As cidades e os Sonhos

Posted: Outubro 28, 2010 in Londres, Porto, Sonhos, vida

Há já várias semanas que tenho vindo a procrastinar no que diz respeito à minha actividade bloguista (ou será blogueira?) e não foi porque me faltasse assunto mas sim tempo, que me falta também hoje, mas que decididamente combati para dar descanso à alma.

É que se o tempo não me ajuda a escrever, os ritmos dos dias de hoje não deixam de me criar dúvidas (falhas de que o senhor Aníbal de Boliqueime diz não sofrer) desde as coisas mais mundanas até à sustentabilidade da nossa espécie e da minha própria contribuição para deixar um balanço minimamente positivo neste calhau que, por agora, habitamos.

Na semana passada, revisitei um país, e concretamente uma cidade, que me fascinou por alturas de 2002 quando lá passei 2 semanas de férias. Desta vez, não foi o turismo que lá me levou mas sim o trabalho com o qual vou pagando as côdeas e o ocasional e cada vez mais raro camarão que se comem cá por casa.
Edimburgo é uma cidade milenar, com um carisma que, por ser tão forte, se assemelha ao do Porto. A diferença clara está na vida activa de uma cidade, contraposta à decadência que vejo com cada vez mais tristeza na outra.

Ambas são cidades com pouco menos de 500.000 mil habitantes, talvez o tamanho ideal para uma cidade. Mas Edimburgo transpira actividade comercial e de entretenimento, tem imensos turistas, está bonita e cuidada, de cara lavada, como se fosse uma espectacular senhora de meia idade de quem as rugas contam histórias de amor e guerra que, do grande esquema das coisas para o pequeno, se transformam de absolutas insignificâncias na razão de ser da própria vida. E isso sente-se, mais do que se vê, na cidade e nos olhares de com quem nos cruzamos.

Dei comigo a pensar “Porque deixaram a minha senhora de meia idade transformar-se numa velha desdentada e com cheiro a mijo?”. Que pode fazer-se no Porto para trazer a cidade de volta ao esplendor que já conheceu e que merece?

Não perceberão os centralistas que às sinergias que advêm de ter toda a planificação e execução da vida de um país no interior da segunda circular se contrapõe um impacto ambiental brutal capaz de arrasar regiões e com isso uma nação? Não perceberão que uma cidade e um país são reflexos de uma cultura (que tem de ser preservada e desenvolvida) e de uma atitude em relação ao Mundo e às possibilidades (ou falta delas) que este apresenta?

Quando, por exemplo, se pensa em fechar o Teatro Nacional S. João não se fecha só uma porta, dá-se mais uma machadada nos sonhos de uma cidade, afunda-se mais o seu povo, priva-se-o de acesso a um palco de sonhos, afunda-se mais gente na miséria – não financeira mas cultural e até espiritual.

Há dias ouvi Desmond Tutu dizer, acerca do Campeonato do Mundo de Futebol na África do Sul e  da adequabilidade do dispêndio de tanto dinheiro num só evento enquanto o país carece de tantas outras infra-estruturas, que o Homem não precisa só de estádios, escolas, hospitais, e demais pedaços de aço e tijolo. O Homem precisa de Sonhar, e esse evento era representativo disso mesmo: a possibilidade de começar o sonho de uma vida melhor. Quando é que o Porto encontrará de novo o seu sonho e começará a construí-lo?

E enquanto pensava em tudo isto, dei por mim a sobrevoar Londres, cortesia do piloto da British Airways, numa espécie de tour aéreo da cidade, visitando Canary Wharf, Westminster, West End, Hyde Park e Chelsea enquanto o sol se despedia e o luar iluminava os céus da cidade. O que vi foi exactamente isto (foto de Jason Hawkes), e pensei: Aqui sonha-se com o que nos apetecer. Não deveria ser assim em todo lado?

Londres ao cair da noite. Foto de Jason Hawkes

Comentários
  1. pigma diz:

    Well said! You’re the greatest!

  2. Vera Jesus diz:

    Adorei este post, primeiro por causa de Edimburgo, cidade dos meus sonhos e depois pelas fotos.
    Quanto ao TNSJ, bem tenho a dizer que as pessoas estão assustadoramente paradas a ver Portugal ruir e quem pode e tem força e fama para isso, também, se resignou ao mesmo. Parecemos uma formação de soldados de braços caídos e rosto no chão, regressando de uma batalha.
    Tenho muita pena de ver um teatro tão bonito ser mais um ninho para pombos no Porto… há alguma coisa que eu possa fazer?!!

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