A liberdade é, ao que parece, relativa

Posted: Setembro 12, 2010 in Jornalismo, Liberdade de Expressão, Trabalhadores do Comércio

Um dos riscos do negócio da música em Portugal é o de uma banda dos tempos de hoje se sentir arrastada numa viagem no tempo, infelizmente sempre para o passado de há pelo menos 30 anos, para se ver no meio de situações que são na melhor das hipóteses caricatas e na pior indiciadoras de todas as formas de corrupção, vigarice e falta de profissionalismo de que tão frequentemente é acusado o país de Almeida Garrett.

Ao vivo no memorável concerto da Serra do Pilar, Gaia, Agosto de 2010. Foto de Alberto Almeida.

Recentemente os Trabalhadores do Comércio tiveram uma dessas viagens, ao Sabugal – o tal sítio em cujo magnifico castelo um concerto de música erudita foi arruaceiramente interrompido pelas vuvzelas do Senhor Presidente da Junta e seus capangas, perante o olhar impávido da GNR.

Se a nós não nos correram com vuvuzelas, trataram-nos com um role de incumprimentos contratuais e uma falta de profissionalismo por parte do grunho que forneceu o PA (nome impróprio para os caixotes merdosos que lá pôs, desrespeitando o rider técnico que é parte integrante do contracto) que pôs em causa não só a realização do concerto (por falta de condições técnicas) como a nossa convicção de que estavamos do lado de cá do 25 de Abril de 1974.

Depois de alguma ponderação nossa, o concerto realizou-se e a banda tocou competentemente (como sempre), tendo saído satisfeita do concerto no que toca à música tocada mas, infelizmente, a fumegar de espanto com as circunstâncias em que tudo se realizara.

Quando, dias antes, a banda se tinha comprometido a pagar 200 Euros extra pelo fornecimento de uma mesa de mistura para som de palco (porque a inicialmente fornecida não respeitava o rider!), não imaginou as condições do demais material e achou-se no direito de questionar esse pagamento no final do concerto (sem, nessa altura, se estar a recusar fazê-lo).  Nesse momento, gente associada ao homem do PA e à Organização (por laços de família e amizade pelo menos) adoptaram atitudes agressivas que nos transportaram para a Foz Coa de há milhares de anos, não geograficamente mas seguramente de um ponto de vista de desenvolvimento humano. Como é evidente, não respondemos na mesma moeda, mas concluímos nesse momento o que fazer às 200 moedas em discussão.

O agente local que contratou os Trabalhadores, homem respeitado em terras beirãs pelas suas ligações e trabalho documental referente à História do Rock em Portugal, é jornalista assim como amigo pessoal dos promotores e do homem do PA, tendo escrito depois deste episódio num jornal regional, e a despropósito, que o concerto dos Trabalhadores do Comércio tinha muito mau, não explicando (como deveria ter feito) a sua mais do que legítima opinião. Julgando-nos no direito de resposta, deixei o comentário que aqui inclúo na dita publicação, tendo recebido hoje a notícia de que não seria publicado por conter referências pessoais ao autor da peça (o que não é verdade – são todas profissionais!).

À liberdade que um jornalista tem para escrever o que lhe dá na telha, não têm os alvos desses textos a mesma liberdade de responder na mesma publicação? Está visto que, naquele que parece ser o Far West português a liberdade é mesmo muito relativa.

Mas a democratização que a Internet trouxe permite-nos esclarecer estas histórias e tornar igualmente públicos os nossos pontos de vista. É que, como dizia o também tripeiro Almeida Garret,

Se na nossa cidade há muito quem troque o V pelo B, há muito pouco quem troque a  liberdade pela servidão.

—- A minha resposta ao artigo publicado na Capeia Raiana —-

Não querendo comentar questões financeiras que só ao Sabugal dirão respeito, sinto-me no direito de, na qualidade de membro da banda Trabalhadores do Comércio, comentar a breve referência feita ao concerto do referido grupo. Ao que parece, o concerto dos Trabalhadores “não atingiu as mais legítimas expectativas”. E quais seriam essas, pergunto eu?

Quem foi ao concerto para ouvir uma banda energética, com excelente produção e execução musical, inovação lírica e variedade artísitca, saiu do concerto seguramente de barriga muito cheia – podendo juntar-se aos restantes 15 mil que em três concertos semelhantes nos últimos 2 meses nos demonstraram o seu agrado, como é exemplo o seguinte tema gravado em Vila Nova de Gaia, 5 dias após o nosso concerto no Sabugal –http://www.youtube.com/watch?v=VBpUKagbCT8.

Se as “mais legítimas expectativas” andavam à volta de ver a velha banda de antigamente a tocar as velhas músicas de antigamente, talvez mesmo comigo em formato anãozinho e com os pulmões bem cheios de hélio para poder replicar a voz que tinha há 30 anos e assim transportar os mais nostálgicos apreciadores de música e coleccionadores de histórias de transantanho para épocas de maiores alegrias, então essas expectativas não só não seriam legítimas – porque cabe SEMPRE ao artista o direito (ou até dever) de continuar a criar e promover as suas novas criações, ponto em que insistimos e de que muito nos orgulhamos – como poderiam mesmo ser preocupantemente destituidas de raciocínio lógico.

Assente a questão das expectativas, o autor da peça – a quem não reconheço competência técnica para opinar sobre música tocada – considerou o concerto como “mau”. Mau, em que sentido?

Foi mal tocado? Não, pelo contrário, foi muito bem executado (ao nível do link anterior, referente a Vila Nova de Gaia) apesar das miseráveis condições técnicas do PA que nos foi fornecido no Sabugal, e que levaram a banda a considerar cancelar o concerto – o que não fez por respeito ao público e ao promotor.

Foi de pouco profissionalismo? Estaria a banda inebriada (de todo) em palco? Um categórico não é a resposta, neste caso, como em qualquer outro concerto. Os Trabalhadores do Comércio orgulham-se de um enorme sentido de responsabilidade e profissionalismo, até porque a sofisticação musical que levam para o palco não é compatível com qualquer outra coisa que não seja a sobriedade, ensaios regulares, e prática regular dos respectivos instrumentos e estudo associado.

Serão as novas canções de “má qualidade”? Bom, poderá ser essa legítima opinião do autor, como legítima será a minha de contrapor a falta de sensibilidade musical e conhecimento técnico do autor da peça para chegar a tal conclusão. É que, comentar a “qualidade de uma composição” pressupõe um conhecimento técnico mínimo sobre a arte da composição, do arranjo, de produção musical que, conforme referi anteriormente, não reconheço ao autor desta peça (nem aos autores da maior parte das peças que se escrevem sobre música em Portugal, infelizmente).

Não terá o autor gostado da música que ouviu (pelo menos até que os temas que mais tem presentes e que constam da sua vasta colecção de música portuguesa do passado século começaram a ser tocados)? Essa sim, é uma opinião absolutamente legítima e que não precisa de argumentos. Quem não gosta, não gosta e acabou. Mas teria de ter explicado no texto que o concerto teria sido “mau” porque os Trabalhadores não tocaram as músicas que ele gosta.

Mas resumir um evento de mais de 90 minutos a um parágrafo onde se o classifica como mau sem mais argumentos, representa, na minha opinião, irresponsabilidade jornalística (afinal, ao jornalista cabe expor argumentos e descrever de forma relevante para o leitor aquilo a que assistiu – se foi mau, há que explicar porquê) e uma maneira pouco criativa para esconder uma clara incapacidade para perceber o espectáculo que os trabalhadores do comércio têm levado com imenso sucesso a muitos milhares de pessoas nos últimos meses, por vezes em locais emblemáticos como é o caso da Casa da Música no Porto, acrescida de uma maior incapacidade para substanciar com argumentos de relevo a opinião que publica.

Se, claramente, o artigo não é sobre os Trabalhadores do Comércio, a referência que a eles é feita carece gravemente de rigor jornalístico e musical. O artigo, porém, confirma que há diferenças claras entre jornalistas, críticos de música, musicólogos, músicos, historiadores de arte, coleccionadores de factos sobre uma qualquer matéria, e contabilistas – querendo parecer-me que o autor da peça se inclui mais facilmente nos 2 últimos grupos do que em qualquer um dos restantes.

Cumprimentos

João Médicis

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