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Hoje sinto que tenho que escrever. E no entanto, o peso do que quero dizer é tão grande que estou há uns bons 10 minutos a olhar para um ecrã vazio, sem ter conseguido escrever uma única palavra que seja (até agora).

Este bloqueio deve-se à irritação natural que resulta de ver gente violentada pelos organismos que a deviam proteger, a que acresce o fervilhar do sangue decorrente de, desta feita, se tratar da “minha gente”.

Hoje, Rui Rio, presidente da Câmara Municipal do Porto, ordenou o despejo da Escola da Fontinha, edifício abandonado há anos, reclamado por uma organização de carácter cultural e educativo, sem fins lucrativos, e actuando em parceria com a comunidade que serve.

Durante 5 anos, o abandonado edifício foi ocupado para fins de “casa de chuto” não supervisionada, sem que o impacto de tal actividade económico-social (ilegal em Portugal) preocupasse as autoridades policiais e camarárias.

No entanto, bem mais perigoso do que uma pandilha de zombies adormecidos pela heroína, é um grupo de gente inteligente, activa, empreendedora, criadora de sonhos, fabricante de asas que fazem as crianças voar. Gente que consegue fazer o que as escolas públicas não fazem (nem foram desenhadas para tal).

Iniciativa puxa iniciativa, e de três gatos pingados a aparecerem, passam a 30 ou a 300, e aí a coisa começa a incomodar quem trabalha diariamente por manter a populaça submetida aos desígnios dos Senhores da Pátria. Vai daí, há que cortar o mal pela raíz, e fazê-lo com eficácia e determinação, a saber:

  • Encomendar à polícia, a mesma que ainda há poucas semanas descascou valentemente numa manifestação pacífica, que apareça em grande número para garantir uma limpeza rápida do local, com direito ao uso da força
  • Vigarizar uns bombeiros, dizendo-lhes numa acção de formação que devem comparecer no dia seguinte vestidos à civil e de cara tapada para um simulacro a realizar no Porto (não lhes disseram que iam ajudar a despejar a Escola da Fontinha)
  • Esvaziada a escola, destruir a totalidade do património educativo lá presente, atirando-o pela janela no próprio dia da acção de despejo, assumida literalmente pelas “autoridades”.
  • Impedir a comunicação social de relatar o caso com isenção, através de propaganda política nos órgãos estatais e do impedimento levantado aos jornalistas que pretendiam visitar o local

O Senhor Rui Rio suporta a sua decisão com a falta de vontade do projecto em causa de assumir uma renda simbólica de 30 Euros mensais. Eu diria que o argumento ou é ridículo por não corresponder à verdade ou, de forma mais evidente, por demonstrar a falta de competência do Senhor Rio e sua equipa, ao não reconhecerem que o serviço prestado por esta organização poupa à cidade muitos milhares de Euros por ano, e gera riqueza cultural e económica de longo prazo. Esses 30 Euros de renda deviam ser transformados em 30,000, mas de subsídios camarários de elevado retorno para a cidade.

Com tudo isto, o uso da força, a aparente perseguição à Cultura independente e a manipulação dos media levaram muitos a afirmar que o país vive num período Fascista. Não estou de acordo, porque tenho dificuldade em reconhecer no actual estado algumas das suas características ideológicas.

Realmente, tenho a sensação de que não há uma ideologia política de suporte das acções da actual classe política em Portugal. São demonstradoras, isso sim, de uma delinquência perigosa, criminosa na maior parte dos casos, mesmo à luz das leis que esses mesmos vândalos desenham para encapuçarem as suas acções.

O País, está neste momento na mão de criminosos sem escrúpulos, de uma máfia aniquiladora, bem mais perigosa do que o mais sério dos assassinos detido em território nacional.

Desse ponto de vista, o Dr Rio (e outros como ele) não é fascista.  É um grunho delinquente e inseguro.

  • Inseguro porque não confia na sua posição se misturado com uma população mais culta.
  • Delinquente porque com a sua decisão viola a constituição portuguesa (acima, à direita).
  • Grunho porque escolheu fazê-lo à força bruta e com medidas de destruição deliberada, desrespeitando por completo imensos investimentos financeiros e emocionais da população que representa, ou devia representar.

A vida bafejou-o, até ver, com a sorte de estar a violentar gente que, pela sua cultura superior, evita a violência como forma de resposta.

E por falar em gente superior, apreciem este magnifico vídeo sobre o que se faz no Projecto ES.COL.A.

Es.Col.A da Fontinha from Viva Filmes on Vimeo.

Há tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo na minha vida que tem havido pouco tempo para merditar. E não é que não falte assunto no mundo para o fazer, como por exemplo o vazio que se vê em Portugal.

Há dias, uns tipos bem formados e divertidos de Lisboa convenceram o Zé Povinho, e ainda bem, a ter uma opinião diferente de toda uma corja de maestros, doutores e engenheiros que constituíam o júri do festival da canção (e notem que fizeram questão de apresentar todos os títulos e certidões para emprestar, à boa moda nacional, um pouco credibilidade ao evento). Serviu a música uma das suas principais funções, a da crítica e contestação social, para bem da nação. Ficou a Silvia Alberto com um sorriso amarelo a apressar o fim do programa e imagino que a troupe do Zé do Ballet, que oleou tantas ondas hertzianas em Portugal, ficou com o Échappé a meio pau em surpresa.

Dias depois, 300 mil marmelos vieram para a rua lembrar que muita coisa (tudo?) vai mal. E ainda bem que o fizeram. Mas, e as reacções? Onde estão? Porquê o vazio subsequente?

Manifestação Geração à Rasca no Porto - Foto do jornal espanhol El Pais

A mim parece-me que quando uma cidade com 200.000 habitantes consegue uma manifestação com 80.000 pessoas (40% de adesão) alguém tem de tomar nota e investigar com profundidade.

Se quisermos pensar em termos do Grande Porto, o maior aglomerado urbano do noroeste peninsular, estaremos a falar de 6% de adesão, o que em si mesmo é excelente, em especial se considerarmos que nesse caso poderão ter havido deslocações de 40 Kilómetros para participar, para o que é precisa muita motivação – sinal de que a causa é premente.

A real adesão deverá andar entre um número e outro. Admitamos que são 10%. Seria o equivalente a uma manifestação em Londres com uma mobilização de cerca 1 milhão de pessoas! É gente pra caraças e seguramente daria para muitas páginas de jornal.

Então e onde estão as reacções da nossa classe política, alvo da manifestação? Bom já sabemos que o Golfe  vai passar a ter IVA de 6%, o que seguramente ajudará toda a gente, desde os desempregados de longa duração às vítimas de radioactividade no Japão. Mas ninguém pede explicações aos atrasados mentais que levam os destinos do país?

Que é feito dos jornalistas? Que função, para além da propaganda do aparelho governativo, desempenham os media? Uma pesquisa no Público online nas secções de Sociedade e Política, mostra zero noticias pós-evento que reflictam a opinião de Políticos de relevo (Socrates e Cavaco). E mostra ZERO de indignação com esse vazio. No Facebook, vi artigos em jornais estrangeiros mas poucos ou nenhuns dos media nacionais, e ZERO com reacções das personalidades políticas mais relevantes.

E quando a RTP tem de noticiar a descida do IVA do Golfe, usam imagens da Volkswagen!!! Mas que jornalismo é este? Quem revê o que se emite? Será que a falta de zelo em Portugal é tal que nem o público do canal público português merece respeito por parte dos profissionais cujos salários são pagos por esse mesmo público?

Este vazio demonstra que os media, concentrados na capital do lobby, tocam a música do maestro e não a que o público precisa de ouvir. E fazem-no sem sequer pensar. Como o fazem os governantes que caem no ridículo máximo ao anunciar políticas vazias de conteúdo e impacto dias depois de uma manifestação com a dimensão que se viu.

Fica também a sensação de que, esvaziada a bexiga, os manifestantes recarregaram as pilhas para mais uns anos de travessia do deserto, e que por isso não forçam os media a pedir comentários à classe política e, em caso de pouco sucesso nessa intenção, os fazem escrever sobre o escândalo político subjacente a esse insucesso. Os nossos bons costumes já não o são – são derrotismo. É a vida. É o fado.

Fico assim com a ideia de que Portugal está mergulhado num vazio máximo de visão, política, media e valores. Está nas mãos de um grupo de gente ignorante por um lado, espertinha por outro, com uma ambição de poder ilimitada a que se contrapõe uma total incapacidade de inspirar uma nação a ser melhor.

E a vocês que estão mais perto, que vos parece?

As cidades e os Sonhos

Posted: Outubro 28, 2010 in Londres, Porto, Sonhos, vida

Há já várias semanas que tenho vindo a procrastinar no que diz respeito à minha actividade bloguista (ou será blogueira?) e não foi porque me faltasse assunto mas sim tempo, que me falta também hoje, mas que decididamente combati para dar descanso à alma.

É que se o tempo não me ajuda a escrever, os ritmos dos dias de hoje não deixam de me criar dúvidas (falhas de que o senhor Aníbal de Boliqueime diz não sofrer) desde as coisas mais mundanas até à sustentabilidade da nossa espécie e da minha própria contribuição para deixar um balanço minimamente positivo neste calhau que, por agora, habitamos.

Na semana passada, revisitei um país, e concretamente uma cidade, que me fascinou por alturas de 2002 quando lá passei 2 semanas de férias. Desta vez, não foi o turismo que lá me levou mas sim o trabalho com o qual vou pagando as côdeas e o ocasional e cada vez mais raro camarão que se comem cá por casa.
Edimburgo é uma cidade milenar, com um carisma que, por ser tão forte, se assemelha ao do Porto. A diferença clara está na vida activa de uma cidade, contraposta à decadência que vejo com cada vez mais tristeza na outra.

Ambas são cidades com pouco menos de 500.000 mil habitantes, talvez o tamanho ideal para uma cidade. Mas Edimburgo transpira actividade comercial e de entretenimento, tem imensos turistas, está bonita e cuidada, de cara lavada, como se fosse uma espectacular senhora de meia idade de quem as rugas contam histórias de amor e guerra que, do grande esquema das coisas para o pequeno, se transformam de absolutas insignificâncias na razão de ser da própria vida. E isso sente-se, mais do que se vê, na cidade e nos olhares de com quem nos cruzamos.

Dei comigo a pensar “Porque deixaram a minha senhora de meia idade transformar-se numa velha desdentada e com cheiro a mijo?”. Que pode fazer-se no Porto para trazer a cidade de volta ao esplendor que já conheceu e que merece?

Não perceberão os centralistas que às sinergias que advêm de ter toda a planificação e execução da vida de um país no interior da segunda circular se contrapõe um impacto ambiental brutal capaz de arrasar regiões e com isso uma nação? Não perceberão que uma cidade e um país são reflexos de uma cultura (que tem de ser preservada e desenvolvida) e de uma atitude em relação ao Mundo e às possibilidades (ou falta delas) que este apresenta?

Quando, por exemplo, se pensa em fechar o Teatro Nacional S. João não se fecha só uma porta, dá-se mais uma machadada nos sonhos de uma cidade, afunda-se mais o seu povo, priva-se-o de acesso a um palco de sonhos, afunda-se mais gente na miséria – não financeira mas cultural e até espiritual.

Há dias ouvi Desmond Tutu dizer, acerca do Campeonato do Mundo de Futebol na África do Sul e  da adequabilidade do dispêndio de tanto dinheiro num só evento enquanto o país carece de tantas outras infra-estruturas, que o Homem não precisa só de estádios, escolas, hospitais, e demais pedaços de aço e tijolo. O Homem precisa de Sonhar, e esse evento era representativo disso mesmo: a possibilidade de começar o sonho de uma vida melhor. Quando é que o Porto encontrará de novo o seu sonho e começará a construí-lo?

E enquanto pensava em tudo isto, dei por mim a sobrevoar Londres, cortesia do piloto da British Airways, numa espécie de tour aéreo da cidade, visitando Canary Wharf, Westminster, West End, Hyde Park e Chelsea enquanto o sol se despedia e o luar iluminava os céus da cidade. O que vi foi exactamente isto (foto de Jason Hawkes), e pensei: Aqui sonha-se com o que nos apetecer. Não deveria ser assim em todo lado?

Londres ao cair da noite. Foto de Jason Hawkes