Archive for the ‘Liberdade de Expressão’ Category

Hoje sinto que tenho que escrever. E no entanto, o peso do que quero dizer é tão grande que estou há uns bons 10 minutos a olhar para um ecrã vazio, sem ter conseguido escrever uma única palavra que seja (até agora).

Este bloqueio deve-se à irritação natural que resulta de ver gente violentada pelos organismos que a deviam proteger, a que acresce o fervilhar do sangue decorrente de, desta feita, se tratar da “minha gente”.

Hoje, Rui Rio, presidente da Câmara Municipal do Porto, ordenou o despejo da Escola da Fontinha, edifício abandonado há anos, reclamado por uma organização de carácter cultural e educativo, sem fins lucrativos, e actuando em parceria com a comunidade que serve.

Durante 5 anos, o abandonado edifício foi ocupado para fins de “casa de chuto” não supervisionada, sem que o impacto de tal actividade económico-social (ilegal em Portugal) preocupasse as autoridades policiais e camarárias.

No entanto, bem mais perigoso do que uma pandilha de zombies adormecidos pela heroína, é um grupo de gente inteligente, activa, empreendedora, criadora de sonhos, fabricante de asas que fazem as crianças voar. Gente que consegue fazer o que as escolas públicas não fazem (nem foram desenhadas para tal).

Iniciativa puxa iniciativa, e de três gatos pingados a aparecerem, passam a 30 ou a 300, e aí a coisa começa a incomodar quem trabalha diariamente por manter a populaça submetida aos desígnios dos Senhores da Pátria. Vai daí, há que cortar o mal pela raíz, e fazê-lo com eficácia e determinação, a saber:

  • Encomendar à polícia, a mesma que ainda há poucas semanas descascou valentemente numa manifestação pacífica, que apareça em grande número para garantir uma limpeza rápida do local, com direito ao uso da força
  • Vigarizar uns bombeiros, dizendo-lhes numa acção de formação que devem comparecer no dia seguinte vestidos à civil e de cara tapada para um simulacro a realizar no Porto (não lhes disseram que iam ajudar a despejar a Escola da Fontinha)
  • Esvaziada a escola, destruir a totalidade do património educativo lá presente, atirando-o pela janela no próprio dia da acção de despejo, assumida literalmente pelas “autoridades”.
  • Impedir a comunicação social de relatar o caso com isenção, através de propaganda política nos órgãos estatais e do impedimento levantado aos jornalistas que pretendiam visitar o local

O Senhor Rui Rio suporta a sua decisão com a falta de vontade do projecto em causa de assumir uma renda simbólica de 30 Euros mensais. Eu diria que o argumento ou é ridículo por não corresponder à verdade ou, de forma mais evidente, por demonstrar a falta de competência do Senhor Rio e sua equipa, ao não reconhecerem que o serviço prestado por esta organização poupa à cidade muitos milhares de Euros por ano, e gera riqueza cultural e económica de longo prazo. Esses 30 Euros de renda deviam ser transformados em 30,000, mas de subsídios camarários de elevado retorno para a cidade.

Com tudo isto, o uso da força, a aparente perseguição à Cultura independente e a manipulação dos media levaram muitos a afirmar que o país vive num período Fascista. Não estou de acordo, porque tenho dificuldade em reconhecer no actual estado algumas das suas características ideológicas.

Realmente, tenho a sensação de que não há uma ideologia política de suporte das acções da actual classe política em Portugal. São demonstradoras, isso sim, de uma delinquência perigosa, criminosa na maior parte dos casos, mesmo à luz das leis que esses mesmos vândalos desenham para encapuçarem as suas acções.

O País, está neste momento na mão de criminosos sem escrúpulos, de uma máfia aniquiladora, bem mais perigosa do que o mais sério dos assassinos detido em território nacional.

Desse ponto de vista, o Dr Rio (e outros como ele) não é fascista.  É um grunho delinquente e inseguro.

  • Inseguro porque não confia na sua posição se misturado com uma população mais culta.
  • Delinquente porque com a sua decisão viola a constituição portuguesa (acima, à direita).
  • Grunho porque escolheu fazê-lo à força bruta e com medidas de destruição deliberada, desrespeitando por completo imensos investimentos financeiros e emocionais da população que representa, ou devia representar.

A vida bafejou-o, até ver, com a sorte de estar a violentar gente que, pela sua cultura superior, evita a violência como forma de resposta.

E por falar em gente superior, apreciem este magnifico vídeo sobre o que se faz no Projecto ES.COL.A.

Es.Col.A da Fontinha from Viva Filmes on Vimeo.

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Ora, ora, ora!!! Estava aqui eu tão sossegado a pensar na didáctica da música, e tinham de me desassossegar. E logo as “autoridades”!

Lembro-me , há muitos anos, numa altura em que dois crápulas levavam o destino do país (o Silva das Vacas como Primeiro e o seu leal parceiro no crime, o implacável Dias Loureiro, como Ministro da Administração Interna), que a polícia descarregou fortemente sobre estudantes universitários que protestavam pacificamente contra o aumento das propinas.

Ora hoje, debaixo da tutela do mesmo Silva das Vacas, novas imagens nos chegam, desta vez com ênfase na agressão a jornalistas, armados apenas com a força do alcance das suas palavras e imagens.

Não é novo. Já o vi nos anos 90. E os meus pais antes disso. Mas são precisamente essas semelhanças que levantam suspeitas e emprestam credibilidade ao argumento de que Portugal não é, hoje em dia, um país democrático, estando antes debaixo de uma ditadura que revela muitas das suas suas horríveis facetas ao virar de cada esquina, literalmente.

Da agressão a jornalistas que querem contar o que alguns não querem que se ouça, à morte desamparada de idosos com a ajuda da mão ensanguentada do estado, passando pela redução de salários e pela deliberada asfixia cultural, assistimos diariamente à violentação permanente de um povo demasiado pacato para merecer tais abusos ou para os resolver com mão de ferro.

Sabemos até que aqui, como em Espanha e noutros sítios, é polícia à paesana que provoca os incidentes cujas responsabilidades são depois atribuídas à população. Na minha terra, gente de escrita e fala escorreitas classificaria tais actos como uma filha-da-putice sem nome, isto para usar terminologia técnica rigorosa.

O nosso sistema límbico, estrutura a respeitar uma vez que garante muito da nossa sobrevivência, sugeriria certamente a execução sumária de duas mãos cheias de proxenetas da nação e do mundo, regada com outras tantas de cocktails molotof em locais relevantes frequentados por essa corja de criminosos. Todos, ou quase, o sentimos nas tripas como uma solução exemplar para o problema. Infelizmente por um lado, e felizmente por outro, não somos como outros povos e por isso não fazemos uso dessas tácticas. Isso obriga-nos a viver no meio da merda ou a elevar o nível para a afogar de vez. Proponho a segunda via, até porque não sou adepto de soluções violentas. Mas como?

Portugal, como o resto do mundo, está na mão de assassinos sanguinários vestidos de Armani e Prada (excepção feita ao pessoal do Vaticano que, sendo insuperáveis assassinos sanguinários, não têm um gosto tão refinado em questões de moda, até por razões protocolares). O poder a que todos eles estão agarrados está assente numa mistura explosiva de duas coisas:

  1. A venda de um sonho, um ideal, algo que todos reconheçam como A Salvação, venha ela na forma de Deus ou de um Ferrari F40,
  2. Num esquema de escravatura emocional (e não só) que por um lado impeça a concretização do sonho e por outro o re-alimente, tornando-o mais intenso e merecedor de esforços ainda mais brutais para que possa ser alcançado. Assim, tudo pode ser visto como um esforço que “vale a pena” (curioso, o significado literal desta expressão).

Este é o paradigma em que vivemos, e não será de um dia para o outro que o vamos mudar. Digo-o porque os poderes a derrotar não são coisa miúda. A solução passará seguramente por um acordar de consciências que esse mesmo poder inebria com ignorância, medo, castração de liberdades e uma instrução escolar que nos vende a ideia de que a Sociedade precisa de ser como é (verdade que só se aplica aos que dela abusam e tiram partido ilegítimo).

Num artigo de leitura obrigatória (em inglês) e que talvez um dia eu acabe a traduzir, Marco Torres, um perito em Saúde Pública e Ciência Ambiental, advoga que nas escolas (organizações geridas pela mesma corja de bandidos que nos tem como reféns do feitiço descrito acima) “as crianças são psicologicamente condicionadas para falhar e perder a esperança. Medo de falhar leva à inacção e ao desespero. É um ciclo vicioso. Quando as crianças não têm esperança, têm medo de falhar. Se têm medo de falhar nunca actuarão. Depois, pegam nesta fórmula e aplicam-na em todas as instâncias das suas vidas.”

Mmmm….. Estará aqui a resposta para os tais brandos costumes nacionais? A mítica falta de acção do Zé Povinho?

Aqui em Inglaterra, os problemas são semelhantes, embora com diferentes especificidades. Mas a solução que encontrei assenta em desligar os meus filhos do sistema, à boa maneira do Matrix, e procurar incutir-lhes ideais diferentes. Não foi um acto de heroísmo, apenas de bom senso. Antes de nós outros houve que o fizeram e nos inspiraram a dar o salto, em relação ao qual estamos cada vez mais felizes. Depois de nós, oxalá mais apareçam, mantendo as tendências de crescimento que se têm verificado no homeschooling.

Talvez, ao atingir-se uma certa massa crítica de almas livres e independentes, o actual sistema acabe por ruir pelas bases, por não ter mais escravos emocionais (e da finança) a alimentar as sanguessugas que se agarram às veias do poder. Nesse dia, admitindo que ainda restará planeta, violências como as que assistimos hoje (e ontem e amanhã) não acontecerão, porque uma Humanidade livre de espírito não temerá a liberdade de expressão, nem a diferença de opinião, nem a realização pessoal, nem a partilha de riquezas e recursos. Até lá, seguimos em frente, em busca do salto civilizacional de que tanto precisamos. Experimentem começá-lo em casa. Os filhos dos vossos filhos hão-de agradecer-vos.

Francisco Gouveia, músico multi-instrumentista, compositor, maestro, escritor, é por estes e outros atributos alguém cujas opiniões musicais merecem a atenção de todos os que gostam de música.

Há cerca de uma hora, fui surpreendido por um email seu, pedindo-me que distribuisse a sua análise ao Das Turmêntas Hà Boua Isperansa pelos demais elementos dos Trabalhadores do Comércio e, se o achasse merecedor, por outros gavetos da internet. Aqui fica para vossa apreciação, agora que limpei a baba dos queixos. Obrigado pelo dispêndio de tempo e tinta, Chico!

A deslumbrante capa do disco/livro dos Trabalhadores do Comércio é de Alberto Almeida

TRABALHADORES DO COMÉRCIO:

A CONCRETIZAÇÃO DA UTOPIA

Ao acabar de ouvir o novo álbum dos Trabalhadores do Comércio: “Das Turmêntas Há Boua Isperança”, deu-me vontade de subir ao topo da Torre dos Clérigos e gritar para todo o mundo: não me dêem mais música da outra que eu já sou crescidinho!

Mas como sei que não haveria no Poder dois doutores que dessem pelo meu recado, não o fiz. Antes, resolvi agarrar-me a esta folha e descarregar o que para aqui vai escondido. Cada qual luta com as armas que tem!

De facto, olha-se para este grupo, esta banda, esta cooperativa musical, como um boi olha para um palácio quente em dia de geada: com vontade de entrar lá dentro e não mais sair enquanto durar a borrasca. E como a borrasca vai andar a dar-nos cabo da vida por muitos anos, o mais provável é continuarmos a acoitar-nos na confortável protecção destes Trabalhadores e pedir aos santos do Olimpo que os conserve com genica para se meterem outra vez nestas aventuras.

Os Trabalhadores sempre se recusaram a entrar na barca que os carregaria confortavelmente até à foz, preferindo seguir a nado contra a corrente, rumo à nascente. E nesta utopia caminham desde que nasceram. Porque o projecto dos Trabalhadores é uma utopia. Tão grande como a altura do Serjom, tão extensa como os anos que levam a vivê-la, tão diversa como as personalidades que o compõem. Depois, há a logística impressionante de conseguir juntar os elementos de uma banda que, no dia a dia, estão tão distantes como do Porto a Vigo, de Vigo a Londres, de Londres aos EUA!

E há o mercado, porque os discos não se fazem senão houver euros para os pagar!

E há ainda esta idiossincrasia dos Trabalhadores, que é a de não se padronizarem, não se regerem por matrizes, recusarem o banal, a reverência, as modas, o musicalmente correcto.

Vejam bem: ao ouvirmos qualquer dos grupos de topo do nosso “rócanrole”, facilmente os identificamos. Têm uma matriz que não largam há anos. Uma receita a que se agarraram como quem come pão com queijo todos os dias. Aos primeiros acordes, a gente já sabe quem toca. Não sei se isto é defeito ou virtude. Tenho-o como limitação. Uma espécie de estabelecimento prisional onde o preso, por lá estar há muitos anos, já não quer sair com medo do que possa encontrar lá fora.

De tudo isto e muito mais, resulta que a tal utopia dos Trabalhadores poderia ser, à partida, um fracasso facilmente previsível.

Mas como de previsões furadas está o mundo cheio, o certo é que os Trabalhadores vão conseguindo a maravilha de ir concretizando a utopia. A utopia de poder ser diferente, e sobreviver num mundo musical que está agarrado a padrões e a matrizes quase inquisitórias. E viver a plena liberdade de poderem fazer o que entendem e não o que os mercados impõem.

Sejamos concretos: a maioria dos grandes grupos portugueses e mundiais, andam prisioneiros de estilos, de modas, do tal padrão de que falei. Não os vejo a dar o salto para o outro lado da margem, ou a terem sequer a coragem de o tentar. E isto é uma forma de encarceramento. Por livre arbítrio, o que é mais grave.

Os Trabalhadores saltam a margem, e, acima de tudo, pulam as cercas das quintarolas da nossa lusa mediocridade. Com a mesma facilidade com que saltam de um blues para um rock, de um funkie para o jazz, do folk para o tango. E há também as palavras, duras, incisivas, mordazes, de cortar à faca. E já nem falo da apresentação, senão cai-me a confraria moralista dos “nóbus analistas musicaizes” em cima, sem dó nem ré.

“Das Turmêntas Há Boua Isperança” é um álbum para quem não tem medo de sustos nem gosta que um disco tenha uma côdea suculenta e o meio seja um miolo mal cozido. Há uma ambiência musical diversificada, onde pontua uma espécie de salutar demência bipolar, que vai desde a garganta improvável de um Joe Medicis à cicatrizada de Sérgio Castro, passando por um trio feminino de luxo que, individualmente, fazem qualquer festa sozinhas (Diana Basto, Daniela Costa e Marta Ren). Esta será outra utopia que venceram: a de as terem conseguido reunir com esta consistência “familiar”.

Dentro do álbum, está, quanto a mim (e quando digo quanto a mim, é quanto a mim e ponto final) o melhor tema de 2011, com danos colaterais extensivos a 2012: Gladiador. Letra simples mas incisiva e eficaz, música sem colcheias a mais nem a menos, interpretação no ponto, arranjo irrepreensível, mistura idem aspas. O tema é da autoria do António Garcês (que anda lá pela América) e de Sérgio Castro (pousado em Vigo), o que prova que os filhos podem ser feitos por correspondência, mesmo dando em gladiadores.

Os Trabalhadores do Comércio serão, porventura, a melhor banda portuguesa. Não por serem melhores do que os outros (eu sei lá quem é melhor ou pior! Sei do que gosto), mas por serem diferentes. E conseguem ser diferentes porque são livres. E, no mundo de hoje, onde a norma é habituarmo-nos a ser prisioneiros do que os mercados ordenam, é preciso ter uma inteligência limpa de quadraturas e possuir uma grande arte no sentido mais lato, para se ter a ousadia de se ser livre.

Os Trabalhadores do Comércio vão-nos demonstrando, disco a disco, que é possível concretizar esta utopia maravilhosa que é a de manter os sonhos vivos, e de os ir concretizando passo a passo.

E é esta liberdade, a verdadeira liberdade, que os faz ser superiores, e indiferentes a qualquer “playlist” dos trabalhadores da imbecilidade, ou a qualquer TOP+ do comércio musical.

Chico Gouveia

Ora com tanta coisa para fazer, tinha logo de aparecer uma dessas coisas das “regras” para me desencaminhar e me trazer para o Blog. Mais uma vez, passaram-se meses sem aqui escrever, por falta de tempo, mais do que qualquer outra coisa. Desta vez, o assunto é línguas.

Hoje li no Facebook, em vários perfis, a estupefacção de muitas pessoas, a juntar à minha própria, ao aprenderem o “verdadeiro” plural de “refrão”.

Não estou sequer preparado para admitir que afinal as minhas canções têm refrães, porque não têm. Foram escritas, como muitas outras, de muitos compositores, com refrões com um O bem redondo.

Claro que não está aqui em causa debater a magnifica sapiência dos linguístas que nos chamam a atenção para estas coisas, mas antes chamar a atenção para a sua função, que parece ter um caracter um tanto ao quanto dictatorial em Portugal.

Depressa se apressaram os amigos dos meus amigos, qualquer deles mais cultos do que eu, pelo menos em matéria linguística, a explicar que a regra depende do som da sílaba átona, e que daí se escolhe se de “ão”  se passa a “ãos”, “ões” ou “ães”.

Como alguém dizia nessas discussões, isto é pior que levar um xuto nos quilhães.

Era capaz de jurar que 99% dos portugueses diz “refrões” e não “refrãos” ou “refrães”. Não será isto motivo mais do que suficiente para garantir a este plural legitimidade linguística?

Realmente, e pensando na qualidade de nortense de cujo sotaque me orgulho e faço por perservar, o som “ães” e “ões” é extremamente parecido quando dito na terminação de uma palavra, sendo o primeiro mais difícil de dizer que o segundo. Não terá o plural “refrões” evoluído fonicamente do original “ães”. Seria uma justificação mais do que plausível, sendo se calhar até provável! Realmente, quanto mais penso nessa possibilidade mais ela se me afigura como certeza – algo que, evidentemente, não estou em condições de provar.

Admitindo que possa ser esse o caso, pergunto: As metamorfoses fonéticas, não fazem elas próprias parte da evolução de uma língua? Realmente, não o serão mais legitimamente do que ideias políticas e comerciais de unificação de idiomas semelhantes (mas diferentes!) que atropelam a riqueza única de cada uma dessas variantes linguísticas e das culturas que representam?

Mas afinal a Língua é refém da Gramática, ou será esta última uma tentativa (sempre incompleta e atrasada) de formalizar, de um ponto de vista analítico, a primeira? É que, meus amigos, a Lingua é aquilo que as pessoas usam para comunicar e não aquilo que 4 “entendidos” decidem pôr num compêndio de regras e menos ainda o que 2 vigaristas decidem cagar em forma de lei debaixo do título de “acordo ortográfico” (acordo entre quem? e quem não está de acordo?).

A Lingua é uma coisa viva, dinâmica, cheia de regionalismos e sotaques. O “Pape-sêque” de uns é o “pom” de outros, e quer num caso quer no outro, muitos refrões (sim, escrevi bem) foram e hão-de ser escritos.

Os linguístas que façam o favor de acompanhar, com reverência, a lingua falada em vez de a estrangularem com as suas regras apertadas. É o que fazem no Reino Unido, onde vivo. Todos os anos novos termos são adicionados ao Oxford English Dictionary, que tem como entradas recentes palavras como “lol“, “google“, e expressões tornadas comuns na sequência de eventos marcantes. Significa isto que a linguística está ao serviço da língua falada e não o contrário.

Dito isto, não pretendo que a ignorância de sobreponha ao saber, e fico, de facto, mais rico ao aprender que o plural de refrão, nos livros dos linguistas, é refrães. Mas se não o é no meu círculo de amigos feito de fotógrafos e engenheiros, guitarristas e médicos, contabilistas e professores, de gente dos 10 aos 80, a frequentar a quarta classe ou a acabar o seu pós-doutoramento, porque hei-de adoptá-lo?

Os linguístas não podem ser ditadores da língua que se fala. O povo não pode permitir tal coisa, porque com a prisão da língua vem a prisão das ideias e, com esta, a morte dos sonhos. Libertem-se e imortalizem os vossos ideais em refrões que todos possamos cantar!

E a terminar, deixo-vos com um comentário de um amigo meu, em resposta a uma terceira pessoa que de nós se despedia para ir a uma aula de línguas: “Ai sim? Eu também tirei um curso de línguas, mas foi no Clube 84“. Clássico!

Hoje, enquanto eu discutia o sexo dos anjos com uma equipa de doutorados de Cambridge numa aquecida sala da City of London, um debate bem mais quente acontecia no meio do frio da cidade. Em causa estava, aparentemente, o triplicar das propinas das Universidades. Na realidade, o que estava em causa era mais um exemplo da prepotência e da falta de seriedade política, o agravamento (desejável para quem está no poleiro) da sociedade de classes com fossos cada vez mais acentuados entre cada um dos seus estratos, o abuso de poder, a hipocrisia.

É o argumento de que as proprinas precisam de subir como consequência da crise enquanto se perdoam 4.5 mil milhões de libras de impostos à Vodafone. É o aumento das propinas debaixo do argumento da crise enquanto o próprio ministro das finanças tira partido de uma insuficiência legal (seguramente planeada) para fugir a uma conta de impostos que ascende a milhões de libras e pedir aos tesos que apertem o cinto, concretamente à custa da sua educação.

É a imposição de uma dívida não solicitada aos jovens que, assim, começam as suas vidas algemados pela banca, via Estado (o mesmo estado que subsidia a irresponsabilidade da banca gananciosa que criou esta mesma crise!!!).

E é fazer tudo isto depois de ter formado governo depois da promessa de que reduziria (em vez de triplicar) estas mesmas propinas, como foi o caso dos Liberais Democratas.

É a cara de pau de dizer ao eleitorado: “nós prometemos o que vocês quiserem para ganhar o vosso voto, para depois vos fodermos na posição que mais prazer e conveniência nos trouxer.”

E, acima de tudo, é fazê-lo a uma geração que se guia por valores diferentes: mais informada, mais social, mais preocupada com a sua realidade e com o futuro do planeta e, consequentemente, mais descrente na classe política que actualmente protege os interesses de muito poucos à custa do sacrifício de imensos muitos.

Quando a violência das classes políticas, aqui resumida a este episódio mas realmente abrangendo todos os domínios da vida pública – da finança à sustentabilidade do planeta, da pseudo-liberdade de imprensa (wikileaks, anybody?) à corrupção, chega a estes extremos porque razão deverão as massas oprimidas retribuir pacificamente?

Em Inglaterra, o pessoal não deixa a coisa em banho maria. Trá-la a ponto de ebulição assim que sentem a água a aquecer, e assim deve ser – cada um à sua maneira. Deixo aqui o meu cumprimento sentido a quem se afirma contra aquilo com o qual discorda.

Porque não atacar servidores de empresas que protegem o terrorismo de estado? Porque não partir vidros nas sedes de partidos políticos e, se possivel, também a cara a alguns dos seus representantes?

E quanto ao argumento “politicamente correcto” de que os protestos se fazem com cravos e ramos de alfazema,os demagogos utilizam esse argumento como forma de ganharem credibilidade através da descredibilização dos protestantes. Quem está na mó de baixo, não tem mais alternativas: é que a do voto agora já vem tarde e, acima de tudo, aparenta ter sido um fiasco da última vez que foi experimentado (há 3 ou 4 meses atrás)!!!!!

A revolução é precisa e não se faz só com uma mão. E em Portugal, quando começará?

Um dos riscos do negócio da música em Portugal é o de uma banda dos tempos de hoje se sentir arrastada numa viagem no tempo, infelizmente sempre para o passado de há pelo menos 30 anos, para se ver no meio de situações que são na melhor das hipóteses caricatas e na pior indiciadoras de todas as formas de corrupção, vigarice e falta de profissionalismo de que tão frequentemente é acusado o país de Almeida Garrett.

Ao vivo no memorável concerto da Serra do Pilar, Gaia, Agosto de 2010. Foto de Alberto Almeida.

Recentemente os Trabalhadores do Comércio tiveram uma dessas viagens, ao Sabugal – o tal sítio em cujo magnifico castelo um concerto de música erudita foi arruaceiramente interrompido pelas vuvzelas do Senhor Presidente da Junta e seus capangas, perante o olhar impávido da GNR.

Se a nós não nos correram com vuvuzelas, trataram-nos com um role de incumprimentos contratuais e uma falta de profissionalismo por parte do grunho que forneceu o PA (nome impróprio para os caixotes merdosos que lá pôs, desrespeitando o rider técnico que é parte integrante do contracto) que pôs em causa não só a realização do concerto (por falta de condições técnicas) como a nossa convicção de que estavamos do lado de cá do 25 de Abril de 1974.

Depois de alguma ponderação nossa, o concerto realizou-se e a banda tocou competentemente (como sempre), tendo saído satisfeita do concerto no que toca à música tocada mas, infelizmente, a fumegar de espanto com as circunstâncias em que tudo se realizara.

Quando, dias antes, a banda se tinha comprometido a pagar 200 Euros extra pelo fornecimento de uma mesa de mistura para som de palco (porque a inicialmente fornecida não respeitava o rider!), não imaginou as condições do demais material e achou-se no direito de questionar esse pagamento no final do concerto (sem, nessa altura, se estar a recusar fazê-lo).  Nesse momento, gente associada ao homem do PA e à Organização (por laços de família e amizade pelo menos) adoptaram atitudes agressivas que nos transportaram para a Foz Coa de há milhares de anos, não geograficamente mas seguramente de um ponto de vista de desenvolvimento humano. Como é evidente, não respondemos na mesma moeda, mas concluímos nesse momento o que fazer às 200 moedas em discussão.

O agente local que contratou os Trabalhadores, homem respeitado em terras beirãs pelas suas ligações e trabalho documental referente à História do Rock em Portugal, é jornalista assim como amigo pessoal dos promotores e do homem do PA, tendo escrito depois deste episódio num jornal regional, e a despropósito, que o concerto dos Trabalhadores do Comércio tinha muito mau, não explicando (como deveria ter feito) a sua mais do que legítima opinião. Julgando-nos no direito de resposta, deixei o comentário que aqui inclúo na dita publicação, tendo recebido hoje a notícia de que não seria publicado por conter referências pessoais ao autor da peça (o que não é verdade – são todas profissionais!).

À liberdade que um jornalista tem para escrever o que lhe dá na telha, não têm os alvos desses textos a mesma liberdade de responder na mesma publicação? Está visto que, naquele que parece ser o Far West português a liberdade é mesmo muito relativa.

Mas a democratização que a Internet trouxe permite-nos esclarecer estas histórias e tornar igualmente públicos os nossos pontos de vista. É que, como dizia o também tripeiro Almeida Garret,

Se na nossa cidade há muito quem troque o V pelo B, há muito pouco quem troque a  liberdade pela servidão.

—- A minha resposta ao artigo publicado na Capeia Raiana —-

Não querendo comentar questões financeiras que só ao Sabugal dirão respeito, sinto-me no direito de, na qualidade de membro da banda Trabalhadores do Comércio, comentar a breve referência feita ao concerto do referido grupo. Ao que parece, o concerto dos Trabalhadores “não atingiu as mais legítimas expectativas”. E quais seriam essas, pergunto eu?

Quem foi ao concerto para ouvir uma banda energética, com excelente produção e execução musical, inovação lírica e variedade artísitca, saiu do concerto seguramente de barriga muito cheia – podendo juntar-se aos restantes 15 mil que em três concertos semelhantes nos últimos 2 meses nos demonstraram o seu agrado, como é exemplo o seguinte tema gravado em Vila Nova de Gaia, 5 dias após o nosso concerto no Sabugal –http://www.youtube.com/watch?v=VBpUKagbCT8.

Se as “mais legítimas expectativas” andavam à volta de ver a velha banda de antigamente a tocar as velhas músicas de antigamente, talvez mesmo comigo em formato anãozinho e com os pulmões bem cheios de hélio para poder replicar a voz que tinha há 30 anos e assim transportar os mais nostálgicos apreciadores de música e coleccionadores de histórias de transantanho para épocas de maiores alegrias, então essas expectativas não só não seriam legítimas – porque cabe SEMPRE ao artista o direito (ou até dever) de continuar a criar e promover as suas novas criações, ponto em que insistimos e de que muito nos orgulhamos – como poderiam mesmo ser preocupantemente destituidas de raciocínio lógico.

Assente a questão das expectativas, o autor da peça – a quem não reconheço competência técnica para opinar sobre música tocada – considerou o concerto como “mau”. Mau, em que sentido?

Foi mal tocado? Não, pelo contrário, foi muito bem executado (ao nível do link anterior, referente a Vila Nova de Gaia) apesar das miseráveis condições técnicas do PA que nos foi fornecido no Sabugal, e que levaram a banda a considerar cancelar o concerto – o que não fez por respeito ao público e ao promotor.

Foi de pouco profissionalismo? Estaria a banda inebriada (de todo) em palco? Um categórico não é a resposta, neste caso, como em qualquer outro concerto. Os Trabalhadores do Comércio orgulham-se de um enorme sentido de responsabilidade e profissionalismo, até porque a sofisticação musical que levam para o palco não é compatível com qualquer outra coisa que não seja a sobriedade, ensaios regulares, e prática regular dos respectivos instrumentos e estudo associado.

Serão as novas canções de “má qualidade”? Bom, poderá ser essa legítima opinião do autor, como legítima será a minha de contrapor a falta de sensibilidade musical e conhecimento técnico do autor da peça para chegar a tal conclusão. É que, comentar a “qualidade de uma composição” pressupõe um conhecimento técnico mínimo sobre a arte da composição, do arranjo, de produção musical que, conforme referi anteriormente, não reconheço ao autor desta peça (nem aos autores da maior parte das peças que se escrevem sobre música em Portugal, infelizmente).

Não terá o autor gostado da música que ouviu (pelo menos até que os temas que mais tem presentes e que constam da sua vasta colecção de música portuguesa do passado século começaram a ser tocados)? Essa sim, é uma opinião absolutamente legítima e que não precisa de argumentos. Quem não gosta, não gosta e acabou. Mas teria de ter explicado no texto que o concerto teria sido “mau” porque os Trabalhadores não tocaram as músicas que ele gosta.

Mas resumir um evento de mais de 90 minutos a um parágrafo onde se o classifica como mau sem mais argumentos, representa, na minha opinião, irresponsabilidade jornalística (afinal, ao jornalista cabe expor argumentos e descrever de forma relevante para o leitor aquilo a que assistiu – se foi mau, há que explicar porquê) e uma maneira pouco criativa para esconder uma clara incapacidade para perceber o espectáculo que os trabalhadores do comércio têm levado com imenso sucesso a muitos milhares de pessoas nos últimos meses, por vezes em locais emblemáticos como é o caso da Casa da Música no Porto, acrescida de uma maior incapacidade para substanciar com argumentos de relevo a opinião que publica.

Se, claramente, o artigo não é sobre os Trabalhadores do Comércio, a referência que a eles é feita carece gravemente de rigor jornalístico e musical. O artigo, porém, confirma que há diferenças claras entre jornalistas, críticos de música, musicólogos, músicos, historiadores de arte, coleccionadores de factos sobre uma qualquer matéria, e contabilistas – querendo parecer-me que o autor da peça se inclui mais facilmente nos 2 últimos grupos do que em qualquer um dos restantes.

Cumprimentos

João Médicis