Archive for the ‘cultura’ Category

Ora, ora, ora!!! Estava aqui eu tão sossegado a pensar na didáctica da música, e tinham de me desassossegar. E logo as “autoridades”!

Lembro-me , há muitos anos, numa altura em que dois crápulas levavam o destino do país (o Silva das Vacas como Primeiro e o seu leal parceiro no crime, o implacável Dias Loureiro, como Ministro da Administração Interna), que a polícia descarregou fortemente sobre estudantes universitários que protestavam pacificamente contra o aumento das propinas.

Ora hoje, debaixo da tutela do mesmo Silva das Vacas, novas imagens nos chegam, desta vez com ênfase na agressão a jornalistas, armados apenas com a força do alcance das suas palavras e imagens.

Não é novo. Já o vi nos anos 90. E os meus pais antes disso. Mas são precisamente essas semelhanças que levantam suspeitas e emprestam credibilidade ao argumento de que Portugal não é, hoje em dia, um país democrático, estando antes debaixo de uma ditadura que revela muitas das suas suas horríveis facetas ao virar de cada esquina, literalmente.

Da agressão a jornalistas que querem contar o que alguns não querem que se ouça, à morte desamparada de idosos com a ajuda da mão ensanguentada do estado, passando pela redução de salários e pela deliberada asfixia cultural, assistimos diariamente à violentação permanente de um povo demasiado pacato para merecer tais abusos ou para os resolver com mão de ferro.

Sabemos até que aqui, como em Espanha e noutros sítios, é polícia à paesana que provoca os incidentes cujas responsabilidades são depois atribuídas à população. Na minha terra, gente de escrita e fala escorreitas classificaria tais actos como uma filha-da-putice sem nome, isto para usar terminologia técnica rigorosa.

O nosso sistema límbico, estrutura a respeitar uma vez que garante muito da nossa sobrevivência, sugeriria certamente a execução sumária de duas mãos cheias de proxenetas da nação e do mundo, regada com outras tantas de cocktails molotof em locais relevantes frequentados por essa corja de criminosos. Todos, ou quase, o sentimos nas tripas como uma solução exemplar para o problema. Infelizmente por um lado, e felizmente por outro, não somos como outros povos e por isso não fazemos uso dessas tácticas. Isso obriga-nos a viver no meio da merda ou a elevar o nível para a afogar de vez. Proponho a segunda via, até porque não sou adepto de soluções violentas. Mas como?

Portugal, como o resto do mundo, está na mão de assassinos sanguinários vestidos de Armani e Prada (excepção feita ao pessoal do Vaticano que, sendo insuperáveis assassinos sanguinários, não têm um gosto tão refinado em questões de moda, até por razões protocolares). O poder a que todos eles estão agarrados está assente numa mistura explosiva de duas coisas:

  1. A venda de um sonho, um ideal, algo que todos reconheçam como A Salvação, venha ela na forma de Deus ou de um Ferrari F40,
  2. Num esquema de escravatura emocional (e não só) que por um lado impeça a concretização do sonho e por outro o re-alimente, tornando-o mais intenso e merecedor de esforços ainda mais brutais para que possa ser alcançado. Assim, tudo pode ser visto como um esforço que “vale a pena” (curioso, o significado literal desta expressão).

Este é o paradigma em que vivemos, e não será de um dia para o outro que o vamos mudar. Digo-o porque os poderes a derrotar não são coisa miúda. A solução passará seguramente por um acordar de consciências que esse mesmo poder inebria com ignorância, medo, castração de liberdades e uma instrução escolar que nos vende a ideia de que a Sociedade precisa de ser como é (verdade que só se aplica aos que dela abusam e tiram partido ilegítimo).

Num artigo de leitura obrigatória (em inglês) e que talvez um dia eu acabe a traduzir, Marco Torres, um perito em Saúde Pública e Ciência Ambiental, advoga que nas escolas (organizações geridas pela mesma corja de bandidos que nos tem como reféns do feitiço descrito acima) “as crianças são psicologicamente condicionadas para falhar e perder a esperança. Medo de falhar leva à inacção e ao desespero. É um ciclo vicioso. Quando as crianças não têm esperança, têm medo de falhar. Se têm medo de falhar nunca actuarão. Depois, pegam nesta fórmula e aplicam-na em todas as instâncias das suas vidas.”

Mmmm….. Estará aqui a resposta para os tais brandos costumes nacionais? A mítica falta de acção do Zé Povinho?

Aqui em Inglaterra, os problemas são semelhantes, embora com diferentes especificidades. Mas a solução que encontrei assenta em desligar os meus filhos do sistema, à boa maneira do Matrix, e procurar incutir-lhes ideais diferentes. Não foi um acto de heroísmo, apenas de bom senso. Antes de nós outros houve que o fizeram e nos inspiraram a dar o salto, em relação ao qual estamos cada vez mais felizes. Depois de nós, oxalá mais apareçam, mantendo as tendências de crescimento que se têm verificado no homeschooling.

Talvez, ao atingir-se uma certa massa crítica de almas livres e independentes, o actual sistema acabe por ruir pelas bases, por não ter mais escravos emocionais (e da finança) a alimentar as sanguessugas que se agarram às veias do poder. Nesse dia, admitindo que ainda restará planeta, violências como as que assistimos hoje (e ontem e amanhã) não acontecerão, porque uma Humanidade livre de espírito não temerá a liberdade de expressão, nem a diferença de opinião, nem a realização pessoal, nem a partilha de riquezas e recursos. Até lá, seguimos em frente, em busca do salto civilizacional de que tanto precisamos. Experimentem começá-lo em casa. Os filhos dos vossos filhos hão-de agradecer-vos.

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O(s) sistema(s) que nos rodeiam são-nos impingidos de tal maneira que em pouco tempo, normalmente ao fim de poucos anos de escolaridade e convivio familiar, a nossa inteira existência parece carecer de autorização e escrutínio de terceiros. Ou porque nos dizem que sim, ou porque se desenvolvem mecanismos legais desenhados para que não possamos escapar a tais rigores e intromissões.

Seria, julgo eu, expectável que qualquer ser nascido neste mundo tivesse o direito de nele viver anonima e livremente. Afinal, como qualquer pinguim da Antártida, somos filhos desta Terra, e nela estamos a título temporário, com usufruto dos seus recursos a título de empréstimo. Porquê tanta supervisão em torno de cada indivíduo?

Estou convencido que a esmagadora maioria dos mortais respeitaria princípios equitativos de vida em literal e absoluto anonimato sem grandes problemas, desde que providos da devida educação, claro está. E infelizmente, nesta premissa está, quanto a mim, o problema.

Numa boa parte do mundo desenvolvido criaram-se esquemas socio-económicos que destituem os pais do seu direito, consagrado no parágrafo 3 do artigo 26 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de escolher o género de educação a dar aos seus filhos, direito que, na escolha de muitos, honraria, além do mais, milhões de anos de evolução genética (através da educação provida pelos progenitores).

Para a maior parte dos pais a opção é única, pela via da escolarização de massas, necessariamente por terceiros, desconhecidos e, frequentemente, desmotivados e inaptos professores. Nessas desconhecidas e, muitas vezes, desconhecedoras mãos são colocados os sonhos de crianças e o dever de as educar. E basta ver o estado do ensino em Portugal e no Reino Unido, e a qualidade de vida e sensação de realização pessoal dos adultos deste mundo para percebermos que essa solução está longe de ser a melhor.

Dizem os pedagogos e psicólogos que as crianças aprendem melhor com aqueles de quem gostam, concretamente os progenitores. Por isso, deixem o cardeal em paz que o que ele diz faz muito sentido, antropológica, social e academicamente falando, respeitado, claro está, o direito de qualquer progenitor (das mães também) de perseguirem uma carreira profissional em vez de as palavras deste clérigo. Não há neste argumento, e julgo que na intenção do cardeal também não, um pressuposto sexista.

Numa breve tangente ao principal objectivo deste artigo, devo dizer, no que toca à polémica levantada em torno das declarações de Manuel Monteiro de Castro, que as liberdades recentemente conquistadas pelas mulheres (e ainda bem que o foram) embaciam a visão no que toca a principios fundamentais de vida animal, realmente os que mais influenciam o nosso desenvolvimento enquanto espécie e individuos, segundo os quais a mãe da cria (da galinha, do porco, do leão e do homem) tem um papel fundamental no seu desenvolvimento. E aqui, realço, mãe e pai não são iguais. São diferentes. Nenhum é mais do que o outro. São diferentes. Desempenham funções educativas diferentes, e a da mãe é particularmente importante!

Dizia eu que a necessidade de trabalho por conta de outrém, tipicamente remunerado muito abaixo da riqueza produzida por cada trabalhador, se torna em estilo de vida obrigatório para ambos os progenitores (na generalidade das famílias, como é evidente).Como se tal não chegasse, a propaganda da escolaridade mínima (educação e escolarização são coisas diferentes, e não necessariamente compatíveis) pressupõe a obrigatoriedade (que nem o é) de mandar os putos para a escola, tornando aquilo que é, de facto, uma escolha consagrada na lei, numa escolha única e sem alternativa, na mente da maior parte das pessoas. Vai daí, as crianças acabam nas escolas que o aparelho de estado controla.

Nas instituições de educação massiva e não personalizada, as individualidades das crianças são suprimidas (a começar no conceito de uniforme escolar, e a acabar no desrespeito pelas suas preferências no que toca a estilos de aprendizagem), as suas competências restringidas a um limitado currículo académico (como se no mundo só houvesse as 2 línguas ensinadas na escola, ou o valor de um indivíduo dependesse da sua capacidade de calcular o seno de um ângulo aos 14 anos), e o seu valor intelectual medido de acordo com um critério quasi-estatístico de conformância com uma escala arbitrária ditada por um governo.

O génio de cada um, presente em TODOS os indivíduos cerebralmente sãos, é, por instrumentação política, deliberadamente ignorado e trocado pela mediania, literalmente. Com excelente matéria prima, fazem-se salsichas assim-assim, como sugerem,e bem, os Pink Floyd.

A dita escala de avaliação, por seu turno, serve também como um instrumento castrador e asfixiante; A avaliação escolar é, nos dias de hoje e há pelo menos 40 anos, baseada nos resultados obtidos em testes ou exames. Nestes, raramente o 100% é atingido, o que transmite invariavelmente duas coisas possíveis ao aluno (ou ambas):

  1. Eu não suficientemente bom nesta matéria porque não tirei os 100% representativos de total satisfação dos critérios do professor (talvez até porque não gosto disto nem lhe vejo utilidade),
  2. Desde que eu vá passando nos exames vou satisfazendo os requisitos deste sistema e passo a ser um sucesso!

Ou seja, não só há uma gradual erosão da auto-estima de cada um, como há um acerto de prioridades no qual o importante não é saber mas sim ter mais do que X valores num exame cujo grau de dificuldade é tipicamente ajustado pelas escolas/professores para satisfazer quotas de aprovação. Ou seja, na avaliação de um mesmo professor em dois anos civis diferentes, o 14 de um aluno não equivale ao 14 de outro!

Como se tal não bastasse, num grupo artificialmente criado de 30 crianças da mesma idade (qual de vós tem um círculo social com quem convive 8 horas por dia em que toda a gente tem a mesma idade?!) desenvolve-se, através das notas e dos méritos, dos castigos e dos grupos de habilidade, um ambiente de competição pouco saudável, em que o sucesso individual, e não o de grupo, é encorajado e premiado, em que uns são mais “espertos” do que outros, sem que se explique às crianças que tais rankings (errados na sua génese) espelham apenas um critério muito, muito, muito estreito das suas competências conforme avaliadas num determinado dia, que falha também por não tomar em conta questões fundamentais de desenvolvimento fisico-neurológico ditado pelo bio-ritmo de cada uma das pequenas pessoas.

Com tudo isto, não admira que das “melhores” escolas saiam as grandes cabeças da Goldman Sachs e da Monsanto.

Consequentemente e em resumo, acredito piamente que a escola desenvolve mentalidades individualísticas, impede a maior parte das pessoas de atingirem o seu potencial, destrói a sua auto-estima e orienta o sucesso escolar para a passagem em exames e não para a aprendizagem. Digo-o com consciência e do alto do meu “sucesso” escolar, onde passei 18 anos da minha vida (com canudo e tudo) e que, por isso, conheço por dentro e por fora.

Por estas razões, e em grande parte a pedido deles, tirámos há um par de meses os nossos 3 filhos (6,8,12 anos) da escola para lhes oferecermos uma educação não escolarizada, assente nos seus interesses, idiosincrasias e valores, debaixo da nossa orientação e proveniente de experiências enriquecedoras (muita brincadeira, muita interacção com famílias semelhantes, muita arte, currículo tão variado quanto queiram, e ao rítmo a que pretendam seguir). Para trás ficam as rotinas rigorosas ditadas por outros, horas a fio a fazer fichas de trabalho, palestras infinitas, trabalhos de casa capazes de eliminar o equilibrio de vida de um miúdo de 6 anos, grupos de habilidade, em resumo, a escravatura escolar como preparação para a escravatura profissional.

Foi, quanto a mim, a melhor decisão que podiamos ter tomado. Em semanas, as suas verdadeiras personalidades (as tais que a escola esmagava) vieram à superfície; São mais felizes, calmos e confiantes, interagem com qualquer indivíduo de igual para igual, com respeito, assertividade e consideração, independentemente de se tratar de uma criança de 7 anos ou de um jovem de 70. São pro-activos na sua aprendizagem, investigam naturalmente, acreditam nas suas capacidades, e atiram-se de cabeça para os assuntos que, por qualquer razão, eram absolutas dores de cabeça nos seus tempos escolares.

E o mais importante é isto: A estes 3 jovens, a máquina de propaganda que ensina a população que a sociedade actual é a ideal, não lhes irá tocar mais.

É esta, do nosso ponto de vista, a nossa mais importante função, a de maior impacto no mundo, para construirmos um melhor amanhã. Estamos a desligar os nossos filhos da matriz que controla o mundo, e com isso há-de vir a liberdade deles e, quem sabe, a de outros.

Visitem o Trepar Ao Céu para acompanharem o que vamos fazendo. Entrementes, deixo-vos com algumas citações interessantes, de gente importante no domínio da pedagogia e política social.

“My education was interrupted only by my schooling” – Winston Churchill

“School is the advertising agency which makes you believe that you need the society as it is.” ~ Ivan Illich

‎’Education…now seems to me perhaps the most authoritarian and dangerous of all the social inventions of mankind. It is the deepest foundation of the modern slave state, in which most people feel themselves to be nothing but producers, consumers, spectators, and fans, driven more and more, in all parts of their lives, by greed, envy, and fear. My concern is not to improve ‘education’ but to do away with it, to end the ugly and antihuman business of people-shaping and to allow and help people to shape themselves.’ ~ John Holt

A estas horas os Trabalhadores Do Comércio estão a entreter o pessoal de Chaves enquanto eu me entretenho em Londres a ouvir o novo disco desta pandilha, que sai para a rua dentro de menos de um mês. Falta misturar um tema e fechamos a obra, que demorou mais a parir que qualquer uma das outras. Se é melhor ou pior do que as anteriores, cada um que decida por si.

Fazer um disco com este grupo é uma das experiências mais energizantes e ao mesmo tempo desgastantes que se pode ter. Se, por um lado, o espírito criativo de cada um dos membros (salvo seja) e do colectivo em geral parece realimentar-se com cada ideia, por outro a procura de momentos genuinamente especiais leva a longas horas de trabalho, quer na gravação quer na mistura, até que o resultado seja, para nós pelo menos, excitante . Mas afinal, o que significa isso?

Os Trabalhadores sempre foram um grupo com densidades musical e lírica nem sempre reconhecidas, ora por estas se esconderem, em tempos idos, por de trás da voz do grilo do Pinóquio (numa espécie de combinação non-sense que parecia amaciar a paulada), ora por, na minha opinião, serem eclipsadas por singles icónicos da história da banda e, assim ditariam as massas, da própria música popular portuguesa, que se colaram ao grupo como o musgo à rocha, escondendo-a por conseguinte.

A excitação que procurámos neste disco é a mesma em quantidade, embora de diferente qualidade, da de há 30, 20 ou 5 anos. Se Iblussom trouxe a energia de um grupo de velhos amigos, por um período separados pela vida, cheios de vontade de fazer coisas juntos e bem feitas, este novo disco mostra de que forma essa amizade evoluiu. Sou da opinião que a evolução de 2007 para agora é maior do que foi entre 2007 e o disco anterior (96). Muito maior.

Já o escrevi várias vezes, mas nunca é demais repetir, que as “aquisições” da Marta Ren, Diana Basto, Daniela Costa na sequência de Iblussom, e do Pony e do Pedro Rangel nos últimos 2 anos levaram os Trabalhadores a encontrarem uma sonoridade com uma consistência e uma ambição que ultrapassam largamente a de qualquer outro dos nossos discos, excepção feita talvez ao Trip’s e ao Nabraza por alturas do Cretáceo.

Alguém dizia, acerca de um recente concerto ao vivo em que apresentámos parte do disco, que a música do novo álbum é mais interventiva. Não sei se estou de acordo pelas razões apresentadas antes, mas não há dúvida que é um disco de mensagens fortes e relevantes para os tempos que correm, ditas à maneira dos Trabalhadores com sarcasmo e humor corrosivo quanto baste. Espero apenas que não continuem válidas dentro de 20 ou 30 anos, como acontece hoje com letras dos Trabalhadores da década de 80!

Em resumo, a excitação que procuramos ao gravar, e que oxalá consigamos transmitir ao ouvinte, é a de um grupo de pessoas que, apesar de pertencerem a gerações diferentes e terem backgrounds artísticos diferentes, vivem um só espírito, sem reservas nem medo, com a plena consciência da responsabilidade das suas escolhas, e com a noção de que viver é a concretização de um espírito que tem tanto de crítico como de exigente, de sério como de humorístico, de denso como de leve.

Das Turmêntas hà Boua Isperansa, este disco que acabo agora de ouvir, é a concretização desse espírito. Espero que gostem tanto dele quanto eu, quando o ouvirem em Novembro.

João e Pony em estúdio para gravação do Tormentas. Foto de Alberto Almeida

Ora com tanta coisa para fazer, tinha logo de aparecer uma dessas coisas das “regras” para me desencaminhar e me trazer para o Blog. Mais uma vez, passaram-se meses sem aqui escrever, por falta de tempo, mais do que qualquer outra coisa. Desta vez, o assunto é línguas.

Hoje li no Facebook, em vários perfis, a estupefacção de muitas pessoas, a juntar à minha própria, ao aprenderem o “verdadeiro” plural de “refrão”.

Não estou sequer preparado para admitir que afinal as minhas canções têm refrães, porque não têm. Foram escritas, como muitas outras, de muitos compositores, com refrões com um O bem redondo.

Claro que não está aqui em causa debater a magnifica sapiência dos linguístas que nos chamam a atenção para estas coisas, mas antes chamar a atenção para a sua função, que parece ter um caracter um tanto ao quanto dictatorial em Portugal.

Depressa se apressaram os amigos dos meus amigos, qualquer deles mais cultos do que eu, pelo menos em matéria linguística, a explicar que a regra depende do som da sílaba átona, e que daí se escolhe se de “ão”  se passa a “ãos”, “ões” ou “ães”.

Como alguém dizia nessas discussões, isto é pior que levar um xuto nos quilhães.

Era capaz de jurar que 99% dos portugueses diz “refrões” e não “refrãos” ou “refrães”. Não será isto motivo mais do que suficiente para garantir a este plural legitimidade linguística?

Realmente, e pensando na qualidade de nortense de cujo sotaque me orgulho e faço por perservar, o som “ães” e “ões” é extremamente parecido quando dito na terminação de uma palavra, sendo o primeiro mais difícil de dizer que o segundo. Não terá o plural “refrões” evoluído fonicamente do original “ães”. Seria uma justificação mais do que plausível, sendo se calhar até provável! Realmente, quanto mais penso nessa possibilidade mais ela se me afigura como certeza – algo que, evidentemente, não estou em condições de provar.

Admitindo que possa ser esse o caso, pergunto: As metamorfoses fonéticas, não fazem elas próprias parte da evolução de uma língua? Realmente, não o serão mais legitimamente do que ideias políticas e comerciais de unificação de idiomas semelhantes (mas diferentes!) que atropelam a riqueza única de cada uma dessas variantes linguísticas e das culturas que representam?

Mas afinal a Língua é refém da Gramática, ou será esta última uma tentativa (sempre incompleta e atrasada) de formalizar, de um ponto de vista analítico, a primeira? É que, meus amigos, a Lingua é aquilo que as pessoas usam para comunicar e não aquilo que 4 “entendidos” decidem pôr num compêndio de regras e menos ainda o que 2 vigaristas decidem cagar em forma de lei debaixo do título de “acordo ortográfico” (acordo entre quem? e quem não está de acordo?).

A Lingua é uma coisa viva, dinâmica, cheia de regionalismos e sotaques. O “Pape-sêque” de uns é o “pom” de outros, e quer num caso quer no outro, muitos refrões (sim, escrevi bem) foram e hão-de ser escritos.

Os linguístas que façam o favor de acompanhar, com reverência, a lingua falada em vez de a estrangularem com as suas regras apertadas. É o que fazem no Reino Unido, onde vivo. Todos os anos novos termos são adicionados ao Oxford English Dictionary, que tem como entradas recentes palavras como “lol“, “google“, e expressões tornadas comuns na sequência de eventos marcantes. Significa isto que a linguística está ao serviço da língua falada e não o contrário.

Dito isto, não pretendo que a ignorância de sobreponha ao saber, e fico, de facto, mais rico ao aprender que o plural de refrão, nos livros dos linguistas, é refrães. Mas se não o é no meu círculo de amigos feito de fotógrafos e engenheiros, guitarristas e médicos, contabilistas e professores, de gente dos 10 aos 80, a frequentar a quarta classe ou a acabar o seu pós-doutoramento, porque hei-de adoptá-lo?

Os linguístas não podem ser ditadores da língua que se fala. O povo não pode permitir tal coisa, porque com a prisão da língua vem a prisão das ideias e, com esta, a morte dos sonhos. Libertem-se e imortalizem os vossos ideais em refrões que todos possamos cantar!

E a terminar, deixo-vos com um comentário de um amigo meu, em resposta a uma terceira pessoa que de nós se despedia para ir a uma aula de línguas: “Ai sim? Eu também tirei um curso de línguas, mas foi no Clube 84“. Clássico!

Foi-se, pelo menos para já, um dos maiores perigos que Portugal conheceu, depois de aceite a sua demissão por parte de outro dos grandes perigos com o qual o país gosta, aparentemente, de conviver. Enquanto isso, os abutres políticos tiram as medidas ao moribundo, pensando nas mil e uma formas de tirarem partido da bonança com que vêm sonhando há meses.

Mas qual é o nome do jogo? Claramente trata-se de usar o estatuto político para proveito pessoal, sustentado em todo o tipo de mecanismos legais que os próprios desenvolvem – como o caso da imunidade parlamentar – para legitimar todo o tipo de atropelos. O País é só o meio para um fim.

O actual presidente da república (minúsculas criteriosamente escolhidas) participou activamente em tais orgias, o que só ajuda a definir o seu carácter, sendo notável que o país tenha escolhido colocá-lo em Belém em vez de em Caxias (bem sei que só 23% optaram por tal, mas isso parece ter chegado).

Entretanto, sobre o provavelmente futuro ex primeiro ministro já muito se escreveu sem que a vias de facto se chegasse, perdendo com isso o país a oportunidade de proporcionar aos dois galos actualmente no poleiro um “flat share” em Custoias.

E em tempo de austeridade surgem agora exemplos escandalosos de dispêndio que, mais do que esbanjador é, quase seguramente, criminosamente planeado.

A imagem à direita (com link para o video de onde foi tirada) mostra como o Estado pagou 85 mil Euros por 5 dias de trabalho de re-styling the um website. É uma das minha áreas profissionais e posso garantir-vos que é uma absoluta exorbitância, impossível de explicar (sem correr o risco de prisão) num mercado altamente competitivo e com muitos fornecedores de enorme qualidade, mesmo considerando a possibilidade de trabalho de equipa e, por isso, de um esforço maior do que a duração apresentada.

Não me parece que com a eventual substituição de Socrates por um qualquer outro mamão dos que se apresentam na corrida se resolva o problema. Mas venha quem vier, com que matéria prima terá de reconstruir o país? Numa clara demonstração da ineptitude da governação portuguesa dos últimos anos, o Wall Street Journal relembra-nos que apenas 25% da população portuguesa entre os 25 e 64 anos acabou o ensino secundário, contra 85% da Alemã e 91% da Checa.

Se até o trabalho qualificado é hoje automatizado ou comprado às economias emergentes do BRIC, o Portugal inculto e tecnicamente incapaz está condenado à segunda liga da Europa, se não for antes disso empurrado para a terceira do Mundo.

E como em terra de cegos quem tem um olho é rei, é natural que venham a agravar-se as assimetrias sociais, fazendo com que cada vez menos tenham cada vez mais do pouco que resta.

Isto cria oportunidades para o aumento da criminalidade, não só da parte de quem precisa de comer como por parte de alguns daqueles que querem mater a sua condição privilegiada, abrindo mais caminhos para o crime de colarinho branco descrito acima.

Outros, cansados da situação nacional e mais bem equipados para competir, abandonam o país para, por um lado, satisfazerem as suas necessidades financeiras e culturais e, por outro e por consequência, afundarem o país ainda mais no seu buraco (do país, leia-se!).

Assim, e desprovidos dos recursos necessários para tomarem a iniciativa de mudança, por clara falta de skills e cultura, fica o povo português condenado à execução do Estado (e de que Estado!!!) e exposto aos riscos consequentes. Como diz a nossa sabedoria popular, muito atura quem precisa.

Há tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo na minha vida que tem havido pouco tempo para merditar. E não é que não falte assunto no mundo para o fazer, como por exemplo o vazio que se vê em Portugal.

Há dias, uns tipos bem formados e divertidos de Lisboa convenceram o Zé Povinho, e ainda bem, a ter uma opinião diferente de toda uma corja de maestros, doutores e engenheiros que constituíam o júri do festival da canção (e notem que fizeram questão de apresentar todos os títulos e certidões para emprestar, à boa moda nacional, um pouco credibilidade ao evento). Serviu a música uma das suas principais funções, a da crítica e contestação social, para bem da nação. Ficou a Silvia Alberto com um sorriso amarelo a apressar o fim do programa e imagino que a troupe do Zé do Ballet, que oleou tantas ondas hertzianas em Portugal, ficou com o Échappé a meio pau em surpresa.

Dias depois, 300 mil marmelos vieram para a rua lembrar que muita coisa (tudo?) vai mal. E ainda bem que o fizeram. Mas, e as reacções? Onde estão? Porquê o vazio subsequente?

Manifestação Geração à Rasca no Porto - Foto do jornal espanhol El Pais

A mim parece-me que quando uma cidade com 200.000 habitantes consegue uma manifestação com 80.000 pessoas (40% de adesão) alguém tem de tomar nota e investigar com profundidade.

Se quisermos pensar em termos do Grande Porto, o maior aglomerado urbano do noroeste peninsular, estaremos a falar de 6% de adesão, o que em si mesmo é excelente, em especial se considerarmos que nesse caso poderão ter havido deslocações de 40 Kilómetros para participar, para o que é precisa muita motivação – sinal de que a causa é premente.

A real adesão deverá andar entre um número e outro. Admitamos que são 10%. Seria o equivalente a uma manifestação em Londres com uma mobilização de cerca 1 milhão de pessoas! É gente pra caraças e seguramente daria para muitas páginas de jornal.

Então e onde estão as reacções da nossa classe política, alvo da manifestação? Bom já sabemos que o Golfe  vai passar a ter IVA de 6%, o que seguramente ajudará toda a gente, desde os desempregados de longa duração às vítimas de radioactividade no Japão. Mas ninguém pede explicações aos atrasados mentais que levam os destinos do país?

Que é feito dos jornalistas? Que função, para além da propaganda do aparelho governativo, desempenham os media? Uma pesquisa no Público online nas secções de Sociedade e Política, mostra zero noticias pós-evento que reflictam a opinião de Políticos de relevo (Socrates e Cavaco). E mostra ZERO de indignação com esse vazio. No Facebook, vi artigos em jornais estrangeiros mas poucos ou nenhuns dos media nacionais, e ZERO com reacções das personalidades políticas mais relevantes.

E quando a RTP tem de noticiar a descida do IVA do Golfe, usam imagens da Volkswagen!!! Mas que jornalismo é este? Quem revê o que se emite? Será que a falta de zelo em Portugal é tal que nem o público do canal público português merece respeito por parte dos profissionais cujos salários são pagos por esse mesmo público?

Este vazio demonstra que os media, concentrados na capital do lobby, tocam a música do maestro e não a que o público precisa de ouvir. E fazem-no sem sequer pensar. Como o fazem os governantes que caem no ridículo máximo ao anunciar políticas vazias de conteúdo e impacto dias depois de uma manifestação com a dimensão que se viu.

Fica também a sensação de que, esvaziada a bexiga, os manifestantes recarregaram as pilhas para mais uns anos de travessia do deserto, e que por isso não forçam os media a pedir comentários à classe política e, em caso de pouco sucesso nessa intenção, os fazem escrever sobre o escândalo político subjacente a esse insucesso. Os nossos bons costumes já não o são – são derrotismo. É a vida. É o fado.

Fico assim com a ideia de que Portugal está mergulhado num vazio máximo de visão, política, media e valores. Está nas mãos de um grupo de gente ignorante por um lado, espertinha por outro, com uma ambição de poder ilimitada a que se contrapõe uma total incapacidade de inspirar uma nação a ser melhor.

E a vocês que estão mais perto, que vos parece?

King Size & Light

Posted: Fevereiro 24, 2011 in cultura, Sonhos, vida

Com mais um mês chega mais uma prestação da Fenther.

Desta vez não sabia o que escrever. Ou melhor, sabia o quê mas não sabia como.

No primeiro artigo pus o dedo nas editoras e nos consumidores de música, desta vez queria olhar para quem a cria.

O artigo começou por analítico, e ao fim de duas frase já estava a detestá-lo. Sugeriram-me que ouvisse um jazz e escrevesse no dia seguinte. Foi o que fiz. As som do Esbjörn Svensson Trio li um pouco da Lenda de Talhuic, de Marc De Semdt e isso inspirou-me para uma coisa diferente.

Escolhi escrever de uma maneira nova para mim. Não sei se é bom ou mau, mas procurei abordar a questão da autenticidade na arte, e das escolhas que qualquer pessoa tem de fazer ao longo de uma vida. Chamei-lhe King Size & Light.