Prende-se a língua, prendem-se as ideias

Posted: Setembro 27, 2011 in cultura, Jornalismo, Liberdade de Expressão

Ora com tanta coisa para fazer, tinha logo de aparecer uma dessas coisas das “regras” para me desencaminhar e me trazer para o Blog. Mais uma vez, passaram-se meses sem aqui escrever, por falta de tempo, mais do que qualquer outra coisa. Desta vez, o assunto é línguas.

Hoje li no Facebook, em vários perfis, a estupefacção de muitas pessoas, a juntar à minha própria, ao aprenderem o “verdadeiro” plural de “refrão”.

Não estou sequer preparado para admitir que afinal as minhas canções têm refrães, porque não têm. Foram escritas, como muitas outras, de muitos compositores, com refrões com um O bem redondo.

Claro que não está aqui em causa debater a magnifica sapiência dos linguístas que nos chamam a atenção para estas coisas, mas antes chamar a atenção para a sua função, que parece ter um caracter um tanto ao quanto dictatorial em Portugal.

Depressa se apressaram os amigos dos meus amigos, qualquer deles mais cultos do que eu, pelo menos em matéria linguística, a explicar que a regra depende do som da sílaba átona, e que daí se escolhe se de “ão”  se passa a “ãos”, “ões” ou “ães”.

Como alguém dizia nessas discussões, isto é pior que levar um xuto nos quilhães.

Era capaz de jurar que 99% dos portugueses diz “refrões” e não “refrãos” ou “refrães”. Não será isto motivo mais do que suficiente para garantir a este plural legitimidade linguística?

Realmente, e pensando na qualidade de nortense de cujo sotaque me orgulho e faço por perservar, o som “ães” e “ões” é extremamente parecido quando dito na terminação de uma palavra, sendo o primeiro mais difícil de dizer que o segundo. Não terá o plural “refrões” evoluído fonicamente do original “ães”. Seria uma justificação mais do que plausível, sendo se calhar até provável! Realmente, quanto mais penso nessa possibilidade mais ela se me afigura como certeza – algo que, evidentemente, não estou em condições de provar.

Admitindo que possa ser esse o caso, pergunto: As metamorfoses fonéticas, não fazem elas próprias parte da evolução de uma língua? Realmente, não o serão mais legitimamente do que ideias políticas e comerciais de unificação de idiomas semelhantes (mas diferentes!) que atropelam a riqueza única de cada uma dessas variantes linguísticas e das culturas que representam?

Mas afinal a Língua é refém da Gramática, ou será esta última uma tentativa (sempre incompleta e atrasada) de formalizar, de um ponto de vista analítico, a primeira? É que, meus amigos, a Lingua é aquilo que as pessoas usam para comunicar e não aquilo que 4 “entendidos” decidem pôr num compêndio de regras e menos ainda o que 2 vigaristas decidem cagar em forma de lei debaixo do título de “acordo ortográfico” (acordo entre quem? e quem não está de acordo?).

A Lingua é uma coisa viva, dinâmica, cheia de regionalismos e sotaques. O “Pape-sêque” de uns é o “pom” de outros, e quer num caso quer no outro, muitos refrões (sim, escrevi bem) foram e hão-de ser escritos.

Os linguístas que façam o favor de acompanhar, com reverência, a lingua falada em vez de a estrangularem com as suas regras apertadas. É o que fazem no Reino Unido, onde vivo. Todos os anos novos termos são adicionados ao Oxford English Dictionary, que tem como entradas recentes palavras como “lol“, “google“, e expressões tornadas comuns na sequência de eventos marcantes. Significa isto que a linguística está ao serviço da língua falada e não o contrário.

Dito isto, não pretendo que a ignorância de sobreponha ao saber, e fico, de facto, mais rico ao aprender que o plural de refrão, nos livros dos linguistas, é refrães. Mas se não o é no meu círculo de amigos feito de fotógrafos e engenheiros, guitarristas e médicos, contabilistas e professores, de gente dos 10 aos 80, a frequentar a quarta classe ou a acabar o seu pós-doutoramento, porque hei-de adoptá-lo?

Os linguístas não podem ser ditadores da língua que se fala. O povo não pode permitir tal coisa, porque com a prisão da língua vem a prisão das ideias e, com esta, a morte dos sonhos. Libertem-se e imortalizem os vossos ideais em refrões que todos possamos cantar!

E a terminar, deixo-vos com um comentário de um amigo meu, em resposta a uma terceira pessoa que de nós se despedia para ir a uma aula de línguas: “Ai sim? Eu também tirei um curso de línguas, mas foi no Clube 84“. Clássico!

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Comentários
  1. essa é como a do gajo que foi aos pões e disse: não me dêem liçães que eu seu muito bem o que são pães……….ou a senhora a quem doía o peito….para o médico a mandar ao genecologista foi preciso a mulher dizer cabreito.pastel(beijinhos p´ra toda a família)

  2. maria diz:

    grande dissertação sobre linguistica! Amei,como amo os “vossos” refrões,:)

  3. Reconheço que a norma linguística do português está cheia de casos. Deve-se ao facto de o português ser uma língua rica quando comparada com a língua inglesa.
    No entanto não é propriedade privada mas de uma comunidade que a fala, logo não …é possível mudar as regras do seu uso a título individual, assim como na medicina não se alteram as terapias só porque um médico assim o entende…
    A questão dos regionalismos não pode ser introduzida nesta discussão, pois a palavra “refrões” é usada pela maioria dos falantes de português. Regionalismo não é sinónimo de maltratar a língua, mas sim de enriquecê-la com outros vocábulos e outras formas de falar.
    Em linguística, tal como noutras ciências, nada do que é tido como provado é eterno – tudo pode ser refutado…
    A fonética e a fonologia ocupam-se, de facto, dos sons da fala, mas a linguística engloba também o estudo da morfologia, sintaxe, etc.
    De qualquer modo fez uma reflexão muito interessante. A língua pode e deve modernizar-se em vez de se perder tempo com acordos ortográficos, como este último, que são um autêntico disparate.

    • joemedicis diz:

      Miguel,

      Antes de mais, um enorme obrigado pelo excelente comentário e clarificações (termo que não sei se existe, mas que pedi emprestado ao inglês). 100% de acordo com o que diz.

      A questão do regionalismo foi trazida à baila num sentido um pouco mais inter-continental do que propriamente nacional, embora se aplique aí também (a malha vs. chinquilho, batata vs semelha, etc).

      A minha pergunta (e é mesmo uma pergunta porque me faltam as estatísticas e o fundamento linguístico) é esta: Se pensarmos que a linguística (como a Análise Musical) são ferramentas importantes de análise e normalização, no caso da linguística, importantes para que a comunicação seja tão eficaz quanto possível, não deveria aceitar os “refrões” como uma norma de facto e explicar tal irregularidade com qualquer coisa que vá da mutação fonética à simples adopção massivamente popular?

      Com isso legitimaria no papel o que uma população inteira já legitimou há muito na prática corrente (excepção feita a alguns eruditos que, com todo o direito e até com merecido orgulho, usam a via etimologicamente correcta)? Julgo que neste caso não corresponderia a um maltrato da língua comparável por exemplo ao um “eles hadem vir” ou “para que póssamos”, estes sim usados por uma minoria (se calhar demasiado grande) menos versada no português correcto.

      São perguntas a que só os entendidos na matéria poderão responder. A minha opinião de membro da plebe, é conhecida.

      Já quanto ao novo acordo ortográfico, “disparate” é um termo que não faz justiça ao teor e princípios subjacentes ao dito acordo. Na minha terra (e noutras também) há palavras que se usam com muita propriedade para descrever as entidades que nos impingem estas palhaçadas, palavras essas que, etimologicamente correctas ou não, toda a gente percebe com a mais aguda das precisões. Mas como o blogue é público e pode ser lido por menores, eu fico-me por aqui ;)

      Abraço

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