Archive for the ‘Jornalismo’ Category

Ora, ora, ora!!! Estava aqui eu tão sossegado a pensar na didáctica da música, e tinham de me desassossegar. E logo as “autoridades”!

Lembro-me , há muitos anos, numa altura em que dois crápulas levavam o destino do país (o Silva das Vacas como Primeiro e o seu leal parceiro no crime, o implacável Dias Loureiro, como Ministro da Administração Interna), que a polícia descarregou fortemente sobre estudantes universitários que protestavam pacificamente contra o aumento das propinas.

Ora hoje, debaixo da tutela do mesmo Silva das Vacas, novas imagens nos chegam, desta vez com ênfase na agressão a jornalistas, armados apenas com a força do alcance das suas palavras e imagens.

Não é novo. Já o vi nos anos 90. E os meus pais antes disso. Mas são precisamente essas semelhanças que levantam suspeitas e emprestam credibilidade ao argumento de que Portugal não é, hoje em dia, um país democrático, estando antes debaixo de uma ditadura que revela muitas das suas suas horríveis facetas ao virar de cada esquina, literalmente.

Da agressão a jornalistas que querem contar o que alguns não querem que se ouça, à morte desamparada de idosos com a ajuda da mão ensanguentada do estado, passando pela redução de salários e pela deliberada asfixia cultural, assistimos diariamente à violentação permanente de um povo demasiado pacato para merecer tais abusos ou para os resolver com mão de ferro.

Sabemos até que aqui, como em Espanha e noutros sítios, é polícia à paesana que provoca os incidentes cujas responsabilidades são depois atribuídas à população. Na minha terra, gente de escrita e fala escorreitas classificaria tais actos como uma filha-da-putice sem nome, isto para usar terminologia técnica rigorosa.

O nosso sistema límbico, estrutura a respeitar uma vez que garante muito da nossa sobrevivência, sugeriria certamente a execução sumária de duas mãos cheias de proxenetas da nação e do mundo, regada com outras tantas de cocktails molotof em locais relevantes frequentados por essa corja de criminosos. Todos, ou quase, o sentimos nas tripas como uma solução exemplar para o problema. Infelizmente por um lado, e felizmente por outro, não somos como outros povos e por isso não fazemos uso dessas tácticas. Isso obriga-nos a viver no meio da merda ou a elevar o nível para a afogar de vez. Proponho a segunda via, até porque não sou adepto de soluções violentas. Mas como?

Portugal, como o resto do mundo, está na mão de assassinos sanguinários vestidos de Armani e Prada (excepção feita ao pessoal do Vaticano que, sendo insuperáveis assassinos sanguinários, não têm um gosto tão refinado em questões de moda, até por razões protocolares). O poder a que todos eles estão agarrados está assente numa mistura explosiva de duas coisas:

  1. A venda de um sonho, um ideal, algo que todos reconheçam como A Salvação, venha ela na forma de Deus ou de um Ferrari F40,
  2. Num esquema de escravatura emocional (e não só) que por um lado impeça a concretização do sonho e por outro o re-alimente, tornando-o mais intenso e merecedor de esforços ainda mais brutais para que possa ser alcançado. Assim, tudo pode ser visto como um esforço que “vale a pena” (curioso, o significado literal desta expressão).

Este é o paradigma em que vivemos, e não será de um dia para o outro que o vamos mudar. Digo-o porque os poderes a derrotar não são coisa miúda. A solução passará seguramente por um acordar de consciências que esse mesmo poder inebria com ignorância, medo, castração de liberdades e uma instrução escolar que nos vende a ideia de que a Sociedade precisa de ser como é (verdade que só se aplica aos que dela abusam e tiram partido ilegítimo).

Num artigo de leitura obrigatória (em inglês) e que talvez um dia eu acabe a traduzir, Marco Torres, um perito em Saúde Pública e Ciência Ambiental, advoga que nas escolas (organizações geridas pela mesma corja de bandidos que nos tem como reféns do feitiço descrito acima) “as crianças são psicologicamente condicionadas para falhar e perder a esperança. Medo de falhar leva à inacção e ao desespero. É um ciclo vicioso. Quando as crianças não têm esperança, têm medo de falhar. Se têm medo de falhar nunca actuarão. Depois, pegam nesta fórmula e aplicam-na em todas as instâncias das suas vidas.”

Mmmm….. Estará aqui a resposta para os tais brandos costumes nacionais? A mítica falta de acção do Zé Povinho?

Aqui em Inglaterra, os problemas são semelhantes, embora com diferentes especificidades. Mas a solução que encontrei assenta em desligar os meus filhos do sistema, à boa maneira do Matrix, e procurar incutir-lhes ideais diferentes. Não foi um acto de heroísmo, apenas de bom senso. Antes de nós outros houve que o fizeram e nos inspiraram a dar o salto, em relação ao qual estamos cada vez mais felizes. Depois de nós, oxalá mais apareçam, mantendo as tendências de crescimento que se têm verificado no homeschooling.

Talvez, ao atingir-se uma certa massa crítica de almas livres e independentes, o actual sistema acabe por ruir pelas bases, por não ter mais escravos emocionais (e da finança) a alimentar as sanguessugas que se agarram às veias do poder. Nesse dia, admitindo que ainda restará planeta, violências como as que assistimos hoje (e ontem e amanhã) não acontecerão, porque uma Humanidade livre de espírito não temerá a liberdade de expressão, nem a diferença de opinião, nem a realização pessoal, nem a partilha de riquezas e recursos. Até lá, seguimos em frente, em busca do salto civilizacional de que tanto precisamos. Experimentem começá-lo em casa. Os filhos dos vossos filhos hão-de agradecer-vos.

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Ora com tanta coisa para fazer, tinha logo de aparecer uma dessas coisas das “regras” para me desencaminhar e me trazer para o Blog. Mais uma vez, passaram-se meses sem aqui escrever, por falta de tempo, mais do que qualquer outra coisa. Desta vez, o assunto é línguas.

Hoje li no Facebook, em vários perfis, a estupefacção de muitas pessoas, a juntar à minha própria, ao aprenderem o “verdadeiro” plural de “refrão”.

Não estou sequer preparado para admitir que afinal as minhas canções têm refrães, porque não têm. Foram escritas, como muitas outras, de muitos compositores, com refrões com um O bem redondo.

Claro que não está aqui em causa debater a magnifica sapiência dos linguístas que nos chamam a atenção para estas coisas, mas antes chamar a atenção para a sua função, que parece ter um caracter um tanto ao quanto dictatorial em Portugal.

Depressa se apressaram os amigos dos meus amigos, qualquer deles mais cultos do que eu, pelo menos em matéria linguística, a explicar que a regra depende do som da sílaba átona, e que daí se escolhe se de “ão”  se passa a “ãos”, “ões” ou “ães”.

Como alguém dizia nessas discussões, isto é pior que levar um xuto nos quilhães.

Era capaz de jurar que 99% dos portugueses diz “refrões” e não “refrãos” ou “refrães”. Não será isto motivo mais do que suficiente para garantir a este plural legitimidade linguística?

Realmente, e pensando na qualidade de nortense de cujo sotaque me orgulho e faço por perservar, o som “ães” e “ões” é extremamente parecido quando dito na terminação de uma palavra, sendo o primeiro mais difícil de dizer que o segundo. Não terá o plural “refrões” evoluído fonicamente do original “ães”. Seria uma justificação mais do que plausível, sendo se calhar até provável! Realmente, quanto mais penso nessa possibilidade mais ela se me afigura como certeza – algo que, evidentemente, não estou em condições de provar.

Admitindo que possa ser esse o caso, pergunto: As metamorfoses fonéticas, não fazem elas próprias parte da evolução de uma língua? Realmente, não o serão mais legitimamente do que ideias políticas e comerciais de unificação de idiomas semelhantes (mas diferentes!) que atropelam a riqueza única de cada uma dessas variantes linguísticas e das culturas que representam?

Mas afinal a Língua é refém da Gramática, ou será esta última uma tentativa (sempre incompleta e atrasada) de formalizar, de um ponto de vista analítico, a primeira? É que, meus amigos, a Lingua é aquilo que as pessoas usam para comunicar e não aquilo que 4 “entendidos” decidem pôr num compêndio de regras e menos ainda o que 2 vigaristas decidem cagar em forma de lei debaixo do título de “acordo ortográfico” (acordo entre quem? e quem não está de acordo?).

A Lingua é uma coisa viva, dinâmica, cheia de regionalismos e sotaques. O “Pape-sêque” de uns é o “pom” de outros, e quer num caso quer no outro, muitos refrões (sim, escrevi bem) foram e hão-de ser escritos.

Os linguístas que façam o favor de acompanhar, com reverência, a lingua falada em vez de a estrangularem com as suas regras apertadas. É o que fazem no Reino Unido, onde vivo. Todos os anos novos termos são adicionados ao Oxford English Dictionary, que tem como entradas recentes palavras como “lol“, “google“, e expressões tornadas comuns na sequência de eventos marcantes. Significa isto que a linguística está ao serviço da língua falada e não o contrário.

Dito isto, não pretendo que a ignorância de sobreponha ao saber, e fico, de facto, mais rico ao aprender que o plural de refrão, nos livros dos linguistas, é refrães. Mas se não o é no meu círculo de amigos feito de fotógrafos e engenheiros, guitarristas e médicos, contabilistas e professores, de gente dos 10 aos 80, a frequentar a quarta classe ou a acabar o seu pós-doutoramento, porque hei-de adoptá-lo?

Os linguístas não podem ser ditadores da língua que se fala. O povo não pode permitir tal coisa, porque com a prisão da língua vem a prisão das ideias e, com esta, a morte dos sonhos. Libertem-se e imortalizem os vossos ideais em refrões que todos possamos cantar!

E a terminar, deixo-vos com um comentário de um amigo meu, em resposta a uma terceira pessoa que de nós se despedia para ir a uma aula de línguas: “Ai sim? Eu também tirei um curso de línguas, mas foi no Clube 84“. Clássico!

Foi-se, pelo menos para já, um dos maiores perigos que Portugal conheceu, depois de aceite a sua demissão por parte de outro dos grandes perigos com o qual o país gosta, aparentemente, de conviver. Enquanto isso, os abutres políticos tiram as medidas ao moribundo, pensando nas mil e uma formas de tirarem partido da bonança com que vêm sonhando há meses.

Mas qual é o nome do jogo? Claramente trata-se de usar o estatuto político para proveito pessoal, sustentado em todo o tipo de mecanismos legais que os próprios desenvolvem – como o caso da imunidade parlamentar – para legitimar todo o tipo de atropelos. O País é só o meio para um fim.

O actual presidente da república (minúsculas criteriosamente escolhidas) participou activamente em tais orgias, o que só ajuda a definir o seu carácter, sendo notável que o país tenha escolhido colocá-lo em Belém em vez de em Caxias (bem sei que só 23% optaram por tal, mas isso parece ter chegado).

Entretanto, sobre o provavelmente futuro ex primeiro ministro já muito se escreveu sem que a vias de facto se chegasse, perdendo com isso o país a oportunidade de proporcionar aos dois galos actualmente no poleiro um “flat share” em Custoias.

E em tempo de austeridade surgem agora exemplos escandalosos de dispêndio que, mais do que esbanjador é, quase seguramente, criminosamente planeado.

A imagem à direita (com link para o video de onde foi tirada) mostra como o Estado pagou 85 mil Euros por 5 dias de trabalho de re-styling the um website. É uma das minha áreas profissionais e posso garantir-vos que é uma absoluta exorbitância, impossível de explicar (sem correr o risco de prisão) num mercado altamente competitivo e com muitos fornecedores de enorme qualidade, mesmo considerando a possibilidade de trabalho de equipa e, por isso, de um esforço maior do que a duração apresentada.

Não me parece que com a eventual substituição de Socrates por um qualquer outro mamão dos que se apresentam na corrida se resolva o problema. Mas venha quem vier, com que matéria prima terá de reconstruir o país? Numa clara demonstração da ineptitude da governação portuguesa dos últimos anos, o Wall Street Journal relembra-nos que apenas 25% da população portuguesa entre os 25 e 64 anos acabou o ensino secundário, contra 85% da Alemã e 91% da Checa.

Se até o trabalho qualificado é hoje automatizado ou comprado às economias emergentes do BRIC, o Portugal inculto e tecnicamente incapaz está condenado à segunda liga da Europa, se não for antes disso empurrado para a terceira do Mundo.

E como em terra de cegos quem tem um olho é rei, é natural que venham a agravar-se as assimetrias sociais, fazendo com que cada vez menos tenham cada vez mais do pouco que resta.

Isto cria oportunidades para o aumento da criminalidade, não só da parte de quem precisa de comer como por parte de alguns daqueles que querem mater a sua condição privilegiada, abrindo mais caminhos para o crime de colarinho branco descrito acima.

Outros, cansados da situação nacional e mais bem equipados para competir, abandonam o país para, por um lado, satisfazerem as suas necessidades financeiras e culturais e, por outro e por consequência, afundarem o país ainda mais no seu buraco (do país, leia-se!).

Assim, e desprovidos dos recursos necessários para tomarem a iniciativa de mudança, por clara falta de skills e cultura, fica o povo português condenado à execução do Estado (e de que Estado!!!) e exposto aos riscos consequentes. Como diz a nossa sabedoria popular, muito atura quem precisa.

Há tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo na minha vida que tem havido pouco tempo para merditar. E não é que não falte assunto no mundo para o fazer, como por exemplo o vazio que se vê em Portugal.

Há dias, uns tipos bem formados e divertidos de Lisboa convenceram o Zé Povinho, e ainda bem, a ter uma opinião diferente de toda uma corja de maestros, doutores e engenheiros que constituíam o júri do festival da canção (e notem que fizeram questão de apresentar todos os títulos e certidões para emprestar, à boa moda nacional, um pouco credibilidade ao evento). Serviu a música uma das suas principais funções, a da crítica e contestação social, para bem da nação. Ficou a Silvia Alberto com um sorriso amarelo a apressar o fim do programa e imagino que a troupe do Zé do Ballet, que oleou tantas ondas hertzianas em Portugal, ficou com o Échappé a meio pau em surpresa.

Dias depois, 300 mil marmelos vieram para a rua lembrar que muita coisa (tudo?) vai mal. E ainda bem que o fizeram. Mas, e as reacções? Onde estão? Porquê o vazio subsequente?

Manifestação Geração à Rasca no Porto - Foto do jornal espanhol El Pais

A mim parece-me que quando uma cidade com 200.000 habitantes consegue uma manifestação com 80.000 pessoas (40% de adesão) alguém tem de tomar nota e investigar com profundidade.

Se quisermos pensar em termos do Grande Porto, o maior aglomerado urbano do noroeste peninsular, estaremos a falar de 6% de adesão, o que em si mesmo é excelente, em especial se considerarmos que nesse caso poderão ter havido deslocações de 40 Kilómetros para participar, para o que é precisa muita motivação – sinal de que a causa é premente.

A real adesão deverá andar entre um número e outro. Admitamos que são 10%. Seria o equivalente a uma manifestação em Londres com uma mobilização de cerca 1 milhão de pessoas! É gente pra caraças e seguramente daria para muitas páginas de jornal.

Então e onde estão as reacções da nossa classe política, alvo da manifestação? Bom já sabemos que o Golfe  vai passar a ter IVA de 6%, o que seguramente ajudará toda a gente, desde os desempregados de longa duração às vítimas de radioactividade no Japão. Mas ninguém pede explicações aos atrasados mentais que levam os destinos do país?

Que é feito dos jornalistas? Que função, para além da propaganda do aparelho governativo, desempenham os media? Uma pesquisa no Público online nas secções de Sociedade e Política, mostra zero noticias pós-evento que reflictam a opinião de Políticos de relevo (Socrates e Cavaco). E mostra ZERO de indignação com esse vazio. No Facebook, vi artigos em jornais estrangeiros mas poucos ou nenhuns dos media nacionais, e ZERO com reacções das personalidades políticas mais relevantes.

E quando a RTP tem de noticiar a descida do IVA do Golfe, usam imagens da Volkswagen!!! Mas que jornalismo é este? Quem revê o que se emite? Será que a falta de zelo em Portugal é tal que nem o público do canal público português merece respeito por parte dos profissionais cujos salários são pagos por esse mesmo público?

Este vazio demonstra que os media, concentrados na capital do lobby, tocam a música do maestro e não a que o público precisa de ouvir. E fazem-no sem sequer pensar. Como o fazem os governantes que caem no ridículo máximo ao anunciar políticas vazias de conteúdo e impacto dias depois de uma manifestação com a dimensão que se viu.

Fica também a sensação de que, esvaziada a bexiga, os manifestantes recarregaram as pilhas para mais uns anos de travessia do deserto, e que por isso não forçam os media a pedir comentários à classe política e, em caso de pouco sucesso nessa intenção, os fazem escrever sobre o escândalo político subjacente a esse insucesso. Os nossos bons costumes já não o são – são derrotismo. É a vida. É o fado.

Fico assim com a ideia de que Portugal está mergulhado num vazio máximo de visão, política, media e valores. Está nas mãos de um grupo de gente ignorante por um lado, espertinha por outro, com uma ambição de poder ilimitada a que se contrapõe uma total incapacidade de inspirar uma nação a ser melhor.

E a vocês que estão mais perto, que vos parece?

O verdadeiro Artista

Posted: Janeiro 6, 2011 in cultura, Jornalismo

Alguns dos meus companheiros músicos têm falado e escrito acerca da forma como os actuais DJs de rádio e playlisters (nas grandes) parecem comportar-se como se fossem eles os verdadeiros artistas, a quem bandas, compositores e intérpretes têm de prestar vassalagem. Eu próprio conheço de perto uma realidade desse género, demasiado próxima deste caso concreto para o meu gosto.

Venho apenas comunicar aos interessados que tal estatuto de artista foi formalizado, conforme se pode ver neste cartaz. Para já pelo menos, ainda deixam os músicos aparecer no convite juntamente com o “artista convidado”. Em que tipo de arte se especializará?

Um amigo meu, proeminente escritor sobre música, em tempos (talvez até presentemente) director de programas de uma rádio regional , homem na casa dos 40 anos,  é um dos muitos indignados com o tratamento que revistas como a Blitz ofereceram a efemérides como os 50 anos da edição do primeiro disco do Rock Português, ou a recente homenagem da Sociedade Portuguesa de Autores a 50 nomes do rock português, em cuja lista tenho a honra de ter sido incluído pelo meu trabalho com os Trabalhadores do Comércio.

Tendo manifestado o seu espanto online em vários sites, ficou ainda mais perplexo com a defesa generalizada que foi prestada à Blitz. Conhecendo o meu relacionamento com a crítica, pediu-me uma opinião, que aqui deixo transcrita. Agradeço também a vossa opinião.

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Caro X, Escrevo-te à medida que estruturo o meu pensamento para te dar uma resposta. Estou interessado em saber o que pensas dela. (perdoa-me as falhas ortográficas – uma luta dos tempos de primária válida ainda hoje, a que não ajuda a ausência de um corrector ortográfico português neste computador inglês. A rebeldia contra o novo acordo ortográfico, essa sim, é intencional e continurá até à minha morte!)

Eu tive o meu choque anafilático com o jornalismo musical português aquando do lançamento do Iblussom, a que não é alheio ser o primeiro disco meu no qual tenho uma influência consciente e determinada (na opinião de alguns, determinante) no processo de composição, arranjo e produção.

Talvez por isso, levei a peito muitas das opiniões proferidas, as boas e as más, e sobre isso tive oportunidade de falar contigo e de inclusivamente gastar horas minhas a dispensar tintal digital no blog dos Trabalhadores e em outros meios. Uma espécie de exorcismo pessoal útil mas de pouca ou nenhuma relevância de massas.

A distância do tempo cria um afastamento emocional que me permite agora analisar as coisas em termos talvez um pouco mais isentos, embora a essência das minhas opiniões não tenha mudado e seja, indiscutivelmente, influenciada pela minha posição de “alvo da crítica” (sem sentido pejorativo).

Antes de mais convém perceber que Portugal é um país culturalmente pobre. Muito mais pobre nesse domínio do que no financeiro, tecnológico ou industrial. Isso é consequência de não serem ensinados nas escolas portuguesas conceitos fundamentais de estética, de expressão cultural e intelectual, da importância das artes na sociologia dos países, (em sentido inverso) dos contextos sociais e económicos que suportam essas formas de expressão, etc.

A minha filha de 11 anos, por exemplo, tem andado a estudar música e arte gráfica dos anos 60, 70 e 80. Quem eram os Beatles, o Andy Warhol, o Roy Lichtenstein e o Freddy Mercury? Qual o significado do seu output no tempo em que ocorreu? Porque durará o seu output até aos dias de hoje? Qual a realidade económico social daquele tempo e de que maneira influenciou estes artistas? Que técnicas usavam e a que “escola” pertenciam? Fá-lo integradamente nas disciplinas de Humanidades, Inglês, Educação Visual e Música! E já agora, no grupo coral a que pertence, canta Lennon, Guns and Roses, Journey, Stones e Crowded House para audiências escolares que variam entre dezenas e um par de milhar de pessoas. Isto dá-lhes referências e sentido estético próprio e integrado! Faz isto numa escola pública que me custa ZERO por mês.

O povo português não tem, no sentido lato, nem este desenvolvimento nem referências que permitam ao comum dos mortais apreciar criticamente uma forma de arte. Quando assim é, procuram-se essas referências junto de outrém – os amigos e os “opinion makers” passam a ser fundamentais por serem, de facto, a base da sua opinião acerca do seu consumo artístico pessoal.

No caso da música, o Blitz tornou-se a principal fonte de critica especializada, especialmente depois da morte do Se7e, do Musicalíssimo e da Música&Som (e possivelmente de outros anteriores tão ou mais relevantes, mas que desconheço por serem anteriores a 72).

Desgastar fontes de referência como o Blitz equivale a retirar o tapete intelectual e emocional de cada leitor dessa revista no que respeita ao seu consumo artístico pessoal. Isso acaba por ser uma forma de ataque pessoal impossível de suportar e que merece a mais acérrima das defesas! “Não digam mal do jornal X porque ele determina em grande medida quem EU sou” (opinião inconsciente, o que a torna ainda mais forte e dogmática!).

Curiosamente, muitos críticos sofrem eles próprios destes males, procurando referências noutros sítios, concretamente nas revistas ditas “cool” vindas dos EUA e do Reino Unido. Com isso descontextualizam  a produção artística versada e amplificam a grandeza de um artista Inglês ou Americano num contexto social onde outros (nacionais) merecem muito mais destaque!

A falta de preparação cultural e a dependência dos próprios críticos (de alguns pelo menos) nos seus pares internacionais tornam-nos incapazes de perceber o produto artístico português sobre o qual lhes pedem análise ocasional. Porquê? Porque eles próprios não têm essas referências – daí que não se importem com os 50 anos da música portuguesa, com o Arte&Oficio ou com o Pop 5. E estes não fazem parte das suas referências porque não são ensinados nas nossas escolas.

Os putos de onze anos em Portugal deviam aprender nas suas disciplinas de musica, história, e português acerca do Zeca, do Ary, dos A&O, Pentágono, GNR, Sérgio Godinho, etc e dos contextos economico sociais em que apareceram! O sistema de educação não está para isso e assim se perdem as referências que depois se procuram “lá fora”.

Trazendo esta análise para o meu caso pessoal: Os Trabalhadores do Comércio estão inseridos na 3a região mais pobre da Europa, no país mais centralista da Europa, sofrendo na pele (quer a título pessoal quer no seu círculo social) os dramas dessa realidade. O nosso próximo disco é quase exclusivamente sobre estas coisas, não por estratégia comercial, mas por genuína e mais do que compreensível expressão artística.

Achas que os críticos que sobre ele vão escrever vão perceber estas questões ou procurar enteirar-se delas? A simples questão do sotaque à Porto não é vista como uma forma de afirmação cultural mas sim como “uma parolice fora de moda”! Salvo raras excepções, não estou à espera de nenhuma forma de crítica contextualizada e estou preparado para mais um assalto da crítica “cool” e “moderna” àquele que é na minha opinião o nosso melhor disco, talvez por não soar suficientemente a “Tricky” ou a “Radiohead” ou a “U2” ou a “Lady Gaga”. A ver vamos.

Portanto, estou a tentar viver com este tipo de crítica e “opinion makers”, pensando sempre que nos custa uma existência de mais concertos e maior sucesso financeiro o que, curiosamente nos empurra para um estilo cada vez mais genuinamente independente. Talvez assim estes pseudo-indies acabem também a gostar de nós e de outros como nós (a título póstumo, depois de morrermos de fome?) 😉

Quanto aos seus defensores, precisam dessa crítica para terem pensamento e, com isso, existirem (segundo Descartes). Não leves a mal – sorri antes por teres pensamento próprio, referências e base cultural invejáveis em Portugal. E continua a escrever sobre estes tópicos porque Portugal agradece.

Um abraço

João

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E vocês, que têm a dizer de tudo isto?

Um dos riscos do negócio da música em Portugal é o de uma banda dos tempos de hoje se sentir arrastada numa viagem no tempo, infelizmente sempre para o passado de há pelo menos 30 anos, para se ver no meio de situações que são na melhor das hipóteses caricatas e na pior indiciadoras de todas as formas de corrupção, vigarice e falta de profissionalismo de que tão frequentemente é acusado o país de Almeida Garrett.

Ao vivo no memorável concerto da Serra do Pilar, Gaia, Agosto de 2010. Foto de Alberto Almeida.

Recentemente os Trabalhadores do Comércio tiveram uma dessas viagens, ao Sabugal – o tal sítio em cujo magnifico castelo um concerto de música erudita foi arruaceiramente interrompido pelas vuvzelas do Senhor Presidente da Junta e seus capangas, perante o olhar impávido da GNR.

Se a nós não nos correram com vuvuzelas, trataram-nos com um role de incumprimentos contratuais e uma falta de profissionalismo por parte do grunho que forneceu o PA (nome impróprio para os caixotes merdosos que lá pôs, desrespeitando o rider técnico que é parte integrante do contracto) que pôs em causa não só a realização do concerto (por falta de condições técnicas) como a nossa convicção de que estavamos do lado de cá do 25 de Abril de 1974.

Depois de alguma ponderação nossa, o concerto realizou-se e a banda tocou competentemente (como sempre), tendo saído satisfeita do concerto no que toca à música tocada mas, infelizmente, a fumegar de espanto com as circunstâncias em que tudo se realizara.

Quando, dias antes, a banda se tinha comprometido a pagar 200 Euros extra pelo fornecimento de uma mesa de mistura para som de palco (porque a inicialmente fornecida não respeitava o rider!), não imaginou as condições do demais material e achou-se no direito de questionar esse pagamento no final do concerto (sem, nessa altura, se estar a recusar fazê-lo).  Nesse momento, gente associada ao homem do PA e à Organização (por laços de família e amizade pelo menos) adoptaram atitudes agressivas que nos transportaram para a Foz Coa de há milhares de anos, não geograficamente mas seguramente de um ponto de vista de desenvolvimento humano. Como é evidente, não respondemos na mesma moeda, mas concluímos nesse momento o que fazer às 200 moedas em discussão.

O agente local que contratou os Trabalhadores, homem respeitado em terras beirãs pelas suas ligações e trabalho documental referente à História do Rock em Portugal, é jornalista assim como amigo pessoal dos promotores e do homem do PA, tendo escrito depois deste episódio num jornal regional, e a despropósito, que o concerto dos Trabalhadores do Comércio tinha muito mau, não explicando (como deveria ter feito) a sua mais do que legítima opinião. Julgando-nos no direito de resposta, deixei o comentário que aqui inclúo na dita publicação, tendo recebido hoje a notícia de que não seria publicado por conter referências pessoais ao autor da peça (o que não é verdade – são todas profissionais!).

À liberdade que um jornalista tem para escrever o que lhe dá na telha, não têm os alvos desses textos a mesma liberdade de responder na mesma publicação? Está visto que, naquele que parece ser o Far West português a liberdade é mesmo muito relativa.

Mas a democratização que a Internet trouxe permite-nos esclarecer estas histórias e tornar igualmente públicos os nossos pontos de vista. É que, como dizia o também tripeiro Almeida Garret,

Se na nossa cidade há muito quem troque o V pelo B, há muito pouco quem troque a  liberdade pela servidão.

—- A minha resposta ao artigo publicado na Capeia Raiana —-

Não querendo comentar questões financeiras que só ao Sabugal dirão respeito, sinto-me no direito de, na qualidade de membro da banda Trabalhadores do Comércio, comentar a breve referência feita ao concerto do referido grupo. Ao que parece, o concerto dos Trabalhadores “não atingiu as mais legítimas expectativas”. E quais seriam essas, pergunto eu?

Quem foi ao concerto para ouvir uma banda energética, com excelente produção e execução musical, inovação lírica e variedade artísitca, saiu do concerto seguramente de barriga muito cheia – podendo juntar-se aos restantes 15 mil que em três concertos semelhantes nos últimos 2 meses nos demonstraram o seu agrado, como é exemplo o seguinte tema gravado em Vila Nova de Gaia, 5 dias após o nosso concerto no Sabugal –http://www.youtube.com/watch?v=VBpUKagbCT8.

Se as “mais legítimas expectativas” andavam à volta de ver a velha banda de antigamente a tocar as velhas músicas de antigamente, talvez mesmo comigo em formato anãozinho e com os pulmões bem cheios de hélio para poder replicar a voz que tinha há 30 anos e assim transportar os mais nostálgicos apreciadores de música e coleccionadores de histórias de transantanho para épocas de maiores alegrias, então essas expectativas não só não seriam legítimas – porque cabe SEMPRE ao artista o direito (ou até dever) de continuar a criar e promover as suas novas criações, ponto em que insistimos e de que muito nos orgulhamos – como poderiam mesmo ser preocupantemente destituidas de raciocínio lógico.

Assente a questão das expectativas, o autor da peça – a quem não reconheço competência técnica para opinar sobre música tocada – considerou o concerto como “mau”. Mau, em que sentido?

Foi mal tocado? Não, pelo contrário, foi muito bem executado (ao nível do link anterior, referente a Vila Nova de Gaia) apesar das miseráveis condições técnicas do PA que nos foi fornecido no Sabugal, e que levaram a banda a considerar cancelar o concerto – o que não fez por respeito ao público e ao promotor.

Foi de pouco profissionalismo? Estaria a banda inebriada (de todo) em palco? Um categórico não é a resposta, neste caso, como em qualquer outro concerto. Os Trabalhadores do Comércio orgulham-se de um enorme sentido de responsabilidade e profissionalismo, até porque a sofisticação musical que levam para o palco não é compatível com qualquer outra coisa que não seja a sobriedade, ensaios regulares, e prática regular dos respectivos instrumentos e estudo associado.

Serão as novas canções de “má qualidade”? Bom, poderá ser essa legítima opinião do autor, como legítima será a minha de contrapor a falta de sensibilidade musical e conhecimento técnico do autor da peça para chegar a tal conclusão. É que, comentar a “qualidade de uma composição” pressupõe um conhecimento técnico mínimo sobre a arte da composição, do arranjo, de produção musical que, conforme referi anteriormente, não reconheço ao autor desta peça (nem aos autores da maior parte das peças que se escrevem sobre música em Portugal, infelizmente).

Não terá o autor gostado da música que ouviu (pelo menos até que os temas que mais tem presentes e que constam da sua vasta colecção de música portuguesa do passado século começaram a ser tocados)? Essa sim, é uma opinião absolutamente legítima e que não precisa de argumentos. Quem não gosta, não gosta e acabou. Mas teria de ter explicado no texto que o concerto teria sido “mau” porque os Trabalhadores não tocaram as músicas que ele gosta.

Mas resumir um evento de mais de 90 minutos a um parágrafo onde se o classifica como mau sem mais argumentos, representa, na minha opinião, irresponsabilidade jornalística (afinal, ao jornalista cabe expor argumentos e descrever de forma relevante para o leitor aquilo a que assistiu – se foi mau, há que explicar porquê) e uma maneira pouco criativa para esconder uma clara incapacidade para perceber o espectáculo que os trabalhadores do comércio têm levado com imenso sucesso a muitos milhares de pessoas nos últimos meses, por vezes em locais emblemáticos como é o caso da Casa da Música no Porto, acrescida de uma maior incapacidade para substanciar com argumentos de relevo a opinião que publica.

Se, claramente, o artigo não é sobre os Trabalhadores do Comércio, a referência que a eles é feita carece gravemente de rigor jornalístico e musical. O artigo, porém, confirma que há diferenças claras entre jornalistas, críticos de música, musicólogos, músicos, historiadores de arte, coleccionadores de factos sobre uma qualquer matéria, e contabilistas – querendo parecer-me que o autor da peça se inclui mais facilmente nos 2 últimos grupos do que em qualquer um dos restantes.

Cumprimentos

João Médicis