Quando dos muitos burros do mundo nós temos as maiores orelhas…

Posted: Novembro 30, 2010 in racismo, vida

Talvez reflexo da merdosa existência que a maior parte da sociedade vive, parece que a única maneira que alguns dos seus indivíduos têm de se sentirem bem consigo mesmos é encontrar pontos de diferença cultural com outros povos e sumariamente classificar essas diferenças como uma inacreditável ignorância da outra parte, merecedora da maior chacota possível.

Se se tratar de uma ex-colónia, daquelas que durantes séculos violámos (os Tugas de transantanho, eu não!) para depois, a custo, abandonarmos com o rabo entre as pernas enquanto recebíamos um monumental pontapé na peida, então os epítetos que escolhemos para essas gentes parecem ganhar uma dimensão adicionalmente saborosa, tanto quanto ignorante – a da vingança.

Um caso recente é a proliferação de publicações no facebook (e outras redes) de concursos (africanos, na sua maioria) em que os concorrentes não sabem o que é um violino ou um violoncelo, com isso merecendo comentários como as seguintes pérolas:

ololol
e eu que pensava que os instrumentos musicais eram universais….
afinal não….”

Estes gajos aki Sao Mesmo Bumbos pá! No episodio há Dias Ouve um que disse que Clarinete era Uma Peça De Roupa! Para tu veres as Peças qué há Aki Em Angola! LOL

Pois…

Eu sou dos que se orgulha de ter concluído com sucesso uma disciplina de Estatística na Universidade. Acabei outras também (não foi só essa!), mas essa teve a peculiaridade de eu nunca ter conhecido o professor – o assunto era demasiado enfadonho e evidente para me merecer madrugadas (das 8 às 10) a aturar palestras secas. É pena, porque se lhe tivesse tomado o gosto, talvez pudesse estudar o seguinte acerca desses génios neo-colonialistas:

  • Quantos dos senhores saberiam responder a pergunta semelhante acerca de um Saltério, um Kora, um Doumbek, Didgeridoo ou um Duduk – todos eles extremamente populares nas respectivas culturas de origem? Ou, para jogar mais perto de casa, o que são um carrilhão, uns timpani ou um fagote?
  • Quantos deles aceitaria como válida a premissa de que , comparativamente, mostra muito mais ignorância quem julga que os instrumentos musicais são universais (tocados com igual popularidade em qualquer parte do mundo) e que se resumem àqueles 15 ou 20 que se ouvem nas sinfónicas da europa ocidental? Em particular, saberão que o cello e o violino não são propriamente os alicerces da música popular africana como são na Europa?
  • Quantos aceitam a premissa de que a falta de respeito pelas culturas de onde se extrai riqueza é um perigoso sinal de ignorância neo-colonialista com pelo menos 400 anos de atraso, inaceitável em 1500, e ridícula em proporções cósmicas nos dias de hoje, essa sim merecedora da maior chacota possível (pelo menos em sociedades que não a punam com prisão ou internamento psiquiátrico)?
  • Quantos saberão que muitas pessoas de países tropicais não sabem o que é um sobretudo? Sim, essa peça de roupa que qualquer europeu veste umas boas dezenas de vezes por ano e que, como é lógico, mais do que inútil pode ser mortal nos trópicos? E quantas peças tropicais serão desconhecidas na Europa por, justamente, estarem desprovidas dos necessários contextos climatérico e cultural para chegarem a ter relevância que lhes mereça léxico próprio?

Ignorantes todos somos, e na maior parte das matérias! Mas a falta de consciência de nós próprios e a vontade de nos afirmarmos com estes laivos de pseudo-superioridade cultural deixam-me tão perplexo quanto revoltado, especialmente ao perceber que muitos dos que participam nesta orgia são, ou têm obrigação de ser pelas suas qualificações académicas e estatutos profissionais, gente inteligente – o que com isto não demonstam.

De facto, fica a pergunta com que abro o texto: De todos os burros do mundo (6 mil milhões, mais catraio menos catraio, espalhados por 5 continentes) serão estes troçadores os burros com maiores orelhas?

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