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Ora, ora, ora!!! Estava aqui eu tão sossegado a pensar na didáctica da música, e tinham de me desassossegar. E logo as “autoridades”!

Lembro-me , há muitos anos, numa altura em que dois crápulas levavam o destino do país (o Silva das Vacas como Primeiro e o seu leal parceiro no crime, o implacável Dias Loureiro, como Ministro da Administração Interna), que a polícia descarregou fortemente sobre estudantes universitários que protestavam pacificamente contra o aumento das propinas.

Ora hoje, debaixo da tutela do mesmo Silva das Vacas, novas imagens nos chegam, desta vez com ênfase na agressão a jornalistas, armados apenas com a força do alcance das suas palavras e imagens.

Não é novo. Já o vi nos anos 90. E os meus pais antes disso. Mas são precisamente essas semelhanças que levantam suspeitas e emprestam credibilidade ao argumento de que Portugal não é, hoje em dia, um país democrático, estando antes debaixo de uma ditadura que revela muitas das suas suas horríveis facetas ao virar de cada esquina, literalmente.

Da agressão a jornalistas que querem contar o que alguns não querem que se ouça, à morte desamparada de idosos com a ajuda da mão ensanguentada do estado, passando pela redução de salários e pela deliberada asfixia cultural, assistimos diariamente à violentação permanente de um povo demasiado pacato para merecer tais abusos ou para os resolver com mão de ferro.

Sabemos até que aqui, como em Espanha e noutros sítios, é polícia à paesana que provoca os incidentes cujas responsabilidades são depois atribuídas à população. Na minha terra, gente de escrita e fala escorreitas classificaria tais actos como uma filha-da-putice sem nome, isto para usar terminologia técnica rigorosa.

O nosso sistema límbico, estrutura a respeitar uma vez que garante muito da nossa sobrevivência, sugeriria certamente a execução sumária de duas mãos cheias de proxenetas da nação e do mundo, regada com outras tantas de cocktails molotof em locais relevantes frequentados por essa corja de criminosos. Todos, ou quase, o sentimos nas tripas como uma solução exemplar para o problema. Infelizmente por um lado, e felizmente por outro, não somos como outros povos e por isso não fazemos uso dessas tácticas. Isso obriga-nos a viver no meio da merda ou a elevar o nível para a afogar de vez. Proponho a segunda via, até porque não sou adepto de soluções violentas. Mas como?

Portugal, como o resto do mundo, está na mão de assassinos sanguinários vestidos de Armani e Prada (excepção feita ao pessoal do Vaticano que, sendo insuperáveis assassinos sanguinários, não têm um gosto tão refinado em questões de moda, até por razões protocolares). O poder a que todos eles estão agarrados está assente numa mistura explosiva de duas coisas:

  1. A venda de um sonho, um ideal, algo que todos reconheçam como A Salvação, venha ela na forma de Deus ou de um Ferrari F40,
  2. Num esquema de escravatura emocional (e não só) que por um lado impeça a concretização do sonho e por outro o re-alimente, tornando-o mais intenso e merecedor de esforços ainda mais brutais para que possa ser alcançado. Assim, tudo pode ser visto como um esforço que “vale a pena” (curioso, o significado literal desta expressão).

Este é o paradigma em que vivemos, e não será de um dia para o outro que o vamos mudar. Digo-o porque os poderes a derrotar não são coisa miúda. A solução passará seguramente por um acordar de consciências que esse mesmo poder inebria com ignorância, medo, castração de liberdades e uma instrução escolar que nos vende a ideia de que a Sociedade precisa de ser como é (verdade que só se aplica aos que dela abusam e tiram partido ilegítimo).

Num artigo de leitura obrigatória (em inglês) e que talvez um dia eu acabe a traduzir, Marco Torres, um perito em Saúde Pública e Ciência Ambiental, advoga que nas escolas (organizações geridas pela mesma corja de bandidos que nos tem como reféns do feitiço descrito acima) “as crianças são psicologicamente condicionadas para falhar e perder a esperança. Medo de falhar leva à inacção e ao desespero. É um ciclo vicioso. Quando as crianças não têm esperança, têm medo de falhar. Se têm medo de falhar nunca actuarão. Depois, pegam nesta fórmula e aplicam-na em todas as instâncias das suas vidas.”

Mmmm….. Estará aqui a resposta para os tais brandos costumes nacionais? A mítica falta de acção do Zé Povinho?

Aqui em Inglaterra, os problemas são semelhantes, embora com diferentes especificidades. Mas a solução que encontrei assenta em desligar os meus filhos do sistema, à boa maneira do Matrix, e procurar incutir-lhes ideais diferentes. Não foi um acto de heroísmo, apenas de bom senso. Antes de nós outros houve que o fizeram e nos inspiraram a dar o salto, em relação ao qual estamos cada vez mais felizes. Depois de nós, oxalá mais apareçam, mantendo as tendências de crescimento que se têm verificado no homeschooling.

Talvez, ao atingir-se uma certa massa crítica de almas livres e independentes, o actual sistema acabe por ruir pelas bases, por não ter mais escravos emocionais (e da finança) a alimentar as sanguessugas que se agarram às veias do poder. Nesse dia, admitindo que ainda restará planeta, violências como as que assistimos hoje (e ontem e amanhã) não acontecerão, porque uma Humanidade livre de espírito não temerá a liberdade de expressão, nem a diferença de opinião, nem a realização pessoal, nem a partilha de riquezas e recursos. Até lá, seguimos em frente, em busca do salto civilizacional de que tanto precisamos. Experimentem começá-lo em casa. Os filhos dos vossos filhos hão-de agradecer-vos.

Ora está Portugal e meio em polvorosa por causa dos Alemães, e da Fräulein Angela em particular, acusando-os de querer implementar o Quarto Reich através de instrumentos de guerra económica, agora que os Fritz anunciaram que querem um dos deles a tomar os destinos orçamentais da Grécia e de Portgual, para garantir o bom governo de capitais.

Não tardaram as vozes do Zé Povinho e, com notável falta de clareza política, dos seus Senhores, a reclamar a falta de soberania que tal arranjo representaria. Eu, estando de acordo com a ideia da falta de soberania, não estou de acordo com o protesto de nenhuma das partes e, pensando de forma suficientemente retorcida, consigo até encontrar alguns potenciais benefícios neste arranjo, conforme explicarei em seguida.

Antes de mais, convém lembrar que quem corta o bacalhau não desempenha cargos políticos. Quem corta o bacalhau nomeia cargos políticos para que os interesses corporativos que protege sejam garantidos em forma de lei, isenções fiscais (para o “patrocinador”), aumentos de impostos (para todos os outros), reduções salariais, e um vasto etcétera que não vale a pena aqui enumerar.

Desse ponto de vista a menina Merkel é apenas uma funcionária de outros, assim como o Passos Coelho o é, embora numa posição hierárquica de muito menor prestígio. Digamos que a Merkel é uma espécie de Directora de Operações (COO) e o Passos Coelho é chefe de uma agência bancária de uma remota localidade, com uma carteira de 4 clientes todos eles tesos. Outros mais retorcidos do que eu diriam que dado o estado da nação, o Passos seria uma espécie de limpa cagadeiras, mas adiante.

O inimigo, dizia eu, está mais acima e, parafraseando Sérgio Castro dos Trabalhadores do Comércio, é o sultão da energia, é o rei do remédio, é o que vende a pistola e financia o assédio, vende o craque da bola, manda homens para a luta, é o que nunca dá a cara, é o filho da puta. Tem razão, e assim sendo, os políticos estão a gerir um programa com objectivos tão claros quanto ocultos e subversivos. A palavra chave aqui é gerir.

Há muitos modelos de gestão, e o centralismo é um deles. O que Merkel está a tentar fazer é centralizar as políticas económicas da União Europeia debaixo de um comité próximo de si e dos interesses que protege. Os nossos governantes devem estar bem familiarizados com esse modelo, até porque o adoptaram há já muitos anos “a bem da nação”.

Não lhe agrada à menina Angela a ideia de federação económico-política com a respectiva autonomia orçamental e fiscal dos estados membros, da mesma maneira que não agrada aos nossos governantes a ideia de uma federação de regiões em portugal, com a respectiva autonomia orçamental e fiscal.

Face a isto, parece-me que aos nossos dirigentes restam duas possíveis decisões:

  1. entregarem, de imediato e proactivamente, a soberania orçamental à UE, respeitando a ideia que têm defendido nos últimos 30 anos de que o centralismo é bom e se recomenda, matando imediatamente esses gritos idiotas de soberania orçamental regional
  2. praticarem essa ideia do federalismo desde já no território nacional, começando por deixar de roubar todo um país para alimentar o vale do Tejo, e acabando por implementar, sem referendo, a regionalização prevista na constituição.

Agora, usar um argumento ou outro consoante o que mais lhes interessa é pouco honesto. Defender o centralismo dentro de portas e gritar contra ele na Europa, é de uma hipocrisia quase inacreditável, possível apenas na política em Portugal.

A esses governantes eu pergunto: Percebem, agora que vêem o outro lado da moeda, que esta tanga do centralismo é realmente asfixiante? Em que ficamos meus senhores? Regionalização já, ou aceitar o centralismo imposto pela UE? É que, francamente, eu não reconheço integridade de valores numa terceira via, se é que ela pode existir.

Dito isto, eu estou quase  tentado a aceitar as recomendações da Merkel. Digo isto porque a União Europeia reconhece formalmente o Norte de Portugal e a Galiza como uma região única, compartilhando características especiais (genéticas e antropológicas, entre outras), e por isso mesmo lhe atribui uma série de subsídios destinados ao seu desenvolvimento. Infelizmente, esses fundos são roubados pelo Terreiro do Paço para investimentos no Vale do Tejo debaixo do argumento de que todo o país beneficia com o que se faça na capital do império, da mesma maneira, diria eu, que Lisboa beneficiará com os desvios que a menina Merkel quiser fazer no sentido Lisboa – Berlim.

Com isto dei comigo a pensar:

E se à custa do controlo orçamental em Portugal operado pela equipa da Merkel, o Norte e outras regiões violentadas pelo centralismo começassem a ver (de facto) os fundos que lhes são destinados pela UE? Ficaríamos a ganhar seguramente, e até era maneira de castigar a máfia centralista que nos rouba actualmente. Francamente, é-me indiferente ser roubado por uns ou por outros, e a equipa Merkel ainda não teve oportunidade de mostrar o que pode fazer pela região que amo até ao osso. Da minha parte, menina Angela, mande lá o seu contabilista dizer onde podemos gastar os melreis, que pode ser que nos toque aquilo que é nosso de direito e nos tem vindo a ser roubado.

Os centralistas convictos que agora vêm reclamar perda de autonomia que se fodam, que o povo a que eu pertenço já sofre à custa do centralismo deles há muitos anos.

Alternativamente, e melhor ainda, os centralistas que pratiquem o que apregoam no seu mais recente protesto; Que reconheçam que o centralismo é realmente um modelo que só funciona para alguns e à custa da miséria de uma imensa maioria, e que implementem desde já no território nacional a essência dos seus actuais argumentos, dando autonomia orçamental e fiscal às regiões de Portugal, sem referendo nem demora.

Foi-se, pelo menos para já, um dos maiores perigos que Portugal conheceu, depois de aceite a sua demissão por parte de outro dos grandes perigos com o qual o país gosta, aparentemente, de conviver. Enquanto isso, os abutres políticos tiram as medidas ao moribundo, pensando nas mil e uma formas de tirarem partido da bonança com que vêm sonhando há meses.

Mas qual é o nome do jogo? Claramente trata-se de usar o estatuto político para proveito pessoal, sustentado em todo o tipo de mecanismos legais que os próprios desenvolvem – como o caso da imunidade parlamentar – para legitimar todo o tipo de atropelos. O País é só o meio para um fim.

O actual presidente da república (minúsculas criteriosamente escolhidas) participou activamente em tais orgias, o que só ajuda a definir o seu carácter, sendo notável que o país tenha escolhido colocá-lo em Belém em vez de em Caxias (bem sei que só 23% optaram por tal, mas isso parece ter chegado).

Entretanto, sobre o provavelmente futuro ex primeiro ministro já muito se escreveu sem que a vias de facto se chegasse, perdendo com isso o país a oportunidade de proporcionar aos dois galos actualmente no poleiro um “flat share” em Custoias.

E em tempo de austeridade surgem agora exemplos escandalosos de dispêndio que, mais do que esbanjador é, quase seguramente, criminosamente planeado.

A imagem à direita (com link para o video de onde foi tirada) mostra como o Estado pagou 85 mil Euros por 5 dias de trabalho de re-styling the um website. É uma das minha áreas profissionais e posso garantir-vos que é uma absoluta exorbitância, impossível de explicar (sem correr o risco de prisão) num mercado altamente competitivo e com muitos fornecedores de enorme qualidade, mesmo considerando a possibilidade de trabalho de equipa e, por isso, de um esforço maior do que a duração apresentada.

Não me parece que com a eventual substituição de Socrates por um qualquer outro mamão dos que se apresentam na corrida se resolva o problema. Mas venha quem vier, com que matéria prima terá de reconstruir o país? Numa clara demonstração da ineptitude da governação portuguesa dos últimos anos, o Wall Street Journal relembra-nos que apenas 25% da população portuguesa entre os 25 e 64 anos acabou o ensino secundário, contra 85% da Alemã e 91% da Checa.

Se até o trabalho qualificado é hoje automatizado ou comprado às economias emergentes do BRIC, o Portugal inculto e tecnicamente incapaz está condenado à segunda liga da Europa, se não for antes disso empurrado para a terceira do Mundo.

E como em terra de cegos quem tem um olho é rei, é natural que venham a agravar-se as assimetrias sociais, fazendo com que cada vez menos tenham cada vez mais do pouco que resta.

Isto cria oportunidades para o aumento da criminalidade, não só da parte de quem precisa de comer como por parte de alguns daqueles que querem mater a sua condição privilegiada, abrindo mais caminhos para o crime de colarinho branco descrito acima.

Outros, cansados da situação nacional e mais bem equipados para competir, abandonam o país para, por um lado, satisfazerem as suas necessidades financeiras e culturais e, por outro e por consequência, afundarem o país ainda mais no seu buraco (do país, leia-se!).

Assim, e desprovidos dos recursos necessários para tomarem a iniciativa de mudança, por clara falta de skills e cultura, fica o povo português condenado à execução do Estado (e de que Estado!!!) e exposto aos riscos consequentes. Como diz a nossa sabedoria popular, muito atura quem precisa.

Há tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo na minha vida que tem havido pouco tempo para merditar. E não é que não falte assunto no mundo para o fazer, como por exemplo o vazio que se vê em Portugal.

Há dias, uns tipos bem formados e divertidos de Lisboa convenceram o Zé Povinho, e ainda bem, a ter uma opinião diferente de toda uma corja de maestros, doutores e engenheiros que constituíam o júri do festival da canção (e notem que fizeram questão de apresentar todos os títulos e certidões para emprestar, à boa moda nacional, um pouco credibilidade ao evento). Serviu a música uma das suas principais funções, a da crítica e contestação social, para bem da nação. Ficou a Silvia Alberto com um sorriso amarelo a apressar o fim do programa e imagino que a troupe do Zé do Ballet, que oleou tantas ondas hertzianas em Portugal, ficou com o Échappé a meio pau em surpresa.

Dias depois, 300 mil marmelos vieram para a rua lembrar que muita coisa (tudo?) vai mal. E ainda bem que o fizeram. Mas, e as reacções? Onde estão? Porquê o vazio subsequente?

Manifestação Geração à Rasca no Porto - Foto do jornal espanhol El Pais

A mim parece-me que quando uma cidade com 200.000 habitantes consegue uma manifestação com 80.000 pessoas (40% de adesão) alguém tem de tomar nota e investigar com profundidade.

Se quisermos pensar em termos do Grande Porto, o maior aglomerado urbano do noroeste peninsular, estaremos a falar de 6% de adesão, o que em si mesmo é excelente, em especial se considerarmos que nesse caso poderão ter havido deslocações de 40 Kilómetros para participar, para o que é precisa muita motivação – sinal de que a causa é premente.

A real adesão deverá andar entre um número e outro. Admitamos que são 10%. Seria o equivalente a uma manifestação em Londres com uma mobilização de cerca 1 milhão de pessoas! É gente pra caraças e seguramente daria para muitas páginas de jornal.

Então e onde estão as reacções da nossa classe política, alvo da manifestação? Bom já sabemos que o Golfe  vai passar a ter IVA de 6%, o que seguramente ajudará toda a gente, desde os desempregados de longa duração às vítimas de radioactividade no Japão. Mas ninguém pede explicações aos atrasados mentais que levam os destinos do país?

Que é feito dos jornalistas? Que função, para além da propaganda do aparelho governativo, desempenham os media? Uma pesquisa no Público online nas secções de Sociedade e Política, mostra zero noticias pós-evento que reflictam a opinião de Políticos de relevo (Socrates e Cavaco). E mostra ZERO de indignação com esse vazio. No Facebook, vi artigos em jornais estrangeiros mas poucos ou nenhuns dos media nacionais, e ZERO com reacções das personalidades políticas mais relevantes.

E quando a RTP tem de noticiar a descida do IVA do Golfe, usam imagens da Volkswagen!!! Mas que jornalismo é este? Quem revê o que se emite? Será que a falta de zelo em Portugal é tal que nem o público do canal público português merece respeito por parte dos profissionais cujos salários são pagos por esse mesmo público?

Este vazio demonstra que os media, concentrados na capital do lobby, tocam a música do maestro e não a que o público precisa de ouvir. E fazem-no sem sequer pensar. Como o fazem os governantes que caem no ridículo máximo ao anunciar políticas vazias de conteúdo e impacto dias depois de uma manifestação com a dimensão que se viu.

Fica também a sensação de que, esvaziada a bexiga, os manifestantes recarregaram as pilhas para mais uns anos de travessia do deserto, e que por isso não forçam os media a pedir comentários à classe política e, em caso de pouco sucesso nessa intenção, os fazem escrever sobre o escândalo político subjacente a esse insucesso. Os nossos bons costumes já não o são – são derrotismo. É a vida. É o fado.

Fico assim com a ideia de que Portugal está mergulhado num vazio máximo de visão, política, media e valores. Está nas mãos de um grupo de gente ignorante por um lado, espertinha por outro, com uma ambição de poder ilimitada a que se contrapõe uma total incapacidade de inspirar uma nação a ser melhor.

E a vocês que estão mais perto, que vos parece?

O futuro começa agora

Posted: Janeiro 30, 2011 in civilização, progresso, Sonhos, vida
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Há uma praga chinesa que diz qualquer coisa como: “Que vivas em tempos interessantes”.

Eu acho-a fascinante. Primeiro porque para os portugueses o termo “interessante” não tem geralmente uma conotação negativa, ao contrário do que acontece em Inglaterra onde o termo pode ser usado como um eufemismo para “lixo” – por exemplo, se alguém vos disser “that’s interesting” acerca de uma opinião vossa sobre qualquer coisa, podem interpretar isso como “é muito interessante que o teu cérebro seja capaz de desenvolver a uma opinião tão absurda”.

Segundo por ser chinesa. Não o acho por razões xenófobas mas sim pela coincidência de à grande crise que se abate sobre a Europa e os EUA se contrapor um período de enorme bonança (e Bonanza) para a China. Como se os tempos segundo eles interessantes se virassem para nós, e para eles se voltassem os tempos interessantes segundo nós. A verdade é que entre os séculos 5 e 15 a Europa esteve enterrada numa profunda crise cultural e económica, durante a qual a civilização Chinesa conheceu grandes momentos. Estaremos a caminho disso mesmo outra vez?

Até ontem eu era da opinião que mais um ciclo se teria fechado para a Europa e os EUA, com países como o Brasil, a Rússia, a India e a China (o BRIC) a vestirem a camisola amarela durante os próximos séculos, até um novo volte de face na corrida pôr outro galo no poleiro. Mas hoje não acho isso, em grande parte por causa do filme com que acabo este post, mas também por achar que o mundo de hoje está tão inter-ligado e é consequentemente tão mais pequeno que não é fácil ter sol na eira e chuva no nabal.

A terceira razão pela qual eu gosto da dita praga é que acredito que esta Civilização chegou ao fim. Finito – para nós assim como para os chineses, para os americanos assim como para os egípcios. Calhou-nos viver a viragem de uma página como a queda do império romano, o Renascentismo, ou um outro desses momentos determinantes na história da Humanidade. E isso é interessante a todos os níveis.

Os últimos séculos foram impulsionados pela finança, uma alavanca que nos serviu para muito mas que agora começa a cheirar mal p’ra caraças. Quando 1% da população mundial detém 40% da riqueza e 10% detém 85%, é natural que da Grécia ao Egipto, da Tunísia à Inglaterra o pessoal comece a desatinar.

Como se tal não chegasse, começamos a perceber que os mercados planeiam a obsolescência dos produtos, que os bancos fazem milhões sem introduzirem valor na economia (como é o caso com o trading robotizado, realizado ao micro-segundo), e que quando a coisa corre mal pedem ao  povo que salve o mesmo negócio que enterra o pessoal em dívidas.

Tudo isto é alimentado por recursos limitados (energéticos e não só), que não só começam a escassear como, para cúmulo, são mal distribuídos. A este rítmo de consumo, e com a a produção de bens deliberadamente desenhados para a obsolescência para assim re-alimentar este modelo económico, em 2030 precisaremos de duas Terras o que não é fácil de arranjar, para usar um eufemismo.

Esta crise, enraizada no modelo financeiro e monetário que o mundo adoptou, não vai passar porque está a ser combatida com as mesmas armas que a criaram: mais dívidas (ao nível dos Estados), preocupação constante com o crescimento económico (como se fosse possível manter esse crescimento com os recursos que temos), obsessão com o PIB e outros indicadores económicos e total desdém pelo bem estar dos habitantes do planeta. Ou seja, a crise é estrutural, vem do próprio sistema que já não é viável, e piorará se não for combatida com outras armas.

O desemprego está aí para aumentar. Mesmo na minha indústria (a em tempos milionária do software), há uma crise a abater-se com a automatização do desenvolvimento (geradores de código) e a “commoditisation”  do software. Programadores estão a ser despedidos aos molhos aqui no reino unido, há muito menos oportunidades de emprego, e as que há são mais mal pagas dos que eram há 5 ou 10 anos atrás. A tendência é piorar.

A política é, literalmente, uma fantochada sendo completamente irrelevante quem se elege ou não. De facto, a abstenção é a única forma de demonstrar realmente o valor deste modelo, dizendo claramente: não me interessa, quero outro.

Ou seja, estamos fodidos?

Eu gosto de pensar que não. Eu acho que a Humanidade é capaz de coisas fabulosas, em especial nas épocas de maior crise. Acredito que precisamos de um modelo global, centrado em recursos, assente em software para gestão desses mesmos recursos, sem dinheiro como forma de transacção comercial e com uma preocupação constante na igualdade de oportunidades para todos os cidadãos do mundo. Temos os recursos, a tecnologia e o interesse comum em ir nessa direcção: Este é um exemplo, mas haverá modelos alternativos por aí seguramente.

Esta crise só pode ser vencida com um salto civilizacional estonteante, que não ocorrerá sem estrebucho da parte de quem hoje corta o bacalhau e de mais alguns que se amedrontem com a mudança, mas que cuja não efectivação pode significar a nossa morte enquanto espécie. Tal como a dinastia Ming, uma das grandes eras de governo e estabilidade social da história da humanidade, começou com uma revolução, eu estou convicto de que o salto de que precisamos terá de começar também aí, e que as notícias que vemos do que se passa por esse mundo fora não são menos do que o começo disso mesmo.

Ou seja: temos assunto para canções (e outras formas de arte), uma oportunidade de ensinar coisas melhores aos nossos filhos, e o dever de destronar quem está no alto deste modelo e nos fode de fininho para darmos um salto qualitativo nas nossas vidas, ou pelo menos ficarmos na história como a geração que o conseguiu para quem depois vier a conhecer céus mais azuis.

Tempos interessantes? Podem crer! Vejam só: