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O(s) sistema(s) que nos rodeiam são-nos impingidos de tal maneira que em pouco tempo, normalmente ao fim de poucos anos de escolaridade e convivio familiar, a nossa inteira existência parece carecer de autorização e escrutínio de terceiros. Ou porque nos dizem que sim, ou porque se desenvolvem mecanismos legais desenhados para que não possamos escapar a tais rigores e intromissões.

Seria, julgo eu, expectável que qualquer ser nascido neste mundo tivesse o direito de nele viver anonima e livremente. Afinal, como qualquer pinguim da Antártida, somos filhos desta Terra, e nela estamos a título temporário, com usufruto dos seus recursos a título de empréstimo. Porquê tanta supervisão em torno de cada indivíduo?

Estou convencido que a esmagadora maioria dos mortais respeitaria princípios equitativos de vida em literal e absoluto anonimato sem grandes problemas, desde que providos da devida educação, claro está. E infelizmente, nesta premissa está, quanto a mim, o problema.

Numa boa parte do mundo desenvolvido criaram-se esquemas socio-económicos que destituem os pais do seu direito, consagrado no parágrafo 3 do artigo 26 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de escolher o género de educação a dar aos seus filhos, direito que, na escolha de muitos, honraria, além do mais, milhões de anos de evolução genética (através da educação provida pelos progenitores).

Para a maior parte dos pais a opção é única, pela via da escolarização de massas, necessariamente por terceiros, desconhecidos e, frequentemente, desmotivados e inaptos professores. Nessas desconhecidas e, muitas vezes, desconhecedoras mãos são colocados os sonhos de crianças e o dever de as educar. E basta ver o estado do ensino em Portugal e no Reino Unido, e a qualidade de vida e sensação de realização pessoal dos adultos deste mundo para percebermos que essa solução está longe de ser a melhor.

Dizem os pedagogos e psicólogos que as crianças aprendem melhor com aqueles de quem gostam, concretamente os progenitores. Por isso, deixem o cardeal em paz que o que ele diz faz muito sentido, antropológica, social e academicamente falando, respeitado, claro está, o direito de qualquer progenitor (das mães também) de perseguirem uma carreira profissional em vez de as palavras deste clérigo. Não há neste argumento, e julgo que na intenção do cardeal também não, um pressuposto sexista.

Numa breve tangente ao principal objectivo deste artigo, devo dizer, no que toca à polémica levantada em torno das declarações de Manuel Monteiro de Castro, que as liberdades recentemente conquistadas pelas mulheres (e ainda bem que o foram) embaciam a visão no que toca a principios fundamentais de vida animal, realmente os que mais influenciam o nosso desenvolvimento enquanto espécie e individuos, segundo os quais a mãe da cria (da galinha, do porco, do leão e do homem) tem um papel fundamental no seu desenvolvimento. E aqui, realço, mãe e pai não são iguais. São diferentes. Nenhum é mais do que o outro. São diferentes. Desempenham funções educativas diferentes, e a da mãe é particularmente importante!

Dizia eu que a necessidade de trabalho por conta de outrém, tipicamente remunerado muito abaixo da riqueza produzida por cada trabalhador, se torna em estilo de vida obrigatório para ambos os progenitores (na generalidade das famílias, como é evidente).Como se tal não chegasse, a propaganda da escolaridade mínima (educação e escolarização são coisas diferentes, e não necessariamente compatíveis) pressupõe a obrigatoriedade (que nem o é) de mandar os putos para a escola, tornando aquilo que é, de facto, uma escolha consagrada na lei, numa escolha única e sem alternativa, na mente da maior parte das pessoas. Vai daí, as crianças acabam nas escolas que o aparelho de estado controla.

Nas instituições de educação massiva e não personalizada, as individualidades das crianças são suprimidas (a começar no conceito de uniforme escolar, e a acabar no desrespeito pelas suas preferências no que toca a estilos de aprendizagem), as suas competências restringidas a um limitado currículo académico (como se no mundo só houvesse as 2 línguas ensinadas na escola, ou o valor de um indivíduo dependesse da sua capacidade de calcular o seno de um ângulo aos 14 anos), e o seu valor intelectual medido de acordo com um critério quasi-estatístico de conformância com uma escala arbitrária ditada por um governo.

O génio de cada um, presente em TODOS os indivíduos cerebralmente sãos, é, por instrumentação política, deliberadamente ignorado e trocado pela mediania, literalmente. Com excelente matéria prima, fazem-se salsichas assim-assim, como sugerem,e bem, os Pink Floyd.

A dita escala de avaliação, por seu turno, serve também como um instrumento castrador e asfixiante; A avaliação escolar é, nos dias de hoje e há pelo menos 40 anos, baseada nos resultados obtidos em testes ou exames. Nestes, raramente o 100% é atingido, o que transmite invariavelmente duas coisas possíveis ao aluno (ou ambas):

  1. Eu não suficientemente bom nesta matéria porque não tirei os 100% representativos de total satisfação dos critérios do professor (talvez até porque não gosto disto nem lhe vejo utilidade),
  2. Desde que eu vá passando nos exames vou satisfazendo os requisitos deste sistema e passo a ser um sucesso!

Ou seja, não só há uma gradual erosão da auto-estima de cada um, como há um acerto de prioridades no qual o importante não é saber mas sim ter mais do que X valores num exame cujo grau de dificuldade é tipicamente ajustado pelas escolas/professores para satisfazer quotas de aprovação. Ou seja, na avaliação de um mesmo professor em dois anos civis diferentes, o 14 de um aluno não equivale ao 14 de outro!

Como se tal não bastasse, num grupo artificialmente criado de 30 crianças da mesma idade (qual de vós tem um círculo social com quem convive 8 horas por dia em que toda a gente tem a mesma idade?!) desenvolve-se, através das notas e dos méritos, dos castigos e dos grupos de habilidade, um ambiente de competição pouco saudável, em que o sucesso individual, e não o de grupo, é encorajado e premiado, em que uns são mais “espertos” do que outros, sem que se explique às crianças que tais rankings (errados na sua génese) espelham apenas um critério muito, muito, muito estreito das suas competências conforme avaliadas num determinado dia, que falha também por não tomar em conta questões fundamentais de desenvolvimento fisico-neurológico ditado pelo bio-ritmo de cada uma das pequenas pessoas.

Com tudo isto, não admira que das “melhores” escolas saiam as grandes cabeças da Goldman Sachs e da Monsanto.

Consequentemente e em resumo, acredito piamente que a escola desenvolve mentalidades individualísticas, impede a maior parte das pessoas de atingirem o seu potencial, destrói a sua auto-estima e orienta o sucesso escolar para a passagem em exames e não para a aprendizagem. Digo-o com consciência e do alto do meu “sucesso” escolar, onde passei 18 anos da minha vida (com canudo e tudo) e que, por isso, conheço por dentro e por fora.

Por estas razões, e em grande parte a pedido deles, tirámos há um par de meses os nossos 3 filhos (6,8,12 anos) da escola para lhes oferecermos uma educação não escolarizada, assente nos seus interesses, idiosincrasias e valores, debaixo da nossa orientação e proveniente de experiências enriquecedoras (muita brincadeira, muita interacção com famílias semelhantes, muita arte, currículo tão variado quanto queiram, e ao rítmo a que pretendam seguir). Para trás ficam as rotinas rigorosas ditadas por outros, horas a fio a fazer fichas de trabalho, palestras infinitas, trabalhos de casa capazes de eliminar o equilibrio de vida de um miúdo de 6 anos, grupos de habilidade, em resumo, a escravatura escolar como preparação para a escravatura profissional.

Foi, quanto a mim, a melhor decisão que podiamos ter tomado. Em semanas, as suas verdadeiras personalidades (as tais que a escola esmagava) vieram à superfície; São mais felizes, calmos e confiantes, interagem com qualquer indivíduo de igual para igual, com respeito, assertividade e consideração, independentemente de se tratar de uma criança de 7 anos ou de um jovem de 70. São pro-activos na sua aprendizagem, investigam naturalmente, acreditam nas suas capacidades, e atiram-se de cabeça para os assuntos que, por qualquer razão, eram absolutas dores de cabeça nos seus tempos escolares.

E o mais importante é isto: A estes 3 jovens, a máquina de propaganda que ensina a população que a sociedade actual é a ideal, não lhes irá tocar mais.

É esta, do nosso ponto de vista, a nossa mais importante função, a de maior impacto no mundo, para construirmos um melhor amanhã. Estamos a desligar os nossos filhos da matriz que controla o mundo, e com isso há-de vir a liberdade deles e, quem sabe, a de outros.

Visitem o Trepar Ao Céu para acompanharem o que vamos fazendo. Entrementes, deixo-vos com algumas citações interessantes, de gente importante no domínio da pedagogia e política social.

“My education was interrupted only by my schooling” – Winston Churchill

“School is the advertising agency which makes you believe that you need the society as it is.” ~ Ivan Illich

‎’Education…now seems to me perhaps the most authoritarian and dangerous of all the social inventions of mankind. It is the deepest foundation of the modern slave state, in which most people feel themselves to be nothing but producers, consumers, spectators, and fans, driven more and more, in all parts of their lives, by greed, envy, and fear. My concern is not to improve ‘education’ but to do away with it, to end the ugly and antihuman business of people-shaping and to allow and help people to shape themselves.’ ~ John Holt

Hoje, enquanto eu discutia o sexo dos anjos com uma equipa de doutorados de Cambridge numa aquecida sala da City of London, um debate bem mais quente acontecia no meio do frio da cidade. Em causa estava, aparentemente, o triplicar das propinas das Universidades. Na realidade, o que estava em causa era mais um exemplo da prepotência e da falta de seriedade política, o agravamento (desejável para quem está no poleiro) da sociedade de classes com fossos cada vez mais acentuados entre cada um dos seus estratos, o abuso de poder, a hipocrisia.

É o argumento de que as proprinas precisam de subir como consequência da crise enquanto se perdoam 4.5 mil milhões de libras de impostos à Vodafone. É o aumento das propinas debaixo do argumento da crise enquanto o próprio ministro das finanças tira partido de uma insuficiência legal (seguramente planeada) para fugir a uma conta de impostos que ascende a milhões de libras e pedir aos tesos que apertem o cinto, concretamente à custa da sua educação.

É a imposição de uma dívida não solicitada aos jovens que, assim, começam as suas vidas algemados pela banca, via Estado (o mesmo estado que subsidia a irresponsabilidade da banca gananciosa que criou esta mesma crise!!!).

E é fazer tudo isto depois de ter formado governo depois da promessa de que reduziria (em vez de triplicar) estas mesmas propinas, como foi o caso dos Liberais Democratas.

É a cara de pau de dizer ao eleitorado: “nós prometemos o que vocês quiserem para ganhar o vosso voto, para depois vos fodermos na posição que mais prazer e conveniência nos trouxer.”

E, acima de tudo, é fazê-lo a uma geração que se guia por valores diferentes: mais informada, mais social, mais preocupada com a sua realidade e com o futuro do planeta e, consequentemente, mais descrente na classe política que actualmente protege os interesses de muito poucos à custa do sacrifício de imensos muitos.

Quando a violência das classes políticas, aqui resumida a este episódio mas realmente abrangendo todos os domínios da vida pública – da finança à sustentabilidade do planeta, da pseudo-liberdade de imprensa (wikileaks, anybody?) à corrupção, chega a estes extremos porque razão deverão as massas oprimidas retribuir pacificamente?

Em Inglaterra, o pessoal não deixa a coisa em banho maria. Trá-la a ponto de ebulição assim que sentem a água a aquecer, e assim deve ser – cada um à sua maneira. Deixo aqui o meu cumprimento sentido a quem se afirma contra aquilo com o qual discorda.

Porque não atacar servidores de empresas que protegem o terrorismo de estado? Porque não partir vidros nas sedes de partidos políticos e, se possivel, também a cara a alguns dos seus representantes?

E quanto ao argumento “politicamente correcto” de que os protestos se fazem com cravos e ramos de alfazema,os demagogos utilizam esse argumento como forma de ganharem credibilidade através da descredibilização dos protestantes. Quem está na mó de baixo, não tem mais alternativas: é que a do voto agora já vem tarde e, acima de tudo, aparenta ter sido um fiasco da última vez que foi experimentado (há 3 ou 4 meses atrás)!!!!!

A revolução é precisa e não se faz só com uma mão. E em Portugal, quando começará?

As cidades e os Sonhos

Posted: Outubro 28, 2010 in Londres, Porto, Sonhos, vida

Há já várias semanas que tenho vindo a procrastinar no que diz respeito à minha actividade bloguista (ou será blogueira?) e não foi porque me faltasse assunto mas sim tempo, que me falta também hoje, mas que decididamente combati para dar descanso à alma.

É que se o tempo não me ajuda a escrever, os ritmos dos dias de hoje não deixam de me criar dúvidas (falhas de que o senhor Aníbal de Boliqueime diz não sofrer) desde as coisas mais mundanas até à sustentabilidade da nossa espécie e da minha própria contribuição para deixar um balanço minimamente positivo neste calhau que, por agora, habitamos.

Na semana passada, revisitei um país, e concretamente uma cidade, que me fascinou por alturas de 2002 quando lá passei 2 semanas de férias. Desta vez, não foi o turismo que lá me levou mas sim o trabalho com o qual vou pagando as côdeas e o ocasional e cada vez mais raro camarão que se comem cá por casa.
Edimburgo é uma cidade milenar, com um carisma que, por ser tão forte, se assemelha ao do Porto. A diferença clara está na vida activa de uma cidade, contraposta à decadência que vejo com cada vez mais tristeza na outra.

Ambas são cidades com pouco menos de 500.000 mil habitantes, talvez o tamanho ideal para uma cidade. Mas Edimburgo transpira actividade comercial e de entretenimento, tem imensos turistas, está bonita e cuidada, de cara lavada, como se fosse uma espectacular senhora de meia idade de quem as rugas contam histórias de amor e guerra que, do grande esquema das coisas para o pequeno, se transformam de absolutas insignificâncias na razão de ser da própria vida. E isso sente-se, mais do que se vê, na cidade e nos olhares de com quem nos cruzamos.

Dei comigo a pensar “Porque deixaram a minha senhora de meia idade transformar-se numa velha desdentada e com cheiro a mijo?”. Que pode fazer-se no Porto para trazer a cidade de volta ao esplendor que já conheceu e que merece?

Não perceberão os centralistas que às sinergias que advêm de ter toda a planificação e execução da vida de um país no interior da segunda circular se contrapõe um impacto ambiental brutal capaz de arrasar regiões e com isso uma nação? Não perceberão que uma cidade e um país são reflexos de uma cultura (que tem de ser preservada e desenvolvida) e de uma atitude em relação ao Mundo e às possibilidades (ou falta delas) que este apresenta?

Quando, por exemplo, se pensa em fechar o Teatro Nacional S. João não se fecha só uma porta, dá-se mais uma machadada nos sonhos de uma cidade, afunda-se mais o seu povo, priva-se-o de acesso a um palco de sonhos, afunda-se mais gente na miséria – não financeira mas cultural e até espiritual.

Há dias ouvi Desmond Tutu dizer, acerca do Campeonato do Mundo de Futebol na África do Sul e  da adequabilidade do dispêndio de tanto dinheiro num só evento enquanto o país carece de tantas outras infra-estruturas, que o Homem não precisa só de estádios, escolas, hospitais, e demais pedaços de aço e tijolo. O Homem precisa de Sonhar, e esse evento era representativo disso mesmo: a possibilidade de começar o sonho de uma vida melhor. Quando é que o Porto encontrará de novo o seu sonho e começará a construí-lo?

E enquanto pensava em tudo isto, dei por mim a sobrevoar Londres, cortesia do piloto da British Airways, numa espécie de tour aéreo da cidade, visitando Canary Wharf, Westminster, West End, Hyde Park e Chelsea enquanto o sol se despedia e o luar iluminava os céus da cidade. O que vi foi exactamente isto (foto de Jason Hawkes), e pensei: Aqui sonha-se com o que nos apetecer. Não deveria ser assim em todo lado?

Londres ao cair da noite. Foto de Jason Hawkes