TRABALHADORES DO COMÉRCIO: A CONCRETIZAÇÃO DA UTOPIA

Posted: Janeiro 6, 2012 in Liberdade de Expressão, Trabalhadores do Comércio

Francisco Gouveia, músico multi-instrumentista, compositor, maestro, escritor, é por estes e outros atributos alguém cujas opiniões musicais merecem a atenção de todos os que gostam de música.

Há cerca de uma hora, fui surpreendido por um email seu, pedindo-me que distribuisse a sua análise ao Das Turmêntas Hà Boua Isperansa pelos demais elementos dos Trabalhadores do Comércio e, se o achasse merecedor, por outros gavetos da internet. Aqui fica para vossa apreciação, agora que limpei a baba dos queixos. Obrigado pelo dispêndio de tempo e tinta, Chico!

A deslumbrante capa do disco/livro dos Trabalhadores do Comércio é de Alberto Almeida

TRABALHADORES DO COMÉRCIO:

A CONCRETIZAÇÃO DA UTOPIA

Ao acabar de ouvir o novo álbum dos Trabalhadores do Comércio: “Das Turmêntas Há Boua Isperança”, deu-me vontade de subir ao topo da Torre dos Clérigos e gritar para todo o mundo: não me dêem mais música da outra que eu já sou crescidinho!

Mas como sei que não haveria no Poder dois doutores que dessem pelo meu recado, não o fiz. Antes, resolvi agarrar-me a esta folha e descarregar o que para aqui vai escondido. Cada qual luta com as armas que tem!

De facto, olha-se para este grupo, esta banda, esta cooperativa musical, como um boi olha para um palácio quente em dia de geada: com vontade de entrar lá dentro e não mais sair enquanto durar a borrasca. E como a borrasca vai andar a dar-nos cabo da vida por muitos anos, o mais provável é continuarmos a acoitar-nos na confortável protecção destes Trabalhadores e pedir aos santos do Olimpo que os conserve com genica para se meterem outra vez nestas aventuras.

Os Trabalhadores sempre se recusaram a entrar na barca que os carregaria confortavelmente até à foz, preferindo seguir a nado contra a corrente, rumo à nascente. E nesta utopia caminham desde que nasceram. Porque o projecto dos Trabalhadores é uma utopia. Tão grande como a altura do Serjom, tão extensa como os anos que levam a vivê-la, tão diversa como as personalidades que o compõem. Depois, há a logística impressionante de conseguir juntar os elementos de uma banda que, no dia a dia, estão tão distantes como do Porto a Vigo, de Vigo a Londres, de Londres aos EUA!

E há o mercado, porque os discos não se fazem senão houver euros para os pagar!

E há ainda esta idiossincrasia dos Trabalhadores, que é a de não se padronizarem, não se regerem por matrizes, recusarem o banal, a reverência, as modas, o musicalmente correcto.

Vejam bem: ao ouvirmos qualquer dos grupos de topo do nosso “rócanrole”, facilmente os identificamos. Têm uma matriz que não largam há anos. Uma receita a que se agarraram como quem come pão com queijo todos os dias. Aos primeiros acordes, a gente já sabe quem toca. Não sei se isto é defeito ou virtude. Tenho-o como limitação. Uma espécie de estabelecimento prisional onde o preso, por lá estar há muitos anos, já não quer sair com medo do que possa encontrar lá fora.

De tudo isto e muito mais, resulta que a tal utopia dos Trabalhadores poderia ser, à partida, um fracasso facilmente previsível.

Mas como de previsões furadas está o mundo cheio, o certo é que os Trabalhadores vão conseguindo a maravilha de ir concretizando a utopia. A utopia de poder ser diferente, e sobreviver num mundo musical que está agarrado a padrões e a matrizes quase inquisitórias. E viver a plena liberdade de poderem fazer o que entendem e não o que os mercados impõem.

Sejamos concretos: a maioria dos grandes grupos portugueses e mundiais, andam prisioneiros de estilos, de modas, do tal padrão de que falei. Não os vejo a dar o salto para o outro lado da margem, ou a terem sequer a coragem de o tentar. E isto é uma forma de encarceramento. Por livre arbítrio, o que é mais grave.

Os Trabalhadores saltam a margem, e, acima de tudo, pulam as cercas das quintarolas da nossa lusa mediocridade. Com a mesma facilidade com que saltam de um blues para um rock, de um funkie para o jazz, do folk para o tango. E há também as palavras, duras, incisivas, mordazes, de cortar à faca. E já nem falo da apresentação, senão cai-me a confraria moralista dos “nóbus analistas musicaizes” em cima, sem dó nem ré.

“Das Turmêntas Há Boua Isperança” é um álbum para quem não tem medo de sustos nem gosta que um disco tenha uma côdea suculenta e o meio seja um miolo mal cozido. Há uma ambiência musical diversificada, onde pontua uma espécie de salutar demência bipolar, que vai desde a garganta improvável de um Joe Medicis à cicatrizada de Sérgio Castro, passando por um trio feminino de luxo que, individualmente, fazem qualquer festa sozinhas (Diana Basto, Daniela Costa e Marta Ren). Esta será outra utopia que venceram: a de as terem conseguido reunir com esta consistência “familiar”.

Dentro do álbum, está, quanto a mim (e quando digo quanto a mim, é quanto a mim e ponto final) o melhor tema de 2011, com danos colaterais extensivos a 2012: Gladiador. Letra simples mas incisiva e eficaz, música sem colcheias a mais nem a menos, interpretação no ponto, arranjo irrepreensível, mistura idem aspas. O tema é da autoria do António Garcês (que anda lá pela América) e de Sérgio Castro (pousado em Vigo), o que prova que os filhos podem ser feitos por correspondência, mesmo dando em gladiadores.

Os Trabalhadores do Comércio serão, porventura, a melhor banda portuguesa. Não por serem melhores do que os outros (eu sei lá quem é melhor ou pior! Sei do que gosto), mas por serem diferentes. E conseguem ser diferentes porque são livres. E, no mundo de hoje, onde a norma é habituarmo-nos a ser prisioneiros do que os mercados ordenam, é preciso ter uma inteligência limpa de quadraturas e possuir uma grande arte no sentido mais lato, para se ter a ousadia de se ser livre.

Os Trabalhadores do Comércio vão-nos demonstrando, disco a disco, que é possível concretizar esta utopia maravilhosa que é a de manter os sonhos vivos, e de os ir concretizando passo a passo.

E é esta liberdade, a verdadeira liberdade, que os faz ser superiores, e indiferentes a qualquer “playlist” dos trabalhadores da imbecilidade, ou a qualquer TOP+ do comércio musical.

Chico Gouveia

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