O vazio mais a ocidente da Europa

Posted: Março 15, 2011 in civilização, cultura, educação, Jornalismo, Porto, progresso, Sonhos, vida

Há tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo na minha vida que tem havido pouco tempo para merditar. E não é que não falte assunto no mundo para o fazer, como por exemplo o vazio que se vê em Portugal.

Há dias, uns tipos bem formados e divertidos de Lisboa convenceram o Zé Povinho, e ainda bem, a ter uma opinião diferente de toda uma corja de maestros, doutores e engenheiros que constituíam o júri do festival da canção (e notem que fizeram questão de apresentar todos os títulos e certidões para emprestar, à boa moda nacional, um pouco credibilidade ao evento). Serviu a música uma das suas principais funções, a da crítica e contestação social, para bem da nação. Ficou a Silvia Alberto com um sorriso amarelo a apressar o fim do programa e imagino que a troupe do Zé do Ballet, que oleou tantas ondas hertzianas em Portugal, ficou com o Échappé a meio pau em surpresa.

Dias depois, 300 mil marmelos vieram para a rua lembrar que muita coisa (tudo?) vai mal. E ainda bem que o fizeram. Mas, e as reacções? Onde estão? Porquê o vazio subsequente?

Manifestação Geração à Rasca no Porto - Foto do jornal espanhol El Pais

A mim parece-me que quando uma cidade com 200.000 habitantes consegue uma manifestação com 80.000 pessoas (40% de adesão) alguém tem de tomar nota e investigar com profundidade.

Se quisermos pensar em termos do Grande Porto, o maior aglomerado urbano do noroeste peninsular, estaremos a falar de 6% de adesão, o que em si mesmo é excelente, em especial se considerarmos que nesse caso poderão ter havido deslocações de 40 Kilómetros para participar, para o que é precisa muita motivação – sinal de que a causa é premente.

A real adesão deverá andar entre um número e outro. Admitamos que são 10%. Seria o equivalente a uma manifestação em Londres com uma mobilização de cerca 1 milhão de pessoas! É gente pra caraças e seguramente daria para muitas páginas de jornal.

Então e onde estão as reacções da nossa classe política, alvo da manifestação? Bom já sabemos que o Golfe  vai passar a ter IVA de 6%, o que seguramente ajudará toda a gente, desde os desempregados de longa duração às vítimas de radioactividade no Japão. Mas ninguém pede explicações aos atrasados mentais que levam os destinos do país?

Que é feito dos jornalistas? Que função, para além da propaganda do aparelho governativo, desempenham os media? Uma pesquisa no Público online nas secções de Sociedade e Política, mostra zero noticias pós-evento que reflictam a opinião de Políticos de relevo (Socrates e Cavaco). E mostra ZERO de indignação com esse vazio. No Facebook, vi artigos em jornais estrangeiros mas poucos ou nenhuns dos media nacionais, e ZERO com reacções das personalidades políticas mais relevantes.

E quando a RTP tem de noticiar a descida do IVA do Golfe, usam imagens da Volkswagen!!! Mas que jornalismo é este? Quem revê o que se emite? Será que a falta de zelo em Portugal é tal que nem o público do canal público português merece respeito por parte dos profissionais cujos salários são pagos por esse mesmo público?

Este vazio demonstra que os media, concentrados na capital do lobby, tocam a música do maestro e não a que o público precisa de ouvir. E fazem-no sem sequer pensar. Como o fazem os governantes que caem no ridículo máximo ao anunciar políticas vazias de conteúdo e impacto dias depois de uma manifestação com a dimensão que se viu.

Fica também a sensação de que, esvaziada a bexiga, os manifestantes recarregaram as pilhas para mais uns anos de travessia do deserto, e que por isso não forçam os media a pedir comentários à classe política e, em caso de pouco sucesso nessa intenção, os fazem escrever sobre o escândalo político subjacente a esse insucesso. Os nossos bons costumes já não o são – são derrotismo. É a vida. É o fado.

Fico assim com a ideia de que Portugal está mergulhado num vazio máximo de visão, política, media e valores. Está nas mãos de um grupo de gente ignorante por um lado, espertinha por outro, com uma ambição de poder ilimitada a que se contrapõe uma total incapacidade de inspirar uma nação a ser melhor.

E a vocês que estão mais perto, que vos parece?

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