O futuro começa agora

Posted: Janeiro 30, 2011 in civilização, progresso, Sonhos, vida
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Há uma praga chinesa que diz qualquer coisa como: “Que vivas em tempos interessantes”.

Eu acho-a fascinante. Primeiro porque para os portugueses o termo “interessante” não tem geralmente uma conotação negativa, ao contrário do que acontece em Inglaterra onde o termo pode ser usado como um eufemismo para “lixo” – por exemplo, se alguém vos disser “that’s interesting” acerca de uma opinião vossa sobre qualquer coisa, podem interpretar isso como “é muito interessante que o teu cérebro seja capaz de desenvolver a uma opinião tão absurda”.

Segundo por ser chinesa. Não o acho por razões xenófobas mas sim pela coincidência de à grande crise que se abate sobre a Europa e os EUA se contrapor um período de enorme bonança (e Bonanza) para a China. Como se os tempos segundo eles interessantes se virassem para nós, e para eles se voltassem os tempos interessantes segundo nós. A verdade é que entre os séculos 5 e 15 a Europa esteve enterrada numa profunda crise cultural e económica, durante a qual a civilização Chinesa conheceu grandes momentos. Estaremos a caminho disso mesmo outra vez?

Até ontem eu era da opinião que mais um ciclo se teria fechado para a Europa e os EUA, com países como o Brasil, a Rússia, a India e a China (o BRIC) a vestirem a camisola amarela durante os próximos séculos, até um novo volte de face na corrida pôr outro galo no poleiro. Mas hoje não acho isso, em grande parte por causa do filme com que acabo este post, mas também por achar que o mundo de hoje está tão inter-ligado e é consequentemente tão mais pequeno que não é fácil ter sol na eira e chuva no nabal.

A terceira razão pela qual eu gosto da dita praga é que acredito que esta Civilização chegou ao fim. Finito – para nós assim como para os chineses, para os americanos assim como para os egípcios. Calhou-nos viver a viragem de uma página como a queda do império romano, o Renascentismo, ou um outro desses momentos determinantes na história da Humanidade. E isso é interessante a todos os níveis.

Os últimos séculos foram impulsionados pela finança, uma alavanca que nos serviu para muito mas que agora começa a cheirar mal p’ra caraças. Quando 1% da população mundial detém 40% da riqueza e 10% detém 85%, é natural que da Grécia ao Egipto, da Tunísia à Inglaterra o pessoal comece a desatinar.

Como se tal não chegasse, começamos a perceber que os mercados planeiam a obsolescência dos produtos, que os bancos fazem milhões sem introduzirem valor na economia (como é o caso com o trading robotizado, realizado ao micro-segundo), e que quando a coisa corre mal pedem ao  povo que salve o mesmo negócio que enterra o pessoal em dívidas.

Tudo isto é alimentado por recursos limitados (energéticos e não só), que não só começam a escassear como, para cúmulo, são mal distribuídos. A este rítmo de consumo, e com a a produção de bens deliberadamente desenhados para a obsolescência para assim re-alimentar este modelo económico, em 2030 precisaremos de duas Terras o que não é fácil de arranjar, para usar um eufemismo.

Esta crise, enraizada no modelo financeiro e monetário que o mundo adoptou, não vai passar porque está a ser combatida com as mesmas armas que a criaram: mais dívidas (ao nível dos Estados), preocupação constante com o crescimento económico (como se fosse possível manter esse crescimento com os recursos que temos), obsessão com o PIB e outros indicadores económicos e total desdém pelo bem estar dos habitantes do planeta. Ou seja, a crise é estrutural, vem do próprio sistema que já não é viável, e piorará se não for combatida com outras armas.

O desemprego está aí para aumentar. Mesmo na minha indústria (a em tempos milionária do software), há uma crise a abater-se com a automatização do desenvolvimento (geradores de código) e a “commoditisation”  do software. Programadores estão a ser despedidos aos molhos aqui no reino unido, há muito menos oportunidades de emprego, e as que há são mais mal pagas dos que eram há 5 ou 10 anos atrás. A tendência é piorar.

A política é, literalmente, uma fantochada sendo completamente irrelevante quem se elege ou não. De facto, a abstenção é a única forma de demonstrar realmente o valor deste modelo, dizendo claramente: não me interessa, quero outro.

Ou seja, estamos fodidos?

Eu gosto de pensar que não. Eu acho que a Humanidade é capaz de coisas fabulosas, em especial nas épocas de maior crise. Acredito que precisamos de um modelo global, centrado em recursos, assente em software para gestão desses mesmos recursos, sem dinheiro como forma de transacção comercial e com uma preocupação constante na igualdade de oportunidades para todos os cidadãos do mundo. Temos os recursos, a tecnologia e o interesse comum em ir nessa direcção: Este é um exemplo, mas haverá modelos alternativos por aí seguramente.

Esta crise só pode ser vencida com um salto civilizacional estonteante, que não ocorrerá sem estrebucho da parte de quem hoje corta o bacalhau e de mais alguns que se amedrontem com a mudança, mas que cuja não efectivação pode significar a nossa morte enquanto espécie. Tal como a dinastia Ming, uma das grandes eras de governo e estabilidade social da história da humanidade, começou com uma revolução, eu estou convicto de que o salto de que precisamos terá de começar também aí, e que as notícias que vemos do que se passa por esse mundo fora não são menos do que o começo disso mesmo.

Ou seja: temos assunto para canções (e outras formas de arte), uma oportunidade de ensinar coisas melhores aos nossos filhos, e o dever de destronar quem está no alto deste modelo e nos fode de fininho para darmos um salto qualitativo nas nossas vidas, ou pelo menos ficarmos na história como a geração que o conseguiu para quem depois vier a conhecer céus mais azuis.

Tempos interessantes? Podem crer! Vejam só:

Comentários
  1. A falta de recursos da Terra não vai ser um problema. Ainda ontem vi um documentário em que mostravam os planos que os EUA já têm para Marte, com a conivência da comunidade internacional. Para derreter o gelo e ter água, tencionam provocar um fenómeno de aquecimento global, libertando dióxido de carbono a uma velocidade espectacular. Isto é vão começar adiantados no capítulo…Depois colonizarão o planeta e o resto… já se pode imaginar.

  2. […] pessoal, nem a partilha de riquezas e recursos. Até lá, seguimos em frente, em busca do salto civilizacional de que tanto precisamos. Experimentem começá-lo em […]

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