Archive for the ‘Trabalhadores do Comércio’ Category

Francisco Gouveia, músico multi-instrumentista, compositor, maestro, escritor, é por estes e outros atributos alguém cujas opiniões musicais merecem a atenção de todos os que gostam de música.

Há cerca de uma hora, fui surpreendido por um email seu, pedindo-me que distribuisse a sua análise ao Das Turmêntas Hà Boua Isperansa pelos demais elementos dos Trabalhadores do Comércio e, se o achasse merecedor, por outros gavetos da internet. Aqui fica para vossa apreciação, agora que limpei a baba dos queixos. Obrigado pelo dispêndio de tempo e tinta, Chico!

A deslumbrante capa do disco/livro dos Trabalhadores do Comércio é de Alberto Almeida

TRABALHADORES DO COMÉRCIO:

A CONCRETIZAÇÃO DA UTOPIA

Ao acabar de ouvir o novo álbum dos Trabalhadores do Comércio: “Das Turmêntas Há Boua Isperança”, deu-me vontade de subir ao topo da Torre dos Clérigos e gritar para todo o mundo: não me dêem mais música da outra que eu já sou crescidinho!

Mas como sei que não haveria no Poder dois doutores que dessem pelo meu recado, não o fiz. Antes, resolvi agarrar-me a esta folha e descarregar o que para aqui vai escondido. Cada qual luta com as armas que tem!

De facto, olha-se para este grupo, esta banda, esta cooperativa musical, como um boi olha para um palácio quente em dia de geada: com vontade de entrar lá dentro e não mais sair enquanto durar a borrasca. E como a borrasca vai andar a dar-nos cabo da vida por muitos anos, o mais provável é continuarmos a acoitar-nos na confortável protecção destes Trabalhadores e pedir aos santos do Olimpo que os conserve com genica para se meterem outra vez nestas aventuras.

Os Trabalhadores sempre se recusaram a entrar na barca que os carregaria confortavelmente até à foz, preferindo seguir a nado contra a corrente, rumo à nascente. E nesta utopia caminham desde que nasceram. Porque o projecto dos Trabalhadores é uma utopia. Tão grande como a altura do Serjom, tão extensa como os anos que levam a vivê-la, tão diversa como as personalidades que o compõem. Depois, há a logística impressionante de conseguir juntar os elementos de uma banda que, no dia a dia, estão tão distantes como do Porto a Vigo, de Vigo a Londres, de Londres aos EUA!

E há o mercado, porque os discos não se fazem senão houver euros para os pagar!

E há ainda esta idiossincrasia dos Trabalhadores, que é a de não se padronizarem, não se regerem por matrizes, recusarem o banal, a reverência, as modas, o musicalmente correcto.

Vejam bem: ao ouvirmos qualquer dos grupos de topo do nosso “rócanrole”, facilmente os identificamos. Têm uma matriz que não largam há anos. Uma receita a que se agarraram como quem come pão com queijo todos os dias. Aos primeiros acordes, a gente já sabe quem toca. Não sei se isto é defeito ou virtude. Tenho-o como limitação. Uma espécie de estabelecimento prisional onde o preso, por lá estar há muitos anos, já não quer sair com medo do que possa encontrar lá fora.

De tudo isto e muito mais, resulta que a tal utopia dos Trabalhadores poderia ser, à partida, um fracasso facilmente previsível.

Mas como de previsões furadas está o mundo cheio, o certo é que os Trabalhadores vão conseguindo a maravilha de ir concretizando a utopia. A utopia de poder ser diferente, e sobreviver num mundo musical que está agarrado a padrões e a matrizes quase inquisitórias. E viver a plena liberdade de poderem fazer o que entendem e não o que os mercados impõem.

Sejamos concretos: a maioria dos grandes grupos portugueses e mundiais, andam prisioneiros de estilos, de modas, do tal padrão de que falei. Não os vejo a dar o salto para o outro lado da margem, ou a terem sequer a coragem de o tentar. E isto é uma forma de encarceramento. Por livre arbítrio, o que é mais grave.

Os Trabalhadores saltam a margem, e, acima de tudo, pulam as cercas das quintarolas da nossa lusa mediocridade. Com a mesma facilidade com que saltam de um blues para um rock, de um funkie para o jazz, do folk para o tango. E há também as palavras, duras, incisivas, mordazes, de cortar à faca. E já nem falo da apresentação, senão cai-me a confraria moralista dos “nóbus analistas musicaizes” em cima, sem dó nem ré.

“Das Turmêntas Há Boua Isperança” é um álbum para quem não tem medo de sustos nem gosta que um disco tenha uma côdea suculenta e o meio seja um miolo mal cozido. Há uma ambiência musical diversificada, onde pontua uma espécie de salutar demência bipolar, que vai desde a garganta improvável de um Joe Medicis à cicatrizada de Sérgio Castro, passando por um trio feminino de luxo que, individualmente, fazem qualquer festa sozinhas (Diana Basto, Daniela Costa e Marta Ren). Esta será outra utopia que venceram: a de as terem conseguido reunir com esta consistência “familiar”.

Dentro do álbum, está, quanto a mim (e quando digo quanto a mim, é quanto a mim e ponto final) o melhor tema de 2011, com danos colaterais extensivos a 2012: Gladiador. Letra simples mas incisiva e eficaz, música sem colcheias a mais nem a menos, interpretação no ponto, arranjo irrepreensível, mistura idem aspas. O tema é da autoria do António Garcês (que anda lá pela América) e de Sérgio Castro (pousado em Vigo), o que prova que os filhos podem ser feitos por correspondência, mesmo dando em gladiadores.

Os Trabalhadores do Comércio serão, porventura, a melhor banda portuguesa. Não por serem melhores do que os outros (eu sei lá quem é melhor ou pior! Sei do que gosto), mas por serem diferentes. E conseguem ser diferentes porque são livres. E, no mundo de hoje, onde a norma é habituarmo-nos a ser prisioneiros do que os mercados ordenam, é preciso ter uma inteligência limpa de quadraturas e possuir uma grande arte no sentido mais lato, para se ter a ousadia de se ser livre.

Os Trabalhadores do Comércio vão-nos demonstrando, disco a disco, que é possível concretizar esta utopia maravilhosa que é a de manter os sonhos vivos, e de os ir concretizando passo a passo.

E é esta liberdade, a verdadeira liberdade, que os faz ser superiores, e indiferentes a qualquer “playlist” dos trabalhadores da imbecilidade, ou a qualquer TOP+ do comércio musical.

Chico Gouveia

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Das turmêntas hà boua isperansa

Capa de Alberto Almeida para o disco/livro dos Trabalhadores do Comércio

A estas horas os Trabalhadores Do Comércio estão a entreter o pessoal de Chaves enquanto eu me entretenho em Londres a ouvir o novo disco desta pandilha, que sai para a rua dentro de menos de um mês. Falta misturar um tema e fechamos a obra, que demorou mais a parir que qualquer uma das outras. Se é melhor ou pior do que as anteriores, cada um que decida por si.

Fazer um disco com este grupo é uma das experiências mais energizantes e ao mesmo tempo desgastantes que se pode ter. Se, por um lado, o espírito criativo de cada um dos membros (salvo seja) e do colectivo em geral parece realimentar-se com cada ideia, por outro a procura de momentos genuinamente especiais leva a longas horas de trabalho, quer na gravação quer na mistura, até que o resultado seja, para nós pelo menos, excitante . Mas afinal, o que significa isso?

Os Trabalhadores sempre foram um grupo com densidades musical e lírica nem sempre reconhecidas, ora por estas se esconderem, em tempos idos, por de trás da voz do grilo do Pinóquio (numa espécie de combinação non-sense que parecia amaciar a paulada), ora por, na minha opinião, serem eclipsadas por singles icónicos da história da banda e, assim ditariam as massas, da própria música popular portuguesa, que se colaram ao grupo como o musgo à rocha, escondendo-a por conseguinte.

A excitação que procurámos neste disco é a mesma em quantidade, embora de diferente qualidade, da de há 30, 20 ou 5 anos. Se Iblussom trouxe a energia de um grupo de velhos amigos, por um período separados pela vida, cheios de vontade de fazer coisas juntos e bem feitas, este novo disco mostra de que forma essa amizade evoluiu. Sou da opinião que a evolução de 2007 para agora é maior do que foi entre 2007 e o disco anterior (96). Muito maior.

Já o escrevi várias vezes, mas nunca é demais repetir, que as “aquisições” da Marta Ren, Diana Basto, Daniela Costa na sequência de Iblussom, e do Pony e do Pedro Rangel nos últimos 2 anos levaram os Trabalhadores a encontrarem uma sonoridade com uma consistência e uma ambição que ultrapassam largamente a de qualquer outro dos nossos discos, excepção feita talvez ao Trip’s e ao Nabraza por alturas do Cretáceo.

Alguém dizia, acerca de um recente concerto ao vivo em que apresentámos parte do disco, que a música do novo álbum é mais interventiva. Não sei se estou de acordo pelas razões apresentadas antes, mas não há dúvida que é um disco de mensagens fortes e relevantes para os tempos que correm, ditas à maneira dos Trabalhadores com sarcasmo e humor corrosivo quanto baste. Espero apenas que não continuem válidas dentro de 20 ou 30 anos, como acontece hoje com letras dos Trabalhadores da década de 80!

Em resumo, a excitação que procuramos ao gravar, e que oxalá consigamos transmitir ao ouvinte, é a de um grupo de pessoas que, apesar de pertencerem a gerações diferentes e terem backgrounds artísticos diferentes, vivem um só espírito, sem reservas nem medo, com a plena consciência da responsabilidade das suas escolhas, e com a noção de que viver é a concretização de um espírito que tem tanto de crítico como de exigente, de sério como de humorístico, de denso como de leve.

Das Turmêntas hà Boua Isperansa, este disco que acabo agora de ouvir, é a concretização desse espírito. Espero que gostem tanto dele quanto eu, quando o ouvirem em Novembro.

João e Pony em estúdio para gravação do Tormentas. Foto de Alberto Almeida

O Luís Silva do Ó tem mais sorte do que eu. Tem, porque ontem esteve onde eu queria ter estado, no concerto dos Trabalhadores do Comércio em Odivelas, e teve a amabilidade de me enviar o seu registo de um dos temas.

Vi agora o mail dele, ao qual me pedia resposta. “Depois diz-me o que achas. Eu adorei.”, escreveu-me. E com meia resposta já escrita, achei que podia torná-la pública, antes que o mofo e o bolor tomem conta deste sítio (o mofo deu-lhe!).

Vi agora o vídeo. Como dizem os ingleses, vi-o com “mixed emotions”. E passo a explicar:

Antes de mais, tiro o chapéu à Daniela Costa e ao resto da banda por uma notável interpretação.

Tenho estado demasiado distante do projecto porque nos últimos meses, para além da minha análise às misturas que vão sendo feitas dos temas do novo álbum, e respectivo envolvimento à distância de 2000 kilómetros, não tenho participado nos ensaios do grupo.

É força das circunstâncias, diga-se; ainda ninguém me despediu nem eu apresento a demissão, mas a distância complicou e muito a minha colaboração mais regular.

Trabalhadores do Comércio ao vivo em Odivelas

Foto de Rui M Leal

Com a distância, fico por um lado surpreendido com algumas coisas que vejo, porque são tão novidade para mim como para o público. É o caso deste vídeo. Por outro lado, cada surpresa é também uma confirmação, uma vez que concluo que o grupo encontrou finalmente o seu som e que conseguiu, com recrutas como a Diana Basto, a Daniela Costa, a Marta Ren e o Pony João Machado em estúdio e em concerto dar um salto qualitativo que não está, ainda, registado em disco – ou melhor, está, mas não ainda à venda.

Este salto adivinhava-se em Iblussom, mas os concertos que se lhe seguiram resultaram numa ainda mais acentuada evolução (na minha opinião). E a chegada do Pony à banda, aquando da minha vinda para Inglaterra, trouxe ainda mais evolução.

Desse ponto de vista, este vídeo (que vi há minutos pela primeira vez) é uma agradável surpresa ao mesmo tempo que é exactamente o tipo de coisa que eu sei que este grupo é capaz de fazer, e que vai continuar a fazer – e daí para cima. Portanto, vejo-o com enorme satisfação!

Mas também com enorme pena de não ter estado presente, nem que fosse só para mudar as cordas das guitarras dos músicos.

É coisa difícil de explicar, mas esta banda é muito de quem eu sou enquanto pessoa (ou eu é que sou muito do que esta banda é – não sei qual é qual, nem me importa). O que quero dizer é que aprendi a viver à custa deste grupo. Desenvolvi a minha identidade, na idade em que essas coisas se começam a fazer, no meio do grupo e do contexto social que inevitavelmente se gerou à volta dele e de mim por circunstâncias sobre as quais eu não tinha influência.

Aprendi a rejeitar o estrelato em favor de valores fundamentais ao observar gente como o Sérgio e o Álvaro – dois dos “unsung heroes” da música portuguesa. Ganhei muitos amigos com isso, que ainda mantenho hoje em dia (alguns, só muitos anos depois de me conhecerem ficaram a saber do meu envolvimento com o grupo).

Aprendi a ser crítico em relação ao que me rodeia ao falar com todos eles. Aprendi o que era ironia, a dizer coisas sérias a brincar, a valorizar o profissionalismo e o respeito pelo trabalho de equipa, a apreciar a autenticidade da expressão artística, a perceber que a música era uma forma de tocar pessoas e que, como me disse uma vez o meu prezado amigo Alex Lobo, basta que se toque uma (pessoa) para que tenha valido a pena. [a do parêntesis foi só para dizer uma coisa séria a brincar]

E isso é o que faz com que esta banda seja verdadeiramente especial, pelo menos para aqueles que circulam à sua volta. Libertos de pressões comerciais, fazem o que querem quando querem e como querem. Fazem-no com enorme profissionalismo e dedicação, com o seu próprio dinheiro, sempre com enormes sorrisos de quem está “in the zone” quando está a trabalhar aqui. Fazem-no por missão e não por interesse. Fazem a sua arte sem a preocupação de seguir os modelos estéticos dos críticos do Blitz (estética e blitz são palavras que não cabem na mesma frase, o que faz de mim um poeta ao ter conseguido fazê-lo!).

E são todos uns gajos do carvalho com quem se passam grandes momentos. Eu perdi o último, mas hei-de estar noutros. E o melhor ainda está para vir!

Um amigo meu, proeminente escritor sobre música, em tempos (talvez até presentemente) director de programas de uma rádio regional , homem na casa dos 40 anos,  é um dos muitos indignados com o tratamento que revistas como a Blitz ofereceram a efemérides como os 50 anos da edição do primeiro disco do Rock Português, ou a recente homenagem da Sociedade Portuguesa de Autores a 50 nomes do rock português, em cuja lista tenho a honra de ter sido incluído pelo meu trabalho com os Trabalhadores do Comércio.

Tendo manifestado o seu espanto online em vários sites, ficou ainda mais perplexo com a defesa generalizada que foi prestada à Blitz. Conhecendo o meu relacionamento com a crítica, pediu-me uma opinião, que aqui deixo transcrita. Agradeço também a vossa opinião.

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Caro X, Escrevo-te à medida que estruturo o meu pensamento para te dar uma resposta. Estou interessado em saber o que pensas dela. (perdoa-me as falhas ortográficas – uma luta dos tempos de primária válida ainda hoje, a que não ajuda a ausência de um corrector ortográfico português neste computador inglês. A rebeldia contra o novo acordo ortográfico, essa sim, é intencional e continurá até à minha morte!)

Eu tive o meu choque anafilático com o jornalismo musical português aquando do lançamento do Iblussom, a que não é alheio ser o primeiro disco meu no qual tenho uma influência consciente e determinada (na opinião de alguns, determinante) no processo de composição, arranjo e produção.

Talvez por isso, levei a peito muitas das opiniões proferidas, as boas e as más, e sobre isso tive oportunidade de falar contigo e de inclusivamente gastar horas minhas a dispensar tintal digital no blog dos Trabalhadores e em outros meios. Uma espécie de exorcismo pessoal útil mas de pouca ou nenhuma relevância de massas.

A distância do tempo cria um afastamento emocional que me permite agora analisar as coisas em termos talvez um pouco mais isentos, embora a essência das minhas opiniões não tenha mudado e seja, indiscutivelmente, influenciada pela minha posição de “alvo da crítica” (sem sentido pejorativo).

Antes de mais convém perceber que Portugal é um país culturalmente pobre. Muito mais pobre nesse domínio do que no financeiro, tecnológico ou industrial. Isso é consequência de não serem ensinados nas escolas portuguesas conceitos fundamentais de estética, de expressão cultural e intelectual, da importância das artes na sociologia dos países, (em sentido inverso) dos contextos sociais e económicos que suportam essas formas de expressão, etc.

A minha filha de 11 anos, por exemplo, tem andado a estudar música e arte gráfica dos anos 60, 70 e 80. Quem eram os Beatles, o Andy Warhol, o Roy Lichtenstein e o Freddy Mercury? Qual o significado do seu output no tempo em que ocorreu? Porque durará o seu output até aos dias de hoje? Qual a realidade económico social daquele tempo e de que maneira influenciou estes artistas? Que técnicas usavam e a que “escola” pertenciam? Fá-lo integradamente nas disciplinas de Humanidades, Inglês, Educação Visual e Música! E já agora, no grupo coral a que pertence, canta Lennon, Guns and Roses, Journey, Stones e Crowded House para audiências escolares que variam entre dezenas e um par de milhar de pessoas. Isto dá-lhes referências e sentido estético próprio e integrado! Faz isto numa escola pública que me custa ZERO por mês.

O povo português não tem, no sentido lato, nem este desenvolvimento nem referências que permitam ao comum dos mortais apreciar criticamente uma forma de arte. Quando assim é, procuram-se essas referências junto de outrém – os amigos e os “opinion makers” passam a ser fundamentais por serem, de facto, a base da sua opinião acerca do seu consumo artístico pessoal.

No caso da música, o Blitz tornou-se a principal fonte de critica especializada, especialmente depois da morte do Se7e, do Musicalíssimo e da Música&Som (e possivelmente de outros anteriores tão ou mais relevantes, mas que desconheço por serem anteriores a 72).

Desgastar fontes de referência como o Blitz equivale a retirar o tapete intelectual e emocional de cada leitor dessa revista no que respeita ao seu consumo artístico pessoal. Isso acaba por ser uma forma de ataque pessoal impossível de suportar e que merece a mais acérrima das defesas! “Não digam mal do jornal X porque ele determina em grande medida quem EU sou” (opinião inconsciente, o que a torna ainda mais forte e dogmática!).

Curiosamente, muitos críticos sofrem eles próprios destes males, procurando referências noutros sítios, concretamente nas revistas ditas “cool” vindas dos EUA e do Reino Unido. Com isso descontextualizam  a produção artística versada e amplificam a grandeza de um artista Inglês ou Americano num contexto social onde outros (nacionais) merecem muito mais destaque!

A falta de preparação cultural e a dependência dos próprios críticos (de alguns pelo menos) nos seus pares internacionais tornam-nos incapazes de perceber o produto artístico português sobre o qual lhes pedem análise ocasional. Porquê? Porque eles próprios não têm essas referências – daí que não se importem com os 50 anos da música portuguesa, com o Arte&Oficio ou com o Pop 5. E estes não fazem parte das suas referências porque não são ensinados nas nossas escolas.

Os putos de onze anos em Portugal deviam aprender nas suas disciplinas de musica, história, e português acerca do Zeca, do Ary, dos A&O, Pentágono, GNR, Sérgio Godinho, etc e dos contextos economico sociais em que apareceram! O sistema de educação não está para isso e assim se perdem as referências que depois se procuram “lá fora”.

Trazendo esta análise para o meu caso pessoal: Os Trabalhadores do Comércio estão inseridos na 3a região mais pobre da Europa, no país mais centralista da Europa, sofrendo na pele (quer a título pessoal quer no seu círculo social) os dramas dessa realidade. O nosso próximo disco é quase exclusivamente sobre estas coisas, não por estratégia comercial, mas por genuína e mais do que compreensível expressão artística.

Achas que os críticos que sobre ele vão escrever vão perceber estas questões ou procurar enteirar-se delas? A simples questão do sotaque à Porto não é vista como uma forma de afirmação cultural mas sim como “uma parolice fora de moda”! Salvo raras excepções, não estou à espera de nenhuma forma de crítica contextualizada e estou preparado para mais um assalto da crítica “cool” e “moderna” àquele que é na minha opinião o nosso melhor disco, talvez por não soar suficientemente a “Tricky” ou a “Radiohead” ou a “U2” ou a “Lady Gaga”. A ver vamos.

Portanto, estou a tentar viver com este tipo de crítica e “opinion makers”, pensando sempre que nos custa uma existência de mais concertos e maior sucesso financeiro o que, curiosamente nos empurra para um estilo cada vez mais genuinamente independente. Talvez assim estes pseudo-indies acabem também a gostar de nós e de outros como nós (a título póstumo, depois de morrermos de fome?) 😉

Quanto aos seus defensores, precisam dessa crítica para terem pensamento e, com isso, existirem (segundo Descartes). Não leves a mal – sorri antes por teres pensamento próprio, referências e base cultural invejáveis em Portugal. E continua a escrever sobre estes tópicos porque Portugal agradece.

Um abraço

João

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E vocês, que têm a dizer de tudo isto?

Um dos riscos do negócio da música em Portugal é o de uma banda dos tempos de hoje se sentir arrastada numa viagem no tempo, infelizmente sempre para o passado de há pelo menos 30 anos, para se ver no meio de situações que são na melhor das hipóteses caricatas e na pior indiciadoras de todas as formas de corrupção, vigarice e falta de profissionalismo de que tão frequentemente é acusado o país de Almeida Garrett.

Ao vivo no memorável concerto da Serra do Pilar, Gaia, Agosto de 2010. Foto de Alberto Almeida.

Recentemente os Trabalhadores do Comércio tiveram uma dessas viagens, ao Sabugal – o tal sítio em cujo magnifico castelo um concerto de música erudita foi arruaceiramente interrompido pelas vuvzelas do Senhor Presidente da Junta e seus capangas, perante o olhar impávido da GNR.

Se a nós não nos correram com vuvuzelas, trataram-nos com um role de incumprimentos contratuais e uma falta de profissionalismo por parte do grunho que forneceu o PA (nome impróprio para os caixotes merdosos que lá pôs, desrespeitando o rider técnico que é parte integrante do contracto) que pôs em causa não só a realização do concerto (por falta de condições técnicas) como a nossa convicção de que estavamos do lado de cá do 25 de Abril de 1974.

Depois de alguma ponderação nossa, o concerto realizou-se e a banda tocou competentemente (como sempre), tendo saído satisfeita do concerto no que toca à música tocada mas, infelizmente, a fumegar de espanto com as circunstâncias em que tudo se realizara.

Quando, dias antes, a banda se tinha comprometido a pagar 200 Euros extra pelo fornecimento de uma mesa de mistura para som de palco (porque a inicialmente fornecida não respeitava o rider!), não imaginou as condições do demais material e achou-se no direito de questionar esse pagamento no final do concerto (sem, nessa altura, se estar a recusar fazê-lo).  Nesse momento, gente associada ao homem do PA e à Organização (por laços de família e amizade pelo menos) adoptaram atitudes agressivas que nos transportaram para a Foz Coa de há milhares de anos, não geograficamente mas seguramente de um ponto de vista de desenvolvimento humano. Como é evidente, não respondemos na mesma moeda, mas concluímos nesse momento o que fazer às 200 moedas em discussão.

O agente local que contratou os Trabalhadores, homem respeitado em terras beirãs pelas suas ligações e trabalho documental referente à História do Rock em Portugal, é jornalista assim como amigo pessoal dos promotores e do homem do PA, tendo escrito depois deste episódio num jornal regional, e a despropósito, que o concerto dos Trabalhadores do Comércio tinha muito mau, não explicando (como deveria ter feito) a sua mais do que legítima opinião. Julgando-nos no direito de resposta, deixei o comentário que aqui inclúo na dita publicação, tendo recebido hoje a notícia de que não seria publicado por conter referências pessoais ao autor da peça (o que não é verdade – são todas profissionais!).

À liberdade que um jornalista tem para escrever o que lhe dá na telha, não têm os alvos desses textos a mesma liberdade de responder na mesma publicação? Está visto que, naquele que parece ser o Far West português a liberdade é mesmo muito relativa.

Mas a democratização que a Internet trouxe permite-nos esclarecer estas histórias e tornar igualmente públicos os nossos pontos de vista. É que, como dizia o também tripeiro Almeida Garret,

Se na nossa cidade há muito quem troque o V pelo B, há muito pouco quem troque a  liberdade pela servidão.

—- A minha resposta ao artigo publicado na Capeia Raiana —-

Não querendo comentar questões financeiras que só ao Sabugal dirão respeito, sinto-me no direito de, na qualidade de membro da banda Trabalhadores do Comércio, comentar a breve referência feita ao concerto do referido grupo. Ao que parece, o concerto dos Trabalhadores “não atingiu as mais legítimas expectativas”. E quais seriam essas, pergunto eu?

Quem foi ao concerto para ouvir uma banda energética, com excelente produção e execução musical, inovação lírica e variedade artísitca, saiu do concerto seguramente de barriga muito cheia – podendo juntar-se aos restantes 15 mil que em três concertos semelhantes nos últimos 2 meses nos demonstraram o seu agrado, como é exemplo o seguinte tema gravado em Vila Nova de Gaia, 5 dias após o nosso concerto no Sabugal –http://www.youtube.com/watch?v=VBpUKagbCT8.

Se as “mais legítimas expectativas” andavam à volta de ver a velha banda de antigamente a tocar as velhas músicas de antigamente, talvez mesmo comigo em formato anãozinho e com os pulmões bem cheios de hélio para poder replicar a voz que tinha há 30 anos e assim transportar os mais nostálgicos apreciadores de música e coleccionadores de histórias de transantanho para épocas de maiores alegrias, então essas expectativas não só não seriam legítimas – porque cabe SEMPRE ao artista o direito (ou até dever) de continuar a criar e promover as suas novas criações, ponto em que insistimos e de que muito nos orgulhamos – como poderiam mesmo ser preocupantemente destituidas de raciocínio lógico.

Assente a questão das expectativas, o autor da peça – a quem não reconheço competência técnica para opinar sobre música tocada – considerou o concerto como “mau”. Mau, em que sentido?

Foi mal tocado? Não, pelo contrário, foi muito bem executado (ao nível do link anterior, referente a Vila Nova de Gaia) apesar das miseráveis condições técnicas do PA que nos foi fornecido no Sabugal, e que levaram a banda a considerar cancelar o concerto – o que não fez por respeito ao público e ao promotor.

Foi de pouco profissionalismo? Estaria a banda inebriada (de todo) em palco? Um categórico não é a resposta, neste caso, como em qualquer outro concerto. Os Trabalhadores do Comércio orgulham-se de um enorme sentido de responsabilidade e profissionalismo, até porque a sofisticação musical que levam para o palco não é compatível com qualquer outra coisa que não seja a sobriedade, ensaios regulares, e prática regular dos respectivos instrumentos e estudo associado.

Serão as novas canções de “má qualidade”? Bom, poderá ser essa legítima opinião do autor, como legítima será a minha de contrapor a falta de sensibilidade musical e conhecimento técnico do autor da peça para chegar a tal conclusão. É que, comentar a “qualidade de uma composição” pressupõe um conhecimento técnico mínimo sobre a arte da composição, do arranjo, de produção musical que, conforme referi anteriormente, não reconheço ao autor desta peça (nem aos autores da maior parte das peças que se escrevem sobre música em Portugal, infelizmente).

Não terá o autor gostado da música que ouviu (pelo menos até que os temas que mais tem presentes e que constam da sua vasta colecção de música portuguesa do passado século começaram a ser tocados)? Essa sim, é uma opinião absolutamente legítima e que não precisa de argumentos. Quem não gosta, não gosta e acabou. Mas teria de ter explicado no texto que o concerto teria sido “mau” porque os Trabalhadores não tocaram as músicas que ele gosta.

Mas resumir um evento de mais de 90 minutos a um parágrafo onde se o classifica como mau sem mais argumentos, representa, na minha opinião, irresponsabilidade jornalística (afinal, ao jornalista cabe expor argumentos e descrever de forma relevante para o leitor aquilo a que assistiu – se foi mau, há que explicar porquê) e uma maneira pouco criativa para esconder uma clara incapacidade para perceber o espectáculo que os trabalhadores do comércio têm levado com imenso sucesso a muitos milhares de pessoas nos últimos meses, por vezes em locais emblemáticos como é o caso da Casa da Música no Porto, acrescida de uma maior incapacidade para substanciar com argumentos de relevo a opinião que publica.

Se, claramente, o artigo não é sobre os Trabalhadores do Comércio, a referência que a eles é feita carece gravemente de rigor jornalístico e musical. O artigo, porém, confirma que há diferenças claras entre jornalistas, críticos de música, musicólogos, músicos, historiadores de arte, coleccionadores de factos sobre uma qualquer matéria, e contabilistas – querendo parecer-me que o autor da peça se inclui mais facilmente nos 2 últimos grupos do que em qualquer um dos restantes.

Cumprimentos

João Médicis