Hoje sinto que tenho que escrever. E no entanto, o peso do que quero dizer é tão grande que estou há uns bons 10 minutos a olhar para um ecrã vazio, sem ter conseguido escrever uma única palavra que seja (até agora).

Este bloqueio deve-se à irritação natural que resulta de ver gente violentada pelos organismos que a deviam proteger, a que acresce o fervilhar do sangue decorrente de, desta feita, se tratar da “minha gente”.

Hoje, Rui Rio, presidente da Câmara Municipal do Porto, ordenou o despejo da Escola da Fontinha, edifício abandonado há anos, reclamado por uma organização de carácter cultural e educativo, sem fins lucrativos, e actuando em parceria com a comunidade que serve.

Durante 5 anos, o abandonado edifício foi ocupado para fins de “casa de chuto” não supervisionada, sem que o impacto de tal actividade económico-social (ilegal em Portugal) preocupasse as autoridades policiais e camarárias.

No entanto, bem mais perigoso do que uma pandilha de zombies adormecidos pela heroína, é um grupo de gente inteligente, activa, empreendedora, criadora de sonhos, fabricante de asas que fazem as crianças voar. Gente que consegue fazer o que as escolas públicas não fazem (nem foram desenhadas para tal).

Iniciativa puxa iniciativa, e de três gatos pingados a aparecerem, passam a 30 ou a 300, e aí a coisa começa a incomodar quem trabalha diariamente por manter a populaça submetida aos desígnios dos Senhores da Pátria. Vai daí, há que cortar o mal pela raíz, e fazê-lo com eficácia e determinação, a saber:

  • Encomendar à polícia, a mesma que ainda há poucas semanas descascou valentemente numa manifestação pacífica, que apareça em grande número para garantir uma limpeza rápida do local, com direito ao uso da força
  • Vigarizar uns bombeiros, dizendo-lhes numa acção de formação que devem comparecer no dia seguinte vestidos à civil e de cara tapada para um simulacro a realizar no Porto (não lhes disseram que iam ajudar a despejar a Escola da Fontinha)
  • Esvaziada a escola, destruir a totalidade do património educativo lá presente, atirando-o pela janela no próprio dia da acção de despejo, assumida literalmente pelas “autoridades”.
  • Impedir a comunicação social de relatar o caso com isenção, através de propaganda política nos órgãos estatais e do impedimento levantado aos jornalistas que pretendiam visitar o local

O Senhor Rui Rio suporta a sua decisão com a falta de vontade do projecto em causa de assumir uma renda simbólica de 30 Euros mensais. Eu diria que o argumento ou é ridículo por não corresponder à verdade ou, de forma mais evidente, por demonstrar a falta de competência do Senhor Rio e sua equipa, ao não reconhecerem que o serviço prestado por esta organização poupa à cidade muitos milhares de Euros por ano, e gera riqueza cultural e económica de longo prazo. Esses 30 Euros de renda deviam ser transformados em 30,000, mas de subsídios camarários de elevado retorno para a cidade.

Com tudo isto, o uso da força, a aparente perseguição à Cultura independente e a manipulação dos media levaram muitos a afirmar que o país vive num período Fascista. Não estou de acordo, porque tenho dificuldade em reconhecer no actual estado algumas das suas características ideológicas.

Realmente, tenho a sensação de que não há uma ideologia política de suporte das acções da actual classe política em Portugal. São demonstradoras, isso sim, de uma delinquência perigosa, criminosa na maior parte dos casos, mesmo à luz das leis que esses mesmos vândalos desenham para encapuçarem as suas acções.

O País, está neste momento na mão de criminosos sem escrúpulos, de uma máfia aniquiladora, bem mais perigosa do que o mais sério dos assassinos detido em território nacional.

Desse ponto de vista, o Dr Rio (e outros como ele) não é fascista.  É um grunho delinquente e inseguro.

  • Inseguro porque não confia na sua posição se misturado com uma população mais culta.
  • Delinquente porque com a sua decisão viola a constituição portuguesa (acima, à direita).
  • Grunho porque escolheu fazê-lo à força bruta e com medidas de destruição deliberada, desrespeitando por completo imensos investimentos financeiros e emocionais da população que representa, ou devia representar.

A vida bafejou-o, até ver, com a sorte de estar a violentar gente que, pela sua cultura superior, evita a violência como forma de resposta.

E por falar em gente superior, apreciem este magnifico vídeo sobre o que se faz no Projecto ES.COL.A.

Es.Col.A da Fontinha from Viva Filmes on Vimeo.

Ora, ora, ora!!! Estava aqui eu tão sossegado a pensar na didáctica da música, e tinham de me desassossegar. E logo as “autoridades”!

Lembro-me , há muitos anos, numa altura em que dois crápulas levavam o destino do país (o Silva das Vacas como Primeiro e o seu leal parceiro no crime, o implacável Dias Loureiro, como Ministro da Administração Interna), que a polícia descarregou fortemente sobre estudantes universitários que protestavam pacificamente contra o aumento das propinas.

Ora hoje, debaixo da tutela do mesmo Silva das Vacas, novas imagens nos chegam, desta vez com ênfase na agressão a jornalistas, armados apenas com a força do alcance das suas palavras e imagens.

Não é novo. Já o vi nos anos 90. E os meus pais antes disso. Mas são precisamente essas semelhanças que levantam suspeitas e emprestam credibilidade ao argumento de que Portugal não é, hoje em dia, um país democrático, estando antes debaixo de uma ditadura que revela muitas das suas suas horríveis facetas ao virar de cada esquina, literalmente.

Da agressão a jornalistas que querem contar o que alguns não querem que se ouça, à morte desamparada de idosos com a ajuda da mão ensanguentada do estado, passando pela redução de salários e pela deliberada asfixia cultural, assistimos diariamente à violentação permanente de um povo demasiado pacato para merecer tais abusos ou para os resolver com mão de ferro.

Sabemos até que aqui, como em Espanha e noutros sítios, é polícia à paesana que provoca os incidentes cujas responsabilidades são depois atribuídas à população. Na minha terra, gente de escrita e fala escorreitas classificaria tais actos como uma filha-da-putice sem nome, isto para usar terminologia técnica rigorosa.

O nosso sistema límbico, estrutura a respeitar uma vez que garante muito da nossa sobrevivência, sugeriria certamente a execução sumária de duas mãos cheias de proxenetas da nação e do mundo, regada com outras tantas de cocktails molotof em locais relevantes frequentados por essa corja de criminosos. Todos, ou quase, o sentimos nas tripas como uma solução exemplar para o problema. Infelizmente por um lado, e felizmente por outro, não somos como outros povos e por isso não fazemos uso dessas tácticas. Isso obriga-nos a viver no meio da merda ou a elevar o nível para a afogar de vez. Proponho a segunda via, até porque não sou adepto de soluções violentas. Mas como?

Portugal, como o resto do mundo, está na mão de assassinos sanguinários vestidos de Armani e Prada (excepção feita ao pessoal do Vaticano que, sendo insuperáveis assassinos sanguinários, não têm um gosto tão refinado em questões de moda, até por razões protocolares). O poder a que todos eles estão agarrados está assente numa mistura explosiva de duas coisas:

  1. A venda de um sonho, um ideal, algo que todos reconheçam como A Salvação, venha ela na forma de Deus ou de um Ferrari F40,
  2. Num esquema de escravatura emocional (e não só) que por um lado impeça a concretização do sonho e por outro o re-alimente, tornando-o mais intenso e merecedor de esforços ainda mais brutais para que possa ser alcançado. Assim, tudo pode ser visto como um esforço que “vale a pena” (curioso, o significado literal desta expressão).

Este é o paradigma em que vivemos, e não será de um dia para o outro que o vamos mudar. Digo-o porque os poderes a derrotar não são coisa miúda. A solução passará seguramente por um acordar de consciências que esse mesmo poder inebria com ignorância, medo, castração de liberdades e uma instrução escolar que nos vende a ideia de que a Sociedade precisa de ser como é (verdade que só se aplica aos que dela abusam e tiram partido ilegítimo).

Num artigo de leitura obrigatória (em inglês) e que talvez um dia eu acabe a traduzir, Marco Torres, um perito em Saúde Pública e Ciência Ambiental, advoga que nas escolas (organizações geridas pela mesma corja de bandidos que nos tem como reféns do feitiço descrito acima) “as crianças são psicologicamente condicionadas para falhar e perder a esperança. Medo de falhar leva à inacção e ao desespero. É um ciclo vicioso. Quando as crianças não têm esperança, têm medo de falhar. Se têm medo de falhar nunca actuarão. Depois, pegam nesta fórmula e aplicam-na em todas as instâncias das suas vidas.”

Mmmm….. Estará aqui a resposta para os tais brandos costumes nacionais? A mítica falta de acção do Zé Povinho?

Aqui em Inglaterra, os problemas são semelhantes, embora com diferentes especificidades. Mas a solução que encontrei assenta em desligar os meus filhos do sistema, à boa maneira do Matrix, e procurar incutir-lhes ideais diferentes. Não foi um acto de heroísmo, apenas de bom senso. Antes de nós outros houve que o fizeram e nos inspiraram a dar o salto, em relação ao qual estamos cada vez mais felizes. Depois de nós, oxalá mais apareçam, mantendo as tendências de crescimento que se têm verificado no homeschooling.

Talvez, ao atingir-se uma certa massa crítica de almas livres e independentes, o actual sistema acabe por ruir pelas bases, por não ter mais escravos emocionais (e da finança) a alimentar as sanguessugas que se agarram às veias do poder. Nesse dia, admitindo que ainda restará planeta, violências como as que assistimos hoje (e ontem e amanhã) não acontecerão, porque uma Humanidade livre de espírito não temerá a liberdade de expressão, nem a diferença de opinião, nem a realização pessoal, nem a partilha de riquezas e recursos. Até lá, seguimos em frente, em busca do salto civilizacional de que tanto precisamos. Experimentem começá-lo em casa. Os filhos dos vossos filhos hão-de agradecer-vos.

Arroz de iPhone

Posted: Março 15, 2012 in vida

Ontem a minha filha de 6 anos entornou meio litro de leite no meu iPhone.

Excelente ideia, até porque já desconfiava que a falta de qualidade da aplicação telefónica do iPhone (o melhor gadget e pior telefone que alguma vez tive) se devia a uma insuficiência proteica do aparelho.

Infelizmente, o resultado foi que o bicho deixou de funcionar. Ou melhor, o software funcionava, mas não tinha som nem o micro a funcionar, o que tornava o aparelho mais ou menos inútil.

Para salvar o dia, a minha outra filha, com o dobro da idade e aparentemente com uma licenciatura combinada em electrónica e culinária (tudo no mesmo curso), sugeriu que eu mergulhasse o iPhone em arroz, na esperança de que este, por ser seco, absorvesse a humidade láctea presa no iPhone.

Assim fiz e, 18 horas depois, com a mais baixa das expectativas o liguei de novo. Drum roll, please…….

Voilà!!! Funciona na perfeição ou, seguindo a orientação culinária deste texto, funciona na batata.

Por isso já sabem,  se molharem o aparelho (salvo seja), ponham-no em arroz seco por umas horas. Aparentemente há vários posts sobre isso com as instruções detalhadas da receita.

O(s) sistema(s) que nos rodeiam são-nos impingidos de tal maneira que em pouco tempo, normalmente ao fim de poucos anos de escolaridade e convivio familiar, a nossa inteira existência parece carecer de autorização e escrutínio de terceiros. Ou porque nos dizem que sim, ou porque se desenvolvem mecanismos legais desenhados para que não possamos escapar a tais rigores e intromissões.

Seria, julgo eu, expectável que qualquer ser nascido neste mundo tivesse o direito de nele viver anonima e livremente. Afinal, como qualquer pinguim da Antártida, somos filhos desta Terra, e nela estamos a título temporário, com usufruto dos seus recursos a título de empréstimo. Porquê tanta supervisão em torno de cada indivíduo?

Estou convencido que a esmagadora maioria dos mortais respeitaria princípios equitativos de vida em literal e absoluto anonimato sem grandes problemas, desde que providos da devida educação, claro está. E infelizmente, nesta premissa está, quanto a mim, o problema.

Numa boa parte do mundo desenvolvido criaram-se esquemas socio-económicos que destituem os pais do seu direito, consagrado no parágrafo 3 do artigo 26 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de escolher o género de educação a dar aos seus filhos, direito que, na escolha de muitos, honraria, além do mais, milhões de anos de evolução genética (através da educação provida pelos progenitores).

Para a maior parte dos pais a opção é única, pela via da escolarização de massas, necessariamente por terceiros, desconhecidos e, frequentemente, desmotivados e inaptos professores. Nessas desconhecidas e, muitas vezes, desconhecedoras mãos são colocados os sonhos de crianças e o dever de as educar. E basta ver o estado do ensino em Portugal e no Reino Unido, e a qualidade de vida e sensação de realização pessoal dos adultos deste mundo para percebermos que essa solução está longe de ser a melhor.

Dizem os pedagogos e psicólogos que as crianças aprendem melhor com aqueles de quem gostam, concretamente os progenitores. Por isso, deixem o cardeal em paz que o que ele diz faz muito sentido, antropológica, social e academicamente falando, respeitado, claro está, o direito de qualquer progenitor (das mães também) de perseguirem uma carreira profissional em vez de as palavras deste clérigo. Não há neste argumento, e julgo que na intenção do cardeal também não, um pressuposto sexista.

Numa breve tangente ao principal objectivo deste artigo, devo dizer, no que toca à polémica levantada em torno das declarações de Manuel Monteiro de Castro, que as liberdades recentemente conquistadas pelas mulheres (e ainda bem que o foram) embaciam a visão no que toca a principios fundamentais de vida animal, realmente os que mais influenciam o nosso desenvolvimento enquanto espécie e individuos, segundo os quais a mãe da cria (da galinha, do porco, do leão e do homem) tem um papel fundamental no seu desenvolvimento. E aqui, realço, mãe e pai não são iguais. São diferentes. Nenhum é mais do que o outro. São diferentes. Desempenham funções educativas diferentes, e a da mãe é particularmente importante!

Dizia eu que a necessidade de trabalho por conta de outrém, tipicamente remunerado muito abaixo da riqueza produzida por cada trabalhador, se torna em estilo de vida obrigatório para ambos os progenitores (na generalidade das famílias, como é evidente).Como se tal não chegasse, a propaganda da escolaridade mínima (educação e escolarização são coisas diferentes, e não necessariamente compatíveis) pressupõe a obrigatoriedade (que nem o é) de mandar os putos para a escola, tornando aquilo que é, de facto, uma escolha consagrada na lei, numa escolha única e sem alternativa, na mente da maior parte das pessoas. Vai daí, as crianças acabam nas escolas que o aparelho de estado controla.

Nas instituições de educação massiva e não personalizada, as individualidades das crianças são suprimidas (a começar no conceito de uniforme escolar, e a acabar no desrespeito pelas suas preferências no que toca a estilos de aprendizagem), as suas competências restringidas a um limitado currículo académico (como se no mundo só houvesse as 2 línguas ensinadas na escola, ou o valor de um indivíduo dependesse da sua capacidade de calcular o seno de um ângulo aos 14 anos), e o seu valor intelectual medido de acordo com um critério quasi-estatístico de conformância com uma escala arbitrária ditada por um governo.

O génio de cada um, presente em TODOS os indivíduos cerebralmente sãos, é, por instrumentação política, deliberadamente ignorado e trocado pela mediania, literalmente. Com excelente matéria prima, fazem-se salsichas assim-assim, como sugerem,e bem, os Pink Floyd.

A dita escala de avaliação, por seu turno, serve também como um instrumento castrador e asfixiante; A avaliação escolar é, nos dias de hoje e há pelo menos 40 anos, baseada nos resultados obtidos em testes ou exames. Nestes, raramente o 100% é atingido, o que transmite invariavelmente duas coisas possíveis ao aluno (ou ambas):

  1. Eu não suficientemente bom nesta matéria porque não tirei os 100% representativos de total satisfação dos critérios do professor (talvez até porque não gosto disto nem lhe vejo utilidade),
  2. Desde que eu vá passando nos exames vou satisfazendo os requisitos deste sistema e passo a ser um sucesso!

Ou seja, não só há uma gradual erosão da auto-estima de cada um, como há um acerto de prioridades no qual o importante não é saber mas sim ter mais do que X valores num exame cujo grau de dificuldade é tipicamente ajustado pelas escolas/professores para satisfazer quotas de aprovação. Ou seja, na avaliação de um mesmo professor em dois anos civis diferentes, o 14 de um aluno não equivale ao 14 de outro!

Como se tal não bastasse, num grupo artificialmente criado de 30 crianças da mesma idade (qual de vós tem um círculo social com quem convive 8 horas por dia em que toda a gente tem a mesma idade?!) desenvolve-se, através das notas e dos méritos, dos castigos e dos grupos de habilidade, um ambiente de competição pouco saudável, em que o sucesso individual, e não o de grupo, é encorajado e premiado, em que uns são mais “espertos” do que outros, sem que se explique às crianças que tais rankings (errados na sua génese) espelham apenas um critério muito, muito, muito estreito das suas competências conforme avaliadas num determinado dia, que falha também por não tomar em conta questões fundamentais de desenvolvimento fisico-neurológico ditado pelo bio-ritmo de cada uma das pequenas pessoas.

Com tudo isto, não admira que das “melhores” escolas saiam as grandes cabeças da Goldman Sachs e da Monsanto.

Consequentemente e em resumo, acredito piamente que a escola desenvolve mentalidades individualísticas, impede a maior parte das pessoas de atingirem o seu potencial, destrói a sua auto-estima e orienta o sucesso escolar para a passagem em exames e não para a aprendizagem. Digo-o com consciência e do alto do meu “sucesso” escolar, onde passei 18 anos da minha vida (com canudo e tudo) e que, por isso, conheço por dentro e por fora.

Por estas razões, e em grande parte a pedido deles, tirámos há um par de meses os nossos 3 filhos (6,8,12 anos) da escola para lhes oferecermos uma educação não escolarizada, assente nos seus interesses, idiosincrasias e valores, debaixo da nossa orientação e proveniente de experiências enriquecedoras (muita brincadeira, muita interacção com famílias semelhantes, muita arte, currículo tão variado quanto queiram, e ao rítmo a que pretendam seguir). Para trás ficam as rotinas rigorosas ditadas por outros, horas a fio a fazer fichas de trabalho, palestras infinitas, trabalhos de casa capazes de eliminar o equilibrio de vida de um miúdo de 6 anos, grupos de habilidade, em resumo, a escravatura escolar como preparação para a escravatura profissional.

Foi, quanto a mim, a melhor decisão que podiamos ter tomado. Em semanas, as suas verdadeiras personalidades (as tais que a escola esmagava) vieram à superfície; São mais felizes, calmos e confiantes, interagem com qualquer indivíduo de igual para igual, com respeito, assertividade e consideração, independentemente de se tratar de uma criança de 7 anos ou de um jovem de 70. São pro-activos na sua aprendizagem, investigam naturalmente, acreditam nas suas capacidades, e atiram-se de cabeça para os assuntos que, por qualquer razão, eram absolutas dores de cabeça nos seus tempos escolares.

E o mais importante é isto: A estes 3 jovens, a máquina de propaganda que ensina a população que a sociedade actual é a ideal, não lhes irá tocar mais.

É esta, do nosso ponto de vista, a nossa mais importante função, a de maior impacto no mundo, para construirmos um melhor amanhã. Estamos a desligar os nossos filhos da matriz que controla o mundo, e com isso há-de vir a liberdade deles e, quem sabe, a de outros.

Visitem o Trepar Ao Céu para acompanharem o que vamos fazendo. Entrementes, deixo-vos com algumas citações interessantes, de gente importante no domínio da pedagogia e política social.

“My education was interrupted only by my schooling” – Winston Churchill

“School is the advertising agency which makes you believe that you need the society as it is.” ~ Ivan Illich

‎’Education…now seems to me perhaps the most authoritarian and dangerous of all the social inventions of mankind. It is the deepest foundation of the modern slave state, in which most people feel themselves to be nothing but producers, consumers, spectators, and fans, driven more and more, in all parts of their lives, by greed, envy, and fear. My concern is not to improve ‘education’ but to do away with it, to end the ugly and antihuman business of people-shaping and to allow and help people to shape themselves.’ ~ John Holt

Posted: Fevereiro 22, 2012 in civilização, cultura, educação, Londres

Sérgio Castro, para quem não conhece, é um dos mais competentes, inovadores e, coisa rara nos dias de hoje, congruentes músicos da história da música portuguesa. Foi músico de bandas marcantes como o Psico nos anos 70, e fundador de uma das melhores bandas de sempre (e aqui se inclui o passado e o presente séculos, pelo menos) da Península Ibérica – Arte & Ofício. Hoje em dia, desde há 32 anos e, esperemos, durante os próximos 32, é lider da banda Trabalhadores do Comércio, um grupo com tanto de activo como de activista que acaba de lançar o que a crítica mais relevante de Portugal e Espanha considera o seu melhor trabalho até à data, para o que muito contribui o livro aí incluído da autoria do referido músico.

Pois bem, serve o presente post para divulgar a reacção de Sérgio Castro, que subscrevo na íntegra, a um recente manifesto da autoria de profissionais da rádio portuguesa Antena 3. Quem quiser, pode juntar-se ao grupo do Facebook onde tal reacção foi tornada pública. Abaixo, incluo na íntegra a dita reacção.

Outra estratégia para Antena 3 – Sérgio Casto, 8 Fevereiro 2012

Embora a lógica do momento aconselhe a outra atitude, pois temos, há já semanas, um disquinho na rua a pedir “airplay” como “pom p’rá bôca”, meus caros Henrique Amaro, Fernando Alvim e demais “estrelas” do éter, não vos posso ajudar. Nem sequer com o simples gatafunho da minha rubrica no vosso manifesto. E antes que sucumbam à tentação de etiquetar-me, devo esclarecer que é simplesmente um acto de coerência (http://www.infopedia.pt/lingua-portuguesa/coerência).

Se nestas democracias liberais que nos impõem as macro-agências do “rating”, as bases piramidais que as sustentam (a ambas – às democracias liberais e às agências) são substituídas cada quatriénio por outras supostamente alternativas, embora do mesmo calibre e base de apoio – tal qual uma mudança de pneus – porque razão não hão-de os paradigmas da rádio pública e quem os sustenta, sofrer regularmente uma revisão, um alinhamento de direcção e, já agora, por que não, uma mudança do óleo.

E não vale camuflar isso de perseguição política, que até não seria de estranhar dada a habitual destreza com que os governos de qualquer destes estados sul-europeus se livram de obstáculos à suas políticas de “progresso económico-social”. Não, isso é provavelmente uma consequência das progressivamente baixas audiências dessa estação pública, paga com os dinheiros dos contribuintes como eu e que se tem dedicado nos últimos tempos a funcionar como um poderoso escaparate de alguns interesses e tendências, servindo públicos minoritários e específicos (?!) (sic vosso próprio manifesto). Um escritor e poeta da nossa praça, dizia há dias com grande ironia que ‘a RTP e as emissoras que a compõem são a sala de visitas de meia dúzia de apoderados da “cultura” na (da) capital’.

A cultura, meus caros, essa sim é por natureza abrangente e ecléctica. A Antena 3, não. À cultura não se lhe pode por limites, nem rótulos. Não é que não tentem, mas não conseguem. A cultura é viva, autónoma, livre. Emana de dentro de cada um de nós e somos muitos, muitos mais que os actuais ouvintes da Antena 3 (sic vosso próprio manifesto) os que por todo o país, por todo o planeta, aportamos um pequeno grão de areia, cada hora, cada dia, a essa “entidade” indefinida e em expansão universal que é a CULTURA, da mesma forma que manifestamos o direito a aceder a ELA.

O vosso manifesto é uma declaração de boas intenções que faria todo o sentido, não estivesse ele vácuo da verdade. A hipocrisia e falta de humildade latentes e patentes em frases como as rádios privadas constroem a sua realidade recorrendo apenas a um presente que circula na espuma dos dias, por oposição ao serviço público que trabalha para assegurar uma memória ao mesmo tempo que perspetiva um futuro” é seguramente uma afirmação contaminada por uma ética profissional pouco recomendável.

O vosso manifesto raia a fronteira do terrorismo intelectual, como se pretendesse deixar um aviso à navegação, que sem Antena 3 (pelo menos no seu formato actual) não há futuro para a cultura em Portugal. Não, meus caros, a Internet e as centenas de blogs a que todos temos livremente acesso e que, desinteressadamente, se dedicam a divulgar o que se faz (e fez) em Portugal em termos de CULTURA musical, cumprem já essa tarefa e de maneira bem mais eficaz.

E, já agora, essa suspeita insistência no termo “canal jovem” inquieta-me de sobremaneira. Que se pretende ao utilizá-lo até à exaustão? Criar os alicerces para uma possível “guerra civil” entre “novos” e “velhos”? Quem decide sobre a definição de uns e de outros e em que se baseia? Teorias antropológicas, dogmas filosóficos? E que significa que o escalão etário da Antena 3 é dos 20 aos 45 anos? Será que o plantel de assinantes do Manifesto preenche com exactidão este requisito? Pois se calhar! Pois tenho más notícias para os que já andam pelo limite superior: Como já tereis notado, os folículos capilares já não se vos regeneram com a mesma facilidade. E o mesmo acontece com os neurónios que, invariavelmente começam a morrer por altura dos 40. Mas não é grave, pois aos 86, Saramago ainda escrevia e de que maneira. Mas estaremos a partir dos 45 impedidos de gostar de novas tendências, de novas formas de arte, como se, de repente, nos achacasse algum tipo de presbitismo mental? Haverá alguma lei natural que a tal nos conduza?

E para os dos 20, as notícias também não serão melhores. Como se diz aqui na Galiza, “No teneis ni puta idea” do que se passa ao redor. Já vereis como aos 45 sereis, não só, mais velhos mas, e principalmente, mais sábios. Mas para tal impõe-se uma mudança de atitude.

Que vos impele a acreditar na vossa indispensabilidade? Se vos serve de exemplo, a Rádio 3 (que curiosa coincidência numérica), da Radio Nacional de España, faz esse serviço também. É ecléctica e abrangente. Pode melhorar? Pode com certeza, mas está a anos-luz daquilo que faz a Antena 3. Digamos que já vai noutra galáxia.

Por conseguinte a Antena 3:

  • Não divulga e menos ainda representa a cultura e a língua do país. Sobre esta última e a forma como a mal usam, podería preencher um par de folhas mais, mas não é o momento.
  • Equivoca-se rotundamente, por exclusão, nos exemplos paradigmáticos que crê que são a essência da música portuguesa.
  • Falha em reconhecer que é a expressão máxima da formatação e segmentação radiofónica, com a agravante de ser ostensivamente excluente.
  • Não percebe que o único factor que a distingue cabalmente das privadas é isso mesmo, não ser privada e saber que o “salariozinho de funcionário” está garantido no fim do mês, mesmo que o desempenho tenha sido fraco e os resultados piores. E sabem porquê? Porque “a patrão fora, dia santo na loja”. Claro, os patrões – nós todos – não fazemos visitas periódicas à empresa!
  • Não é um laboratório de ideias de programação, nem estimula coisa nenhuma, da mesma forma que não constitui espelho criativo de uma área maior que a superfície que ocupa no espaço que lhe foi atribuido num dos edifícios da Avenida Marechal Gomes da Costa. A Antena 3 e, ultimamente o grupo RTP, olham para o seu umbigo e criam programas de “caça ó talento” por vezes com regras e obrigações contratuais inaceitáveis, em conivência com empresas discográficas privadas, tão infames quanto o resultado desses próprios programas. Por isso a sua legitimidade é também, temo, nula.

Por isso meus caros firmantes do manifesto, tenho que dar-vos uma última má notícia: não posso, nem quero, ajudar-vos. E como eu, estou convencido, uma imensa maioria de criadores musicais em Portugal, vos deixará na valeta da vossa ignomínia.

E por favor, para bem da CULTURA, deixem a ciência, a tecnologia, a ecologia, o mundo universitário, a investigação, o domínio das artes e a cidadania em paz. O vosso contributo para a música portuguesa já nos encheu as medidas.

Já basta!

Sérgio Castro (ouvinte assíduo)

Ora está Portugal e meio em polvorosa por causa dos Alemães, e da Fräulein Angela em particular, acusando-os de querer implementar o Quarto Reich através de instrumentos de guerra económica, agora que os Fritz anunciaram que querem um dos deles a tomar os destinos orçamentais da Grécia e de Portgual, para garantir o bom governo de capitais.

Não tardaram as vozes do Zé Povinho e, com notável falta de clareza política, dos seus Senhores, a reclamar a falta de soberania que tal arranjo representaria. Eu, estando de acordo com a ideia da falta de soberania, não estou de acordo com o protesto de nenhuma das partes e, pensando de forma suficientemente retorcida, consigo até encontrar alguns potenciais benefícios neste arranjo, conforme explicarei em seguida.

Antes de mais, convém lembrar que quem corta o bacalhau não desempenha cargos políticos. Quem corta o bacalhau nomeia cargos políticos para que os interesses corporativos que protege sejam garantidos em forma de lei, isenções fiscais (para o “patrocinador”), aumentos de impostos (para todos os outros), reduções salariais, e um vasto etcétera que não vale a pena aqui enumerar.

Desse ponto de vista a menina Merkel é apenas uma funcionária de outros, assim como o Passos Coelho o é, embora numa posição hierárquica de muito menor prestígio. Digamos que a Merkel é uma espécie de Directora de Operações (COO) e o Passos Coelho é chefe de uma agência bancária de uma remota localidade, com uma carteira de 4 clientes todos eles tesos. Outros mais retorcidos do que eu diriam que dado o estado da nação, o Passos seria uma espécie de limpa cagadeiras, mas adiante.

O inimigo, dizia eu, está mais acima e, parafraseando Sérgio Castro dos Trabalhadores do Comércio, é o sultão da energia, é o rei do remédio, é o que vende a pistola e financia o assédio, vende o craque da bola, manda homens para a luta, é o que nunca dá a cara, é o filho da puta. Tem razão, e assim sendo, os políticos estão a gerir um programa com objectivos tão claros quanto ocultos e subversivos. A palavra chave aqui é gerir.

Há muitos modelos de gestão, e o centralismo é um deles. O que Merkel está a tentar fazer é centralizar as políticas económicas da União Europeia debaixo de um comité próximo de si e dos interesses que protege. Os nossos governantes devem estar bem familiarizados com esse modelo, até porque o adoptaram há já muitos anos “a bem da nação”.

Não lhe agrada à menina Angela a ideia de federação económico-política com a respectiva autonomia orçamental e fiscal dos estados membros, da mesma maneira que não agrada aos nossos governantes a ideia de uma federação de regiões em portugal, com a respectiva autonomia orçamental e fiscal.

Face a isto, parece-me que aos nossos dirigentes restam duas possíveis decisões:

  1. entregarem, de imediato e proactivamente, a soberania orçamental à UE, respeitando a ideia que têm defendido nos últimos 30 anos de que o centralismo é bom e se recomenda, matando imediatamente esses gritos idiotas de soberania orçamental regional
  2. praticarem essa ideia do federalismo desde já no território nacional, começando por deixar de roubar todo um país para alimentar o vale do Tejo, e acabando por implementar, sem referendo, a regionalização prevista na constituição.

Agora, usar um argumento ou outro consoante o que mais lhes interessa é pouco honesto. Defender o centralismo dentro de portas e gritar contra ele na Europa, é de uma hipocrisia quase inacreditável, possível apenas na política em Portugal.

A esses governantes eu pergunto: Percebem, agora que vêem o outro lado da moeda, que esta tanga do centralismo é realmente asfixiante? Em que ficamos meus senhores? Regionalização já, ou aceitar o centralismo imposto pela UE? É que, francamente, eu não reconheço integridade de valores numa terceira via, se é que ela pode existir.

Dito isto, eu estou quase  tentado a aceitar as recomendações da Merkel. Digo isto porque a União Europeia reconhece formalmente o Norte de Portugal e a Galiza como uma região única, compartilhando características especiais (genéticas e antropológicas, entre outras), e por isso mesmo lhe atribui uma série de subsídios destinados ao seu desenvolvimento. Infelizmente, esses fundos são roubados pelo Terreiro do Paço para investimentos no Vale do Tejo debaixo do argumento de que todo o país beneficia com o que se faça na capital do império, da mesma maneira, diria eu, que Lisboa beneficiará com os desvios que a menina Merkel quiser fazer no sentido Lisboa – Berlim.

Com isto dei comigo a pensar:

E se à custa do controlo orçamental em Portugal operado pela equipa da Merkel, o Norte e outras regiões violentadas pelo centralismo começassem a ver (de facto) os fundos que lhes são destinados pela UE? Ficaríamos a ganhar seguramente, e até era maneira de castigar a máfia centralista que nos rouba actualmente. Francamente, é-me indiferente ser roubado por uns ou por outros, e a equipa Merkel ainda não teve oportunidade de mostrar o que pode fazer pela região que amo até ao osso. Da minha parte, menina Angela, mande lá o seu contabilista dizer onde podemos gastar os melreis, que pode ser que nos toque aquilo que é nosso de direito e nos tem vindo a ser roubado.

Os centralistas convictos que agora vêm reclamar perda de autonomia que se fodam, que o povo a que eu pertenço já sofre à custa do centralismo deles há muitos anos.

Alternativamente, e melhor ainda, os centralistas que pratiquem o que apregoam no seu mais recente protesto; Que reconheçam que o centralismo é realmente um modelo que só funciona para alguns e à custa da miséria de uma imensa maioria, e que implementem desde já no território nacional a essência dos seus actuais argumentos, dando autonomia orçamental e fiscal às regiões de Portugal, sem referendo nem demora.

Francisco Gouveia, músico multi-instrumentista, compositor, maestro, escritor, é por estes e outros atributos alguém cujas opiniões musicais merecem a atenção de todos os que gostam de música.

Há cerca de uma hora, fui surpreendido por um email seu, pedindo-me que distribuisse a sua análise ao Das Turmêntas Hà Boua Isperansa pelos demais elementos dos Trabalhadores do Comércio e, se o achasse merecedor, por outros gavetos da internet. Aqui fica para vossa apreciação, agora que limpei a baba dos queixos. Obrigado pelo dispêndio de tempo e tinta, Chico!

A deslumbrante capa do disco/livro dos Trabalhadores do Comércio é de Alberto Almeida

TRABALHADORES DO COMÉRCIO:

A CONCRETIZAÇÃO DA UTOPIA

Ao acabar de ouvir o novo álbum dos Trabalhadores do Comércio: “Das Turmêntas Há Boua Isperança”, deu-me vontade de subir ao topo da Torre dos Clérigos e gritar para todo o mundo: não me dêem mais música da outra que eu já sou crescidinho!

Mas como sei que não haveria no Poder dois doutores que dessem pelo meu recado, não o fiz. Antes, resolvi agarrar-me a esta folha e descarregar o que para aqui vai escondido. Cada qual luta com as armas que tem!

De facto, olha-se para este grupo, esta banda, esta cooperativa musical, como um boi olha para um palácio quente em dia de geada: com vontade de entrar lá dentro e não mais sair enquanto durar a borrasca. E como a borrasca vai andar a dar-nos cabo da vida por muitos anos, o mais provável é continuarmos a acoitar-nos na confortável protecção destes Trabalhadores e pedir aos santos do Olimpo que os conserve com genica para se meterem outra vez nestas aventuras.

Os Trabalhadores sempre se recusaram a entrar na barca que os carregaria confortavelmente até à foz, preferindo seguir a nado contra a corrente, rumo à nascente. E nesta utopia caminham desde que nasceram. Porque o projecto dos Trabalhadores é uma utopia. Tão grande como a altura do Serjom, tão extensa como os anos que levam a vivê-la, tão diversa como as personalidades que o compõem. Depois, há a logística impressionante de conseguir juntar os elementos de uma banda que, no dia a dia, estão tão distantes como do Porto a Vigo, de Vigo a Londres, de Londres aos EUA!

E há o mercado, porque os discos não se fazem senão houver euros para os pagar!

E há ainda esta idiossincrasia dos Trabalhadores, que é a de não se padronizarem, não se regerem por matrizes, recusarem o banal, a reverência, as modas, o musicalmente correcto.

Vejam bem: ao ouvirmos qualquer dos grupos de topo do nosso “rócanrole”, facilmente os identificamos. Têm uma matriz que não largam há anos. Uma receita a que se agarraram como quem come pão com queijo todos os dias. Aos primeiros acordes, a gente já sabe quem toca. Não sei se isto é defeito ou virtude. Tenho-o como limitação. Uma espécie de estabelecimento prisional onde o preso, por lá estar há muitos anos, já não quer sair com medo do que possa encontrar lá fora.

De tudo isto e muito mais, resulta que a tal utopia dos Trabalhadores poderia ser, à partida, um fracasso facilmente previsível.

Mas como de previsões furadas está o mundo cheio, o certo é que os Trabalhadores vão conseguindo a maravilha de ir concretizando a utopia. A utopia de poder ser diferente, e sobreviver num mundo musical que está agarrado a padrões e a matrizes quase inquisitórias. E viver a plena liberdade de poderem fazer o que entendem e não o que os mercados impõem.

Sejamos concretos: a maioria dos grandes grupos portugueses e mundiais, andam prisioneiros de estilos, de modas, do tal padrão de que falei. Não os vejo a dar o salto para o outro lado da margem, ou a terem sequer a coragem de o tentar. E isto é uma forma de encarceramento. Por livre arbítrio, o que é mais grave.

Os Trabalhadores saltam a margem, e, acima de tudo, pulam as cercas das quintarolas da nossa lusa mediocridade. Com a mesma facilidade com que saltam de um blues para um rock, de um funkie para o jazz, do folk para o tango. E há também as palavras, duras, incisivas, mordazes, de cortar à faca. E já nem falo da apresentação, senão cai-me a confraria moralista dos “nóbus analistas musicaizes” em cima, sem dó nem ré.

“Das Turmêntas Há Boua Isperança” é um álbum para quem não tem medo de sustos nem gosta que um disco tenha uma côdea suculenta e o meio seja um miolo mal cozido. Há uma ambiência musical diversificada, onde pontua uma espécie de salutar demência bipolar, que vai desde a garganta improvável de um Joe Medicis à cicatrizada de Sérgio Castro, passando por um trio feminino de luxo que, individualmente, fazem qualquer festa sozinhas (Diana Basto, Daniela Costa e Marta Ren). Esta será outra utopia que venceram: a de as terem conseguido reunir com esta consistência “familiar”.

Dentro do álbum, está, quanto a mim (e quando digo quanto a mim, é quanto a mim e ponto final) o melhor tema de 2011, com danos colaterais extensivos a 2012: Gladiador. Letra simples mas incisiva e eficaz, música sem colcheias a mais nem a menos, interpretação no ponto, arranjo irrepreensível, mistura idem aspas. O tema é da autoria do António Garcês (que anda lá pela América) e de Sérgio Castro (pousado em Vigo), o que prova que os filhos podem ser feitos por correspondência, mesmo dando em gladiadores.

Os Trabalhadores do Comércio serão, porventura, a melhor banda portuguesa. Não por serem melhores do que os outros (eu sei lá quem é melhor ou pior! Sei do que gosto), mas por serem diferentes. E conseguem ser diferentes porque são livres. E, no mundo de hoje, onde a norma é habituarmo-nos a ser prisioneiros do que os mercados ordenam, é preciso ter uma inteligência limpa de quadraturas e possuir uma grande arte no sentido mais lato, para se ter a ousadia de se ser livre.

Os Trabalhadores do Comércio vão-nos demonstrando, disco a disco, que é possível concretizar esta utopia maravilhosa que é a de manter os sonhos vivos, e de os ir concretizando passo a passo.

E é esta liberdade, a verdadeira liberdade, que os faz ser superiores, e indiferentes a qualquer “playlist” dos trabalhadores da imbecilidade, ou a qualquer TOP+ do comércio musical.

Chico Gouveia