Cultura Popular e os Críticos

Posted: Janeiro 6, 2011 in cultura, educação, Jornalismo, Trabalhadores do Comércio
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Um amigo meu, proeminente escritor sobre música, em tempos (talvez até presentemente) director de programas de uma rádio regional , homem na casa dos 40 anos,  é um dos muitos indignados com o tratamento que revistas como a Blitz ofereceram a efemérides como os 50 anos da edição do primeiro disco do Rock Português, ou a recente homenagem da Sociedade Portuguesa de Autores a 50 nomes do rock português, em cuja lista tenho a honra de ter sido incluído pelo meu trabalho com os Trabalhadores do Comércio.

Tendo manifestado o seu espanto online em vários sites, ficou ainda mais perplexo com a defesa generalizada que foi prestada à Blitz. Conhecendo o meu relacionamento com a crítica, pediu-me uma opinião, que aqui deixo transcrita. Agradeço também a vossa opinião.

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Caro X, Escrevo-te à medida que estruturo o meu pensamento para te dar uma resposta. Estou interessado em saber o que pensas dela. (perdoa-me as falhas ortográficas – uma luta dos tempos de primária válida ainda hoje, a que não ajuda a ausência de um corrector ortográfico português neste computador inglês. A rebeldia contra o novo acordo ortográfico, essa sim, é intencional e continurá até à minha morte!)

Eu tive o meu choque anafilático com o jornalismo musical português aquando do lançamento do Iblussom, a que não é alheio ser o primeiro disco meu no qual tenho uma influência consciente e determinada (na opinião de alguns, determinante) no processo de composição, arranjo e produção.

Talvez por isso, levei a peito muitas das opiniões proferidas, as boas e as más, e sobre isso tive oportunidade de falar contigo e de inclusivamente gastar horas minhas a dispensar tintal digital no blog dos Trabalhadores e em outros meios. Uma espécie de exorcismo pessoal útil mas de pouca ou nenhuma relevância de massas.

A distância do tempo cria um afastamento emocional que me permite agora analisar as coisas em termos talvez um pouco mais isentos, embora a essência das minhas opiniões não tenha mudado e seja, indiscutivelmente, influenciada pela minha posição de “alvo da crítica” (sem sentido pejorativo).

Antes de mais convém perceber que Portugal é um país culturalmente pobre. Muito mais pobre nesse domínio do que no financeiro, tecnológico ou industrial. Isso é consequência de não serem ensinados nas escolas portuguesas conceitos fundamentais de estética, de expressão cultural e intelectual, da importância das artes na sociologia dos países, (em sentido inverso) dos contextos sociais e económicos que suportam essas formas de expressão, etc.

A minha filha de 11 anos, por exemplo, tem andado a estudar música e arte gráfica dos anos 60, 70 e 80. Quem eram os Beatles, o Andy Warhol, o Roy Lichtenstein e o Freddy Mercury? Qual o significado do seu output no tempo em que ocorreu? Porque durará o seu output até aos dias de hoje? Qual a realidade económico social daquele tempo e de que maneira influenciou estes artistas? Que técnicas usavam e a que “escola” pertenciam? Fá-lo integradamente nas disciplinas de Humanidades, Inglês, Educação Visual e Música! E já agora, no grupo coral a que pertence, canta Lennon, Guns and Roses, Journey, Stones e Crowded House para audiências escolares que variam entre dezenas e um par de milhar de pessoas. Isto dá-lhes referências e sentido estético próprio e integrado! Faz isto numa escola pública que me custa ZERO por mês.

O povo português não tem, no sentido lato, nem este desenvolvimento nem referências que permitam ao comum dos mortais apreciar criticamente uma forma de arte. Quando assim é, procuram-se essas referências junto de outrém – os amigos e os “opinion makers” passam a ser fundamentais por serem, de facto, a base da sua opinião acerca do seu consumo artístico pessoal.

No caso da música, o Blitz tornou-se a principal fonte de critica especializada, especialmente depois da morte do Se7e, do Musicalíssimo e da Música&Som (e possivelmente de outros anteriores tão ou mais relevantes, mas que desconheço por serem anteriores a 72).

Desgastar fontes de referência como o Blitz equivale a retirar o tapete intelectual e emocional de cada leitor dessa revista no que respeita ao seu consumo artístico pessoal. Isso acaba por ser uma forma de ataque pessoal impossível de suportar e que merece a mais acérrima das defesas! “Não digam mal do jornal X porque ele determina em grande medida quem EU sou” (opinião inconsciente, o que a torna ainda mais forte e dogmática!).

Curiosamente, muitos críticos sofrem eles próprios destes males, procurando referências noutros sítios, concretamente nas revistas ditas “cool” vindas dos EUA e do Reino Unido. Com isso descontextualizam  a produção artística versada e amplificam a grandeza de um artista Inglês ou Americano num contexto social onde outros (nacionais) merecem muito mais destaque!

A falta de preparação cultural e a dependência dos próprios críticos (de alguns pelo menos) nos seus pares internacionais tornam-nos incapazes de perceber o produto artístico português sobre o qual lhes pedem análise ocasional. Porquê? Porque eles próprios não têm essas referências – daí que não se importem com os 50 anos da música portuguesa, com o Arte&Oficio ou com o Pop 5. E estes não fazem parte das suas referências porque não são ensinados nas nossas escolas.

Os putos de onze anos em Portugal deviam aprender nas suas disciplinas de musica, história, e português acerca do Zeca, do Ary, dos A&O, Pentágono, GNR, Sérgio Godinho, etc e dos contextos economico sociais em que apareceram! O sistema de educação não está para isso e assim se perdem as referências que depois se procuram “lá fora”.

Trazendo esta análise para o meu caso pessoal: Os Trabalhadores do Comércio estão inseridos na 3a região mais pobre da Europa, no país mais centralista da Europa, sofrendo na pele (quer a título pessoal quer no seu círculo social) os dramas dessa realidade. O nosso próximo disco é quase exclusivamente sobre estas coisas, não por estratégia comercial, mas por genuína e mais do que compreensível expressão artística.

Achas que os críticos que sobre ele vão escrever vão perceber estas questões ou procurar enteirar-se delas? A simples questão do sotaque à Porto não é vista como uma forma de afirmação cultural mas sim como “uma parolice fora de moda”! Salvo raras excepções, não estou à espera de nenhuma forma de crítica contextualizada e estou preparado para mais um assalto da crítica “cool” e “moderna” àquele que é na minha opinião o nosso melhor disco, talvez por não soar suficientemente a “Tricky” ou a “Radiohead” ou a “U2” ou a “Lady Gaga”. A ver vamos.

Portanto, estou a tentar viver com este tipo de crítica e “opinion makers”, pensando sempre que nos custa uma existência de mais concertos e maior sucesso financeiro o que, curiosamente nos empurra para um estilo cada vez mais genuinamente independente. Talvez assim estes pseudo-indies acabem também a gostar de nós e de outros como nós (a título póstumo, depois de morrermos de fome?)😉

Quanto aos seus defensores, precisam dessa crítica para terem pensamento e, com isso, existirem (segundo Descartes). Não leves a mal – sorri antes por teres pensamento próprio, referências e base cultural invejáveis em Portugal. E continua a escrever sobre estes tópicos porque Portugal agradece.

Um abraço

João

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E vocês, que têm a dizer de tudo isto?

Comentários
  1. Sergio Castro diz:

    Brilhante, camarada. Subscrevo total e absolutamente. O Luis Silva, que está indignado com a atitude do Blitz, pede-me que comente, no blog Ié-Ié do Luis Pinheiro de Almeida. Este texto é insuperável e devia ser lá colocado.
    http://guedelhudos.blogspot.com/2011/01/incompreensivel.html
    abrassu

    • joemedicis diz:

      Gracias! Está lá deixado o comentário.

      • Lso diz:

        Pouco mais se pode acrescentar ao que disseste. Quanto ao Iblussom, lamento que não tenha tido o devido reconhecimento, mas, existem alguns grupos que parece terem sido riscados do mapa. Tenho a certeza de que a maioria dos críticos nem escutou o 2CD porque existem diversos temas de eleição – nesta vertente também não entendo como os Trabalhadores passam temas do Iblussom na rádio nacional espanhola e não passam nas nossas rádios. Um abraço.

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