Concretizando um espírito

Posted: Outubro 14, 2011 in cultura, Sonhos, Trabalhadores do Comércio

A estas horas os Trabalhadores Do Comércio estão a entreter o pessoal de Chaves enquanto eu me entretenho em Londres a ouvir o novo disco desta pandilha, que sai para a rua dentro de menos de um mês. Falta misturar um tema e fechamos a obra, que demorou mais a parir que qualquer uma das outras. Se é melhor ou pior do que as anteriores, cada um que decida por si.

Fazer um disco com este grupo é uma das experiências mais energizantes e ao mesmo tempo desgastantes que se pode ter. Se, por um lado, o espírito criativo de cada um dos membros (salvo seja) e do colectivo em geral parece realimentar-se com cada ideia, por outro a procura de momentos genuinamente especiais leva a longas horas de trabalho, quer na gravação quer na mistura, até que o resultado seja, para nós pelo menos, excitante . Mas afinal, o que significa isso?

Os Trabalhadores sempre foram um grupo com densidades musical e lírica nem sempre reconhecidas, ora por estas se esconderem, em tempos idos, por de trás da voz do grilo do Pinóquio (numa espécie de combinação non-sense que parecia amaciar a paulada), ora por, na minha opinião, serem eclipsadas por singles icónicos da história da banda e, assim ditariam as massas, da própria música popular portuguesa, que se colaram ao grupo como o musgo à rocha, escondendo-a por conseguinte.

A excitação que procurámos neste disco é a mesma em quantidade, embora de diferente qualidade, da de há 30, 20 ou 5 anos. Se Iblussom trouxe a energia de um grupo de velhos amigos, por um período separados pela vida, cheios de vontade de fazer coisas juntos e bem feitas, este novo disco mostra de que forma essa amizade evoluiu. Sou da opinião que a evolução de 2007 para agora é maior do que foi entre 2007 e o disco anterior (96). Muito maior.

Já o escrevi várias vezes, mas nunca é demais repetir, que as “aquisições” da Marta Ren, Diana Basto, Daniela Costa na sequência de Iblussom, e do Pony e do Pedro Rangel nos últimos 2 anos levaram os Trabalhadores a encontrarem uma sonoridade com uma consistência e uma ambição que ultrapassam largamente a de qualquer outro dos nossos discos, excepção feita talvez ao Trip’s e ao Nabraza por alturas do Cretáceo.

Alguém dizia, acerca de um recente concerto ao vivo em que apresentámos parte do disco, que a música do novo álbum é mais interventiva. Não sei se estou de acordo pelas razões apresentadas antes, mas não há dúvida que é um disco de mensagens fortes e relevantes para os tempos que correm, ditas à maneira dos Trabalhadores com sarcasmo e humor corrosivo quanto baste. Espero apenas que não continuem válidas dentro de 20 ou 30 anos, como acontece hoje com letras dos Trabalhadores da década de 80!

Em resumo, a excitação que procuramos ao gravar, e que oxalá consigamos transmitir ao ouvinte, é a de um grupo de pessoas que, apesar de pertencerem a gerações diferentes e terem backgrounds artísticos diferentes, vivem um só espírito, sem reservas nem medo, com a plena consciência da responsabilidade das suas escolhas, e com a noção de que viver é a concretização de um espírito que tem tanto de crítico como de exigente, de sério como de humorístico, de denso como de leve.

Das Turmêntas hà Boua Isperansa, este disco que acabo agora de ouvir, é a concretização desse espírito. Espero que gostem tanto dele quanto eu, quando o ouvirem em Novembro.

João e Pony em estúdio para gravação do Tormentas. Foto de Alberto Almeida

Comentários
  1. maria diz:

    á espera… ansiosamente!

  2. Sergio Castro diz:

    Excelente análise, camarada. Eu proponho que se forneça esta “crítica” aos diversos pasquins do reino, para, por um lado, aliviar-lhes a sobrecarga de trabalho e, por outro, garantir que não sofram nenhum AVC na tentativa infrutífera de entender a(s) mensagen(s).
    Quanto ao concerto de ontem, foi “fulminante”. Bastou eu referir, antes do “Ardenmus olhus” que a canção se referia aos incêndios criminosos que continuam a assolar o jardim (não me refiro ao bufão madeirense, que a esse não há chama que lhe pegue) para que uma mesa inteira ficasse vazia…
    No fim fui botar um olho, mas não se tinham esquecido de nenhum isqueiro…

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