sentido, não estivesse ele vácuo da verdade. A hipocrisia e falta de humildade latentes e patentes em frases como as rádios privadas constroem a sua realidade recorrendo apenas a um presente que circula na espuma dos dias, por oposição ao serviço público que trabalha para assegurar uma memória ao mesmo tempo que perspetiva um futuro” é seguramente uma afirmação contaminada por uma ética profissional pouco recomendável.

O vosso manifesto raia a fronteira do terrorismo intelectual, como se pretendesse deixar um aviso à navegação, que sem Antena 3 (pelo menos no seu formato actual) não há futuro para a cultura em Portugal. Não, meus caros, a Internet e as centenas de blogs a que todos temos livremente acesso e que, desinteressadamente, se dedicam a divulgar o que se faz (e fez) em Portugal em termos de CULTURA musical, cumprem já essa tarefa e de maneira bem mais eficaz.

E, já agora, essa suspeita insistência no termo “canal jovem” inquieta-me de sobremaneira. Que se pretende ao utilizá-lo até à exaustão? Criar os alicerces para uma possível “guerra civil” entre “novos” e “velhos”? Quem decide sobre a definição de uns e de outros e em que se baseia? Teorias antropológicas, dogmas filosóficos? E que significa que o escalão etário da Antena 3 é dos 20 aos 45 anos? Será que o plantel de assinantes do Manifesto preenche com exactidão este requisito? Pois se calhar! Pois tenho más notícias para os que já andam pelo limite superior: Como já tereis notado, os folículos capilares já não se vos regeneram com a mesma facilidade. E o mesmo acontece com os neurónios que, invariavelmente começam a morrer por altura dos 40. Mas não é grave, pois aos 86, Saramago ainda escrevia e de que maneira. Mas estaremos a partir dos 45 impedidos de gostar de novas tendências, de novas formas de arte, como se, de repente, nos achacasse algum tipo de presbitismo mental? Haverá alguma lei natural que a tal nos conduza?

E para os dos 20, as notícias também não serão melhores. Como se diz aqui na Galiza, “No teneis ni puta idea” do que se passa ao redor. Já vereis como aos 45 sereis, não só, mais velhos mas, e principalmente, mais sábios. Mas para tal impõe-se uma mudança de atitude.

Que vos impele a acreditar na vossa indispensabilidade? Se vos serve de exemplo, a Rádio 3 (que curiosa coincidência numérica), da Radio Nacional de España, faz esse serviço também. É ecléctica e abrangente. Pode melhorar? Pode com certeza, mas está a anos-luz daquilo que faz a Antena 3. Digamos que já vai noutra galáxia.

Por conseguinte a Antena 3:

  • Não divulga e menos ainda representa a cultura e a língua do país. Sobre esta última e a forma como a mal usam, podería preencher um par de folhas mais, mas não é o momento.
  • Equivoca-se rotundamente, por exclusão, nos exemplos paradigmáticos que crê que são a essência da música portuguesa.
  • Falha em reconhecer que é a expressão máxima da formatação e segmentação radiofónica, com a agravante de ser ostensivamente excluente.
  • Não percebe que o único factor que a distingue cabalmente das privadas é isso mesmo, não ser privada e saber que o “salariozinho de funcionário” está garantido no fim do mês, mesmo que o desempenho tenha sido fraco e os resultados piores. E sabem porquê? Porque “a patrão fora, dia santo na loja”. Claro, os patrões – nós todos – não fazemos visitas periódicas à empresa!
  • Não é um laboratório de ideias de programação, nem estimula coisa nenhuma, da mesma forma que não constitui espelho criativo de uma área maior que a superfície que ocupa no espaço que lhe foi atribuido num dos edifícios da Avenida Marechal Gomes da Costa. A Antena 3 e, ultimamente o grupo RTP, olham para o seu umbigo e criam programas de “caça ó talento” por vezes com regras e obrigações contratuais inaceitáveis, em conivência com empresas discográficas privadas, tão infames quanto o resultado desses próprios programas. Por isso a sua legitimidade é também, temo, nula.

Por isso meus caros firmantes do manifesto, tenho que dar-vos uma última má notícia: não posso, nem quero, ajudar-vos. E como eu, estou convencido, uma imensa maioria de criadores musicais em Portugal, vos deixará na valeta da vossa ignomínia.

E por favor, para bem da CULTURA, deixem a ciência, a tecnologia, a ecologia, o mundo universitário, a investigação, o domínio das artes e a cidadania em paz. O vosso contributo para a música portuguesa já nos encheu as medidas.

Já basta!

Sérgio Castro (ouvinte assíduo)

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